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documentário Brasil 70
O documentário Brasil 70 é a melhor obra sobre Pelé e a Seleção, expondo as contradições políticas e a ditadura militar. Foto: Netfllix
CULTURA & ENTRETENIMENTO

Brasil 70 do Netflix é a melhor obra sobre Pelé

crítica - Copa com contexto sociopolítico

Entre coincidências e contrastes com os tempos atuais, estreou na plataforma Netflix, dias atrás, a excelente minissérie Brasil 70 – A Saga do Tri, que revive a épica conquista do tricampeonato mundial de futebol masculino em 1970, no México.

As coincidências passam pelo clima de Copa do Mundo em tempos de autoritarismo. A série mostra como o Brasil se preparou para o torneio em meio aos anos mais sangrentos da ditadura militar (1964-1985), com o Ato Institucional nº 5 (AI-5) já vigente e o endurecimento das perseguição aos opositores do regime.

Assisti-la nestes dias em que vivemos uma nova edição do Mundial torna inevitável a comparação daquele período de autoritarismo – quando a Operação Condor sobrevoava boa parte do subcontinente sul-americano e alimentava regimes autoritários patrocinados pela Casa Branca – com esta nova onda extremista, também promovida pelos Estados Unidos, que são a principal das três sedes desta Copa, e que continua patrocinando governos de extrema direita nas Américas.

Já o contraste nasce do fato de que a obra está centrada na história do melhor time de futebol já visto em todos os tempos, a Seleção Brasileira de 1970, liderada pelo maior jogador de todos os tempos, Pelé, que exibiu naquele torneio sua performance mais exuberante. Cenário muito diferente de quem tem que torcer, em 2026, para uma das mais fracas gerações da história do futebol brasileiro.

Brasil 70: A Saga do Tri termina sendo uma série emocionante, apesar dos dois primeiros episódios que aceleram, talvez exageradamente, a história da formação do time de João Saldanha (atuação primorosa de Rodrigo Santoro) com cinco estrelas de primeira grandeza no ataque (Jairzinho, Gérson, Tostão Rivelino e Pelé), o período das eliminatórias e a fase de grupos da Copa, perdendo a chance de explorar melhor algumas anedotas conhecidas.

Mesmo nesses capítulos, os melhores momentos acontecem quando a narrativa se permite cenas mais longas e maior contextualização do clima em que cercava aquela Seleção, incluindo o episódio da demissão de Saldanha e a assunção de Mário Jorge Zagallo ao comando do time.

Os três episódios finais são os melhores da minissérie. Cada um se dedica a contar a história de uma só partida, com tempo para explorar histórias particulares do jogo em si, do clima da Copa no México e no Brasil, e desenvolver melhor os próprios personagens.

Isso permitiu, por exemplo, mostrar o drama do Peru, nosso adversário nas quartas (e comandado pelo brasileiro Didi), que tinha vivido um dos piores terremotos da sua história meses antes do torneio.

No quarto e melhor episódio da série, o fantasma do Maracanazzo de 1950 deu o tom ideal da épica vitória de virada contra o Uruguai, que nos levou a superar a semifinal.

O episódio final, sobre a goleada na decisão em cima da Itália, faz a devida reverência ao momento mais grandioso do futebol brasileiro. Uma verdadeira ode ao estilo de jogo do nosso país, com a perfeita recriação das mais belas jogadas daquela partida.

O trabalho de reproduzir os lances destacados da Copa foi excelente ao longo de toda a obra – como o drible desconcertante de Pelé sobre o uruguaio Mazurkiewicz, a cabeçada do Rei defendida de forma inexplicável por Gordon Bank e o chute do meio de campo que quase vira um gol antológico contra a Tchecoslováquia – mas que mostrou capricho ainda maior ao tratar os melhores momentos da decisão, como na cabeçada ainda mais bela de Pelé no primeiro gol brasileiro e toda a jogada do gol de Carlos Alberto, desde a série de dribles de Clodoaldo até o passe sublime de Pelé para o chute indefensável do capitão do Tri.

A atuação de Rodrigo Santoro é a que mais se destaca, mais outros membros do elenco também chamam a atenção, como Ravel Andrade (no papel de Tostão), Maicon Rodrigues (Paulo César Caju) e Marcelo Adnet (que interpreta o locutor Eusébio Teixeira, um dos poucos personagens fictícios da trama).

Lucas Agrícola tem uma boa performance como Pelé, em cenas de ação (as jogadas de efeito do Rei) que alcançam o tom ideal, e apesar de certo exagero nas cenas de situações extracampo, buscando mostrar um Edson o mais isento possível dos temas políticos em torno daquela Seleção – o que quiçá seja realmente correto historicamente. E mesmo que esta ressalva seja válida, ela pode ser mais responsabilidade do roteiro que do ator.

Ainda assim, não é errado apontar Brasil 70: A Saga do Tri como a melhor obra audiovisual já feita sobre Pelé e sobre a Seleção Brasileira de futebol masculino, sem ser chapa branca, sem evitar as contradições políticas e sociais do momento histórico e com um tom adequado de emotividade, sem cair no ufanismo barato.

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