A China criticou abertamente o novo acordo comercial firmado entre Reino Unido e Estados Unidos, alertando que suas cláusulas violam o princípio da não interferência e têm como objetivo explícito restringir a presença chinesa em cadeias produtivas estratégicas. A manifestação, inicialmente revelada ao Financial Times, foi posteriormente reafirmada de forma oficial pelo porta-voz da chancelaria, Lin Jian.
“A cooperação entre países não deve ser conduzida contra terceiros”, reiterou Lin, em tom firme, porém diplomático.
O principal alvo das críticas da China são as cláusulas do acordo que, sob o pretexto de “segurança nacional”, só permitem a redução de tarifas se o Reino Unido deixar de usar qualquer insumo, tecnologia ou investimento vindo da China em setores como aço, automóveis, medicamentos e tecnologia avançada. Para o governo chinês, essas exigências funcionam como uma armadilha disfarçada de acordo comercial, feita para excluir a China das cadeias produtivas globais.
Como funciona o acordo Reino Unido-EUA
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Redução de tarifas sobre carros britânicos de 27,5% para 10%, limitada a 100 mil unidades por ano
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Suspensão parcial de tarifas sobre aço e alumínio, com exigência de rastreabilidade de origem
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Ampliação de cotas para exportações americanas de etanol e carne bovina ao Reino Unido
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Cláusulas de segurança nacional que proíbem fornecedores com participação chinesa nas cadeias produtivas
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Parcerias futuras em farmacêuticos e manufatura, condicionadas à adesão britânica à agenda comercial dos EUA
China vê ameaça à governança econômica global
Para autoridades e analistas chineses, o acordo representa uma escalada na tática dos EUA de usar acordos bilaterais para pressionar aliados e excluir a China de mercados estratégicos. Zhang Yansheng, da Academia Chinesa de Pesquisa Macroeconômica, declarou:
“Essas cláusulas são piores do que tarifas. Elas impõem condicionantes de longo prazo que ferem a autonomia industrial.”
Além do impacto direto, a China também denuncia o precedente perigoso: usar critérios geopolíticos como exigência comercial formalizada, o que, segundo Pequim, viola o espírito do multilateralismo e do direito internacional.
Efeito colateral para o Reino Unido
A adesão britânica às exigências dos EUA ocorre num momento de tentativa de reaproximação com a China, após anos de congelamento diplomático. Ao aceitar as condições do pacto, Londres:
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Perde margem de soberania industrial
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Assume alinhamento automático com Washington
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Compromete reabertura de laços comerciais com Pequim
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Envia sinal contraditório em sua política externa pós-Brexit
Diplomacia chinesa busca preservar diálogo
Apesar da contundência das críticas, a China evita ruptura. Em coletiva, o porta-voz Lin Jian afirmou que Pequim deseja “abrir um novo capítulo” com o Reino Unido, destacando que os dois países têm papel a cumprir na “estabilidade da economia global”.
A diplomacia chinesa tenta manter o equilíbrio entre firmeza e contenção, sem deixar de denunciar as estratégias de contenção promovidas pelos EUA mas sem fechar as portas para Londres, que já vinha retomando diálogos econômicos suspensos desde 2019.
Disputa por modelos globais de comércio
A crítica de Pequim vai além do caso pontual. A China vê o acordo como parte de uma disputa mais ampla: qual modelo de globalização vai prevalecer nas próximas décadas.
De um lado, os EUA exportam uma lógica de alianças condicionadas, com cláusulas geopolíticas e barreiras estratégicas.
Do outro, a China insiste numa globalização multipolar, baseada em soberania nacional, complementaridade econômica e cooperação entre iguais.
Fonte: Portal Vermelho






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