Dólar
R$ 4.96 Desceu
Euro
5.804 Desceu
Brasília
25°C 26°C 17°C

Explore Mais

Colunas exclusivas e conteúdos especiais

CULTURA & ENTRETENIMENTO

“O Agente Secreto” é genial e eu explico por quê

A ditadura brasileira era uma aliança entre empresários e a extrema direita que dura até hoje

Você foi ver ‘O Agente Secreto” e não gostou. Chegou no cinema todo empolgado, mais um filme brasileiro indicado ao Oscar, depois da vitória retumbante de “Ainda Estou Aqui” ano passado, Wagner Moura no elenco, o que é garantia de genialidade, mas… saiu da sala encafifado. “Sei não”, me disse mais de uma pessoa. “Muito lento”, me falou outro bocado de gente. 

Pois eu estou aqui hoje pra te dizer o seguinte: “O Agente Secreto” é sensacional! É de uma genialidade sutil e inescapável. Mas não é algo explícito, escancarado. Não! É quase secreto, como o título indica. 

Eu só descobri depois de uma conversa aqui, outra ali e um bate-papo final com Carol, minha filha que é jornalista, poeta, feminista, comunista, atriz e, acima de tudo isso, historiadora. 

Foi como historiadora que ela a mim revelou o óbvio — como todos sabemos, por Nelson Rodrigues, só os profetas enxergam o óbvio: a historiografia brasileira debate há anos a natureza da ditadura militar que nos açoitou entre 1964 e 1985. 

Era um movimento político-militar puramente ou algo mais amplo, uma ditadura empresarial-militar? Essa questão ainda não está fechada e suficientemente estudada entre nossos historiadores. 

Porém, a arte, em geral, e o cinema, em particular, não precisam do carimbo científico para ir adiante. “O Agente Secreto”, pois, acelera a questão. Exibe as veias abertas da aliança dos grandes empresários da época com o poder tomado à força pelos milicos. Afinal, a história é sobre uma série de crimes cometidos depois do roubo de uma pesquisa acadêmica por um grande empresário paulista com alto cargo no governo.

Para mim, que fui criança naquele Recife da década de 70 magistralmente reconstruído por Kleber Mendonça Filho, a película cala muito forte à alma. Sim, eu morria de medo da Perna Cabeluda, uma das assombrações mais singulares daquela nação chamada Pernambuco (tinha também Pio dos Olhos Verdes, que era um criminoso ascendido à lenda urbana, mas isso é outra história). 

Eu não posso escrever sobre “O Agente Secreto” e não falar da dona Sebastiana interpretada por Tânia Maria. A atuação é colossal até mesmo para quem não é recifense como eu, e, portanto, não conheceu centenas de donas sebastianas iguaizinhas a ela na cidade-mangue. 

Toda essa imensa carga cultural que mistura carnaval de rua, frevo, tubarão, calor, gente feia e mal-arrumada, preconceito xenofóbico do Centro-Sul contra o Nordeste com um roteiro que conta a história com muitas idas e vindas no tempo, tudo embalado na direção de arte primorosa, torna “O Agente Secreto” aquilo que realmente é: uma obra de arte sutil, reveladora e ferozmente nordestina, pernambucana e recifense — genial, mas muito mais do que isso, atualíssima.  

Note bem, temos neste exato momento o desenrolar de um escândalo flagrante envolvendo o Banco Master e o BRB, um banco público, controlado pelo Governo do Distrito Federal. A serpente começou a ser chocada em 2020, em plena gestão Bolsonaro, ela mesma uma caricatura da ditadura militar. 

Á época, um bon-vivant mineiro chamado Daniel Vorcaro, herdeiro do grupo Multipar, do ramo imobiliário, compra por 25 milhões o pedaço de um banco pequeno, o rebatiza e, catapultado por operações lunáticas (pagava juros a quem comprasse seus CDBs quase duas vezes acima do valor de mercado), amplia seu capital para 60 BILHÕES de reais pelos quatro anos seguintes. 

Aquilo ali era uma maluquice desde o começo. Mas cinco anos atrás, no auge do bolsonarismo, o “fenômeno” era incensado como um lindo exemplo de prosperidade (eles amam um troço chamado Teoria da Prosperidade), algo a ser celebrado e até louvado como grande exemplo do que acontecia a uma empresa quando o governo não a perturbava com regulações e fiscalizações (o tal liberalismo defendido por Paulo Guedes). 

Foram outros os motivos pelos quais o Brasil interrompeu o bolsonarismo na eleição de 2022. Mas o velho e bom capitalismo de compadrio, tão arraigado no país ao longo de nossa história, estava de novo na sala. E por lá ficou. Ou por cá ficou, pra ser mais exato.

Ainda neste ano, dois mil e vinte cinquíssimo, políticos do alto bolsonarismo arrumaram o socorro de 16 BILHÕES do BRB ao Master, junto ao também bolsonarista Governo do Distrito Federal

A aliança político-empresarial que “O Agente Secreto” desnuda na década de 70 está aí até hoje causando mal ao país. Lá como cá é sempre a extrema direita se unindo a grandes empresários numa roda que se retroalimenta de lucros e financiamentos eleitorais, malgrado nosso, o povo brasileiro. 


Ugo Braga, jornalista, é um dos curadores de conteúdo da Frente Livre.   

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Final da página
WhatsApp

Frente LIVRE

Normalmente responde dentro de uma hora
Frente LIVRE

Olá 👋

Fale com o ciberporto da esquerda popular ✊💡

20:57