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Governo bebe a gasolina para o mercado atear fogo

Com a promessa sutil de desacelerar a economia para conter a inflação, Brasil combina juros estratosféricos com austeridade, criando assim a receita perfeita para futuras derrotas

Em meio a um cenário de crescente descontentamento popular com o encarecimento do custo de vida, parece haver uma intensificação da práxis neoliberal que norteia a política econômica de Fernando Haddad. 

A superação da Curva de Phillips

Em seu célebre artigo de 1958 “A relação entre o desemprego e a taxa de variação dos salários monetários no Reino Unido, 1861-1957”, o economista Alban William Phillips consagrou a famosa Curva de Phillips, uma teoria macroeconômica que demonstra uma relação entre taxas de inflação e desemprego. Posteriormente, a relação estatística foi formalizada pelo economista Robert Lipsey e incorporada ao marco teórico keynesiano por Paul Samuelson (Prêmio Nobel de 1970) e Robert Solow (Prêmio Nobel de 1987). 

A premissa básica destes economistas seria de que a relação entre as variáveis indicaria uma correlação inversa, ou seja: quanto maior o desemprego, menor a inflação, e vice-versa. Conceitual e logicamente, quanto considera-se apenas o consumo das famílias e empresas, a Curva de Phillips parece fazer sentido. Se há mais pessoas empregadas, há mais pessoas consumindo, maior seria a demanda por bens e serviços e, portanto, haveria um aumento nas taxas de inflação. Por outro lado, se há menos pessoas empregadas (maior desemprego), menor seria o consumo e menor seria a inflação. 

Faria sentido se vivêssemos em manuais de Introdução a Macroeconomia publicados por editoras de universidades anglo-americanas. Como vivemos no mundo real – onde existe imperialismo, luta de classes e disputas geopolíticas – a interpretação de indicadores macroeconômicas demanda que nos debrucemos mais profundamente sobre essa mesma realidade. Nesse sentido, as múltiplas conjunturas de estagflação (inflação combinada com estagnação e desemprego) decorrentes das crises do petróleo dos 1970 tornaram a Curva obsoleta e fizeram cair o pressuposto de que toda inflação é de demanda. 

Aos/às analistas que se propõem analisar a nossa economia nacional, é mandatório que levem em conta os seguintes elementos: 

i) nossa posição dependente e periférica no capitalismo global; 

ii) a desindustrialização e reprimarização desde os anos 1980; 

iii) o impacto do Consenso de Washington no arranjo institucional brasileiro; 

iv) a ausência de planejamento estratégico de longo prazo; 

v) e a dependência em relação às oligarquias internas e ao capital financeiro internacional.

A atual conjuntura econômica?

Feitas todas essas considerações, partamos agora para a atual (e tenebrosa) conjuntura brasileira. Tivemos em 2024 um IPCA acumulado de 4,83% com uma taxa de desocupação de 6,6%, a menor da série histórica. Se analisarmos os dados friamente podemos aferir duas conclusões: a economia brasileira refuta a teoria da Curva de Phillips (pois verifica-se um cenário de baixa inflação com baixo desemprego) e vive-se um cenário próximo ao pleno emprego com elevados níveis de poder aquisitivo. 

Porém, para realmente compreendermos a gravidade do momento político e econômico, é preciso destrinchar o IPCA, que representa nada mais do que uma média geral das variações de preços. Fatores como a alta no dólar e no preço dos combustíveis (aumento acumulado de 9,71% na gasolina) tiveram um significativo impacto na inflação de alimentos e bebidas (+7,69% em 2024), o que pesa mais sobre as pessoas mais pobres, dado que este setor da sociedade dispende uma porcentagem relevante de sua renda com bens de primeira necessidade. Itens básicos das mesas das famílias brasileiras como carnes (+20,84%), óleo de soja (+29,21%), leite longa vida (+18,83%) e café moído (+39,6%) têm aumentado o seu peso nos orçamentos familiares. 

O gráfico ilustra a evolução da inflação de alimentos no Brasil em 2024. Elaborado pela Trading Economics a partir de dados do IBGE. 

A inflação por si só não representaria uma queda no poder de compra das famílias mais pobres se a sua renda crescesse acima do nível da inflação (isto é, se houvesse aumento real). Contudo, o que se verifica é justamente o oposto: o Bolsa Família não foi reajustado em 2024 e 2025 e o ganho real do salário mínimo para 2025 foi de somente 2,5%. Com isto, as famílias mais vulneráveis, cujas fontes de renda estão associadas ao salário mínimo (aposentadoria mínima, BPC, pensão por morte e abono salarial), perderam significativamente o seu poder de compra e passam a demonstrar o seu descontentamento com o governo (leiam-se os resultados das últimas pesquisas Quaest). 

As reais causas da inflação

Vimos acima que o Brasil apresenta um cenário inflacionário que pode ser identificada somente quando destrinchamos o valor do IPCA. Evidentemente não vivemos uma crise de hiperinflação e estamos muito distantes de um cataclisma (como gostam de profetizar os neoliberais e ortodoxos brasileiros), mas é preciso assumir que a inflação de alimentos penaliza especialmente as parcelas mais vulneráveis da classe trabalhadora e alguns setores das camadas médias. 

Enquanto o governo celebra os indicadores agregados em tom triunfalista, a sua popularidade derrete no seio de sua base histórica e deixa-se de aproveitar o tempo para buscar soluções de curto e longo-prazo para a inflação de alimentos. 

Ao contrário do que nos contam os neoliberais, a inflação brasileira não é resultado de uma crescente demanda das famílias, mas de um conjunto de elementos externos e internos. O aumento do preço de alimentos está relacionado com a alta do dólar (o câmbio fechou o ano em R$ 6,179), o aumento do preço do barril de petróleo Brent e efeitos climáticos como secas, queimadas e pelo fenômeno La Niña.

Enquanto o câmbio em alta pressiona o preço de matérias-primas e produtos importados, a alta do diesel encarece o transporte de mercadorias, em especial o escoamento das safras num país totalmente dependente do modal rodoviário. As intempéries climáticas comprometeram a produção e oferta de alimentos, agravando a subida dos preços impulsionada pelo aumento do diesel e do câmbio. 

Apesar das inúmeras evidências empíricas e estatísticas das verdadeiras causas da inflação, ainda predomina no governo federal e no debate público uma teoria macroeconômica baseada na Curva de Phillips. Essa visão parte do pressuposto de que a inflação no Brasil é gerada pelo excesso de demanda e pela expansão do gasto público, o que requereria políticas monetárias e fiscais contracionistas para reduzir o nível de atividade econômica e aumentar o desemprego. 

A narrativa neoliberal e a sua penetração em setores progressistas 

A narrativa neoliberal consegue impor ao governo e a amplos setores da sociedade a visão de que existe um risco de hiperinflação e que a única solução é manter os juros nas alturas e cortar gastos públicos. Como sempre, os neoliberais não debatem os temas estruturais que realmente determinam os níveis de preço e qualidade dos empregos no Brasil. 

Questões como a redução de áreas para a produção de alimentos (não commodities), a nossa dependência do transporte rodoviário (altamente periculoso, poluente e ineficiente), o esvaziamento de estoques reguladores da CONAB, a desindustrialização que nos obriga a importar produtos de alta tecnologia e a financeirização da economia são totalmente laterais aos neoliberais (tanto os de direita como os progressistas).

Para esses economistas formados por manuais do “Império”, a única solução para a inflação é elevar os juros, desconsiderando suas causas reais. Esse modelo favorece o grande capital de duas formas: monetariamente, garante altos lucros aos rentistas enquanto freia investimentos, eleva o desemprego e enfraquece a classe trabalhadora; fiscalmente, a austeridade preserva o pagamento de juros da dívida e deteriora serviços públicos, criando espaço para privatizações.

O que preocupa, no entanto, é que em ambas as esferas o governo aparenta estar totalmente cooptado por grupos liberais e ortodoxos. O presidente Gabriel Galípolo já não tem justificativas para sucessivos aumentos da taxa de juros, visto que aquele que era tido como o bolsonarista infiltrado, Roberto Campos Neto, já não dirige o Banco Central e a maioria dos atuais diretores foi indicada pelo governo. Na esfera fiscal, o governo possui uma série de amarras autoimpostas pelo Novo Arcabouço Fiscal, vendo-se obrigado a perseguir o déficit zero num país continental que carece de todo tipo de infraestrutura.

Com isso, temos a consolidação total da narrativa neoliberal na política econômica do governo: sobem-se juros e cortam-se gastos porque a economia está muito acelerada e isso gera inflação. Nada mais mentiroso e desconexo da realidade do que isso. O que mais preocupa, entretanto, é que em meio ao crescimento da impopularidade do governo, o ministro Haddad fala em desacelerar o crescimento da economia a 2,5% em 2025. 

Essa submissão à ortodoxia econômica se reflete na defesa de uma desaceleração do crescimento para 2,5% em 2025, aceitando a tese de que é preciso conter investimentos e aumentar o desemprego para combater uma inflação supostamente descontrolada. Como nos ensina Kalecki em seu escrito Aspectos Políticos do Pleno Emprego: “sob um regime de pleno emprego permanente, as demissões perderiam seu papel como medida disciplinar. A posição social do chefe seria minada e a autoconfiança e a consciência de classe dos trabalhadores aumentariam”.

Para romper com essa armadilha neoliberal, é fundamental que o governo abandone a visão restritiva da inflação e adote um modelo econômico voltado ao desenvolvimento. Isso exige substituir a obsessão pelo controle via juros altos por políticas que fortaleçam a produção, o investimento público e o emprego de qualidade.

A reconstrução do Estado como indutor do crescimento passa por medidas concretas: ampliar a produção de alimentos para reduzir a pressão inflacionária, reestatizar refinarias estratégicas, fortalecer o transporte ferroviário para baratear custos logísticos e retomar um processo de reindustrialização que reduza nossa dependência externa em setores-chave.

Além disso, é essencial democratizar a política econômica, garantindo maior participação da sociedade na definição das diretrizes macroeconômicas, hoje dominadas pelos interesses do capital financeiro. Somente com uma guinada nesse sentido será possível reverter o ciclo de estagnação e derrotas políticas, recolocando o Brasil no caminho do desenvolvimento soberano e socialmente justo.

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