O candidato Anthony Garotinho (Republicanos) desistiu nesta segunda-feira (5) do recurso que questionava o indeferimento de sua candidatura ao governo do Rio de Janeiro. Com o gesto, o caminho ficou livre para o candidato da extrema direita Douglas Ruas (PL) ser declarado governador eleito ainda no primeiro turno — mantendo o campo bolsonarista no comando do estado sem interrupção desde 2018.
Com 100% das urnas apuradas, Ruas tem 4.271.199 votos (49,27% dos votos válidos considerados até o momento), contra 3.706.984 de Eduardo Paes (PSD), equivalente a 42,76%. Garotinho registrou 274.411 votos (3,17%), anulados sub judice. Se esses votos saírem da base de cálculo, o candidato do PL salta para 50,88% e cruza o limite dos 50% exigido para vencer a eleição estadual em primeiro turno.
A entrega do estado
A desistência foi protocolada às 14h09 desta segunda. Os advogados de Garotinho a classificaram como “livre, expressa, consciente e irretratável” e pediram ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que a homologue. Antes, a candidatura do ex-governador havia sido indeferida pelo Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) por condenação por improbidade administrativa.
A justificativa do próprio Garotinho é um documento do cinismo:
“Em função do resultado manifestado pela população nas urnas, não me resta outra opção jurídica a não ser desistir, de forma livre, expressa, consciente e irretratável. Que agora o povo arque com as consequências do que eles fizeram”.
Tradução: o candidato que disputou a eleição, teve os votos anulados e agora retira o próprio recurso não assume nada — e ainda manda o povo arcar com a consequência que ele mesmo produziu.
Anthony Garotinho: “Que a população arque com a escolha”. Foto: RS/Fotos Públicas
A cadeia que começa em 2018
O que a cena esconde é a permanência. A extrema direita governa o Rio desde 2018: Wilson Witzel chegou ao Palácio Guanabara naquele ano bancado pelo bolsonarismo, caiu em 2020 em meio a escândalos — e Cláudio Castro, o vice, assumiu e foi reeleito em 2022 com apoio do mesmo campo. Agora, Douglas Ruas, o sucessor escolhido por Castro, recebe de presente a chance de ser declarado vencedor sem segundo turno, graças à desistência de quem deveria disputar contra ele.
O TSE ainda precisa analisar o pedido e definir os efeitos sobre a totalização dos votos. Mas o enredo já está desenhado: o mesmo projeto político que transformou o Rio em praça de guerra, milícia e estado de exceção social nas últimas administrações ganha mais um mandato — com o “povo arcando com as consequências”, como praguejou Garotinho.
