O silêncio que ecoou na Avenida Paulista no último domingo diz muito mais sobre o futuro da extrema direita brasileira do que os discursos delirantes proferidos no alto daquele trio elétrico esvaziado. A ausência cirúrgica de figuras como Tarcísio de Freitas — que convenientemente descobriu compromissos inadiáveis na Alemanha — e de Michelle Bolsonaro não é obra do acaso nem mero conflito de agendas. Trata-se do sintoma mais agudo da “síndrome de abandono” que começa a corroer o Partido Liberal.
O bolsonarismo, enquanto seita personalista, está sendo rifado pelo próprio maquinário partidário que o abrigou, numa tentativa fria e calculada de salvar o projeto de poder antes que a cadeia do patriarca arraste todos para o abismo.
O neofascismo, do qual o PL se tornou a mais bem-acabada franquia brasileira, é essencialmente pragmático e canibal. Quando o “mito” perde a tração eleitoral e se consolida como um passivo jurídico intransponível, a engrenagem o descarta sem qualquer pudor, buscando novos avatares para embalar o mesmo projeto autoritário e antipovo. Valdemar Costa Neto e a ala fisiológica da direita sabem perfeitamente disso.
A tentativa de lançar Flávio Bolsonaro à Presidência foi apenas um teste de estresse que provou, sob a matemática implacável dos monitores de público, que o sobrenome da família já não paga os dividendos de outrora.
Contudo, a falência política do clã não significa, de forma alguma, a morte da besta. O fascismo com verniz institucional continua à espreita, operando nos bastidores do Congresso para corroer o Estado por dentro. É exatamente neste ponto de inflexão que a clareza histórica se faz obrigatória para o eleitor.
Não há mais espaço para falsas simetrias, nem para as ilusões de uma “terceira via” isentona que, na primeira oportunidade, vota de mãos dadas com a extrema direita para precarizar direitos trabalhistas ou tentar anistiar golpistas.
A única força política capaz de atuar como verdadeira ponta de lança contra a barbárie do neofascismo global é a esquerda. Defender o voto nos partidos do campo progressista deixou de ser apenas uma escolha ideológica dentro da normalidade democrática; tornou-se um imperativo civilizatório de sobrevivência.
São essas legendas que, historicamente e no presente, enfrentam a sanha privatista, defendem a soberania nacional e barram o avanço de um conservadorismo fundamentalista que tenta tutelar a vida privada e destruir as garantias constitucionais.
O PL e seus satélites representam a face local de um movimento global que despreza a democracia e lucra com a exaustão da classe trabalhadora. O voto na esquerda, portanto, é o único antídoto real e testado contra esse projeto. O Brasil pode até ter começado a acordar do pesadelo, mas o monstro ainda respira. O abandono de Bolsonaro pelos seus pares é uma vitória tática, mas o golpe final contra o neofascismo exige lado, coragem e voto. E esse lado, inquestionavelmente, é a esquerda.






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