Se já soa surreal ver Donald Trump chantagear países que considera rivais, mais grave é constatar que ele aplica o mesmo expediente contra aliados estratégicos.
Na última sexta-feira (5), o jornal britânico Financial Times e a imprensa japonesa revelaram um memorando secreto firmado entre Estados Unidos e Japão, que assegura aos norte-americanos o poder de ditar o destino dos 550 bilhões de dólares em investimentos acordados nas negociações tarifárias entre os dois países.
A consequência foi imediata: a renúncia do premiê Shigeru Ishiba, o desgaste de uma das alianças mais antigas dos Estados Unidos na Ásia e a constatação de que, mesmo no tabuleiro de contenção à China, Washington prefere impor submissão a preservar confiança.
O documento estabelece que Trump terá a palavra final sobre os projetos a receberem capital. Cabe a um comitê de investimentos, presidido pelo secretário de Comércio Howard Lutnick, apenas compilar propostas.
Ao Japão, sobra cumprir. São 45 dias para liberar os recursos escolhidos pelo presidente norte-americano, sob pena de ver restaurada a tarifa de 25% que pesava sobre suas exportações agora reduzida a 15%.
A partilha dos lucros é outro capítulo da rendição: até a quitação do aporte, os dois países dividem os resultados; depois disso, os Estados Unidos ficam com 90% do fluxo de caixa.
Um arranjo que, nas palavras de Masahiko Hosokawa, ex-funcionário do ministério do Comércio, transforma Tóquio em “caixa eletrônico da América”. Não por acaso, o editorialismo japonês passou a discutir se ainda faz sentido pagar tão caro por uma aliança apresentada, na visão norte-americana, como indispensável no confronto com Pequim.
Crise política e desgaste diplomático
O efeito interno foi devastador. Shigeru Ishiba, pressionado por críticas de submissão a Washington, anunciou sua saída do governo e abriu uma disputa dentro do Partido Liberal Democrata.
A crise revelou fissuras inéditas na condução da política externa japonesa e produziu um debate incômodo: até que ponto vale a pena ceder soberania econômica para evitar tarifas punitivas?
Enquanto a Casa Branca vende a narrativa de que assinou “um acordo único na história americana”, Tóquio tenta negar o óbvio.
O ministro da Revitalização Econômica, Ryosei Akazawa, retornou de Washington afirmando que o Japão participará da seleção dos projetos e que Trump não terá “discrição total”. Mas a defesa soou frágil diante das cláusulas explícitas do memorando. Não é apenas um problema semântico; é a exposição pública de que o Japão aceita termos ditados de fora e tenta, em casa, mascarar o tamanho da humilhação.
O precedente sul-coreano na Geórgia
O Japão, por mais poderoso que seja, não está sozinho na lista de aliados coagidos. A Coreia do Sul já havia sentido a dureza do método Trump com a operação em Ellabell, na Geórgia, que prendeu 475 trabalhadores de uma fábrica da Hyundai-LG mais de 300 deles sul-coreanos.
As imagens de operários algemados e enfileirados em canteiros de obras bilionários, erguidos justamente para cumprir as exigências de produção doméstica de Washington, repercutiram em Seul como a maior violação de confiança recente.
O governo sul-coreano repatriou seus cidadãos em aviões fretados e viu até jornais conservadores como o Chosun Ilbo defenderem a revisão da aliança.
O episódio expôs uma contradição que agora ressoa em Tóquio: Trump exige bilhões de dólares em investimentos, mas trata os parceiros como criminosos e os trabalhadores como ilegais. A mensagem implícita é simples: tragam o dinheiro, mas não fiquem para o jantar.
Estratégia imperial e riscos regionais
A junção desses episódios revela um padrão. Trump não distingue inimigos de aliados quando se trata de tarifas e investimentos. A lógica é sempre a mesma: coerção, prazos curtos, lucros desiguais e amea??as explícitas de retaliação.
O que muda é apenas o alvo. Hoje é Tóquio, ontem foi Seul, amanhã pode ser qualquer parceiro disposto a acreditar que uma promessa de Washington é garantia de confiança.
Na prática, isso significa fragilizar as próprias alianças que os EUA apresentam como indispensáveis para conter a China. Ao transformar Japão e Coreia em objetos de chantagem, Trump enfraquece a base diplomática do Indo-Pacífico e alimenta dúvidas sobre a confiabilidade americana.
Não há nada de acidental nesse processo, trata-se de uma estratégia que, sob o rótulo de “América em Primeiro Lugar”, rebaixa parceiros históricos à condição de sócios minoritários de projetos ditados por Washington.
O resultado, mais uma vez, é corrosivo. O Japão mergulhado em crise política, a Coreia em alerta e a percepção crescente de que a Casa Branca não hesita em virar as costas a quem estiver ao seu lado. Até aliados estratégicos, essenciais na contenção da China, descobrem que a aliança tem preço e ele é sempre ditado por Trump.
Fonte: Portal Vermelho






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