Retrospectiva política nacional: Brasil em disputa

Retrospectiva política nacional de 2025 mostra democracia sob pressão, disputa por renda e

Retrospectiva política nacional: Brasil em disputa

A retrospectiva política nacional de 2025 não cabe na fantasia confortável de que o Brasil teria voltado à normalidade depois da derrota de Jair Bolsonaro. O voto tirou a extrema direita do Planalto, mas não desfez sua máquina de mentiras, seus aliados fardados, seus financiadores nem sua capilaridade digital. A democracia brasileira sobreviveu ao golpismo, mas segue trabalhando sob ameaça, com um Congresso que cobra pedágio para tudo e uma elite que trata justiça social como despesa excessiva.

O ano deixou uma lição pouco simpática aos otimistas de gabinete: governar para a maioria, em um país comandado por interesses minoritários, exige mais do que articulação parlamentar. Exige disputa pública, organização popular e coragem para dar nome aos bloqueios. Quando a política vira só planilha e acordo de corredor, quem ganha é o velho Brasil dos privilégios.

Retrospectiva política nacional: a democracia ainda cobra a conta

A responsabilização pelos ataques de 8 de janeiro continuou sendo um teste decisivo. Não se trata de vingança, como berram os profissionais da anistia preventiva. Trata-se de estabelecer que presidente derrotado, general ressentido, empresário financiador e influencer golpista não podem brincar de destruir eleições e depois posar de perseguidos.

O avanço dos processos contra Bolsonaro e integrantes de sua engrenagem golpista teve peso simbólico e institucional. Pela primeira vez em muito tempo, setores que se imaginavam acima da lei encararam a possibilidade concreta de punição. Isso não apaga a leniência histórica com a tutela militar, nem transforma automaticamente o Judiciário em herói popular. Mas marca uma fronteira necessária: golpe não é opinião, acampamento diante de quartel não é manifestação inocente e pedido de intervenção militar não é folclore de tiozão no grupo da família.

A extrema direita, porém, aprendeu a operar mesmo sem a caneta presidencial. Troca a farda pela gravata, a fake news grosseira por vídeos milimetricamente editados e o golpismo explícito por uma conversa mansa sobre “liberdade”. Sua pauta continua a mesma: atacar instituições quando elas não servem aos seus interesses, enfraquecer políticas públicas e transformar medo em voto.

O campo democrático precisa evitar dois erros. O primeiro é subestimar essa turma porque ela perdeu uma eleição. O segundo é acreditar que toda resposta ao bolsonarismo se resolve nos tribunais. A Justiça pode punir crimes. Só emprego decente, salário, moradia, escola, cultura e participação política reduzem o terreno fértil da desesperança que a extrema direita explora.

O Congresso que negocia direitos como mercadoria

Se o Executivo buscou recompor programas sociais, investimento público e presença do Estado, encontrou um Legislativo cada vez mais disposto a exercer poder sem assumir responsabilidade. O orçamento secreto mudou de nome, sofreu decisões judiciais e ganhou novos mecanismos, mas a lógica do toma lá, dá cá permaneceu vivíssima. Emendas parlamentares concentraram poder, fragmentaram prioridades nacionais e permitiram que deputados e senadores aparecessem como benfeitores locais com dinheiro que é de toda a população.

Não há problema em representantes destinarem recursos a seus territórios. O problema começa quando a transparência vira detalhe, o planejamento público vira enfeite e a execução serve para construir currais eleitorais. A fome não se combate com placa de inauguração. A desigualdade regional não se enfrenta distribuindo verbas conforme o tamanho da chantagem de cada bancada.

A correlação de forças também apareceu nas discussões sobre jornada de trabalho, tributação e direitos. A pauta pelo fim da escala 6×1 colocou no centro uma pergunta que a elite adora empurrar para baixo do tapete: por que tanta gente trabalha até a exaustão e ainda volta para casa sem conseguir viver com dignidade? Não é uma reivindicação extravagante. É uma crítica direta a um modelo que trata tempo livre, convivência familiar e saúde mental como luxo de quem pode pagar.

Do outro lado, a resistência a tributar os muito ricos seguiu revelando o truque de sempre. Quando o debate é imposto sobre consumo, a pressa é enorme. Quando a conta chega para patrimônio, lucros e privilégios, surgem os apocalipses econômicos, as ameaças de fuga de capital e os especialistas de plantão pedindo “responsabilidade”. Responsabilidade, para essa turma, costuma significar que o pobre pague e agradeça.

Governo Lula entre avanços reais e limites duros

Seria desonesto negar os esforços de reconstrução após o desmonte bolsonarista. A retomada de políticas de combate à fome, a valorização do salário mínimo, a recuperação de programas públicos e a tentativa de reerguer estruturas estatais devastadas têm efeito material na vida de milhões. Para quem passou anos vendo orçamento social ser tratado como inimigo, o retorno de uma agenda pública minimamente civilizatória importa – e muito.

Mas celebrar a reconstrução não pode significar silenciar sobre os limites. O governo opera sob a pressão de uma regra fiscal que restringe capacidade de investimento, de juros que transferem recursos públicos para o rentismo e de uma coalizão parlamentar pouco comprometida com transformação social. O resultado é um governo frequentemente obrigado a conciliar com forças que, no fundo, desejam apenas administrar a desigualdade com um pouco mais de maquiagem.

A comunicação foi outro campo de batalha. A crise em torno de medidas envolvendo o Pix mostrou como a extrema direita consegue fabricar pânico em velocidade industrial. Uma mentira bem embalada, empurrada por perfis milionários e aplicativos de mensagem, pode encurralar o debate antes que a explicação oficial chegue à tela do celular. Não basta publicar nota técnica depois do incêndio. É preciso comunicar cedo, com clareza, linguagem popular e presença permanente nos territórios digitais onde a mentira circula.

Isso não é um detalhe de marketing. É democracia. Quem abandona a disputa de narrativa deixa trabalhadores expostos à versão dos banqueiros, dos pastores-empresários, dos influencers reacionários e dos conglomerados que chamam corte social de ajuste inevitável.

Clima, território e a contradição brasileira

Em 2025, a proximidade da COP30 colocou a Amazônia e Belém no centro do mapa político internacional. Era uma oportunidade enorme para o Brasil falar de transição ecológica, proteção dos povos indígenas, combate ao desmatamento e financiamento climático. Também expôs uma contradição que nenhum slogan verde resolve: não há liderança climática séria se comunidades tradicionais seguem ameaçadas, se o agronegócio predatório dita regras e se a aposta em combustíveis fósseis continua rondando decisões estratégicas.

A crise climática já chegou ao preço dos alimentos, às enchentes, às secas, à saúde e à rotina das periferias. Ela não é um tema de conferência para diplomata tirar foto. Quem mora em área de risco, depende de ônibus precário ou perde renda por causa de eventos extremos sabe que adaptação climática é política de habitação, saneamento, transporte e proteção social.

O mesmo vale para a segurança pública. A direita oferece espetáculo punitivista, arma e licença para matar. Só que violência não diminui com discurso de palanque e operação televisionada. Sem inteligência, prevenção, investigação financeira do crime organizado, direitos para a juventude e controle sobre abusos policiais, sobra cadáver na periferia e palmas no plenário.

O que 2025 exige do campo progressista

A disputa que vem não será vencida por uma nostalgia da frente ampla nem por uma confiança cega em instituições. Alianças são parte da política, sobretudo diante do fascismo de opereta que se organiza no país. Mas alianças sem horizonte popular acabam virando desculpa para adiar, indefinidamente, as mudanças que deram sentido à vitória eleitoral.

O campo progressista precisa falar de renda, mas também de poder. Precisa defender a democracia, mas explicar quem a ameaça e por quê. Precisa enfrentar a desinformação, sem cair na ilusão de que censura genérica resolve redes capturadas por dinheiro e algoritmo. E precisa reconhecer que a população não é plateia: sindicato, movimento de moradia, coletivos de cultura, organizações negras, indígenas, feministas e juventudes são força política, não figurino de campanha.

A próxima batalha começa antes da próxima eleição. Ela está no ônibus lotado, no contracheque curto, na fila do posto de saúde, no vídeo mentiroso que chega pelo WhatsApp e na emenda sem transparência que decide o destino de uma cidade. A tarefa é transformar indignação em organização – porque a direita já mostrou o que faz quando o povo deixa de disputar o próprio futuro.

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