Dino pede vista; o circo engoliu o crime

Enquanto o STF se digladia, Flávio passa de fininho e chega à eleição sem ser incomodado

Por Ugo Braga ✊💡 Frente Livre
circo STF esconde Flávio Bolsonaro
A autoflagelação do Supremo transmitida ao vivo, inclusive pela Frente Livre, deixa Flávio Bolsonaro passar incólume, sem responder pelos seus crimes. Foto: Reprodução

Às 17h49 desta terça-feira, Flávio Dino pediu vista e encerrou a discussão. A sessão do Supremo acabou sem decidir nada. E o ministro disse, em voz alta, o que o país inteiro deveria estar dizendo: um tribunal constitucional que se flagela em público a duas semanas da eleição presidencial presta um desserviço ao país.

Ele tem razão. E a razão é maior do que ele disse.

Porque o espetáculo de hoje não foi acidente nem excesso de calor. Foi o roteiro cumprido à risca. O Brasil inteiro assistiu ao Supremo brigar com ele mesmo: Gilmar gritou com Mendonça e disse que “até as pedras sabem” do viés político-eleitoral; Mendonça chamou a fala de leviana e ouviu de volta que “pessoas decentes não fazem isso”; Moraes perguntou “quem tem medo da Polícia Federal?”; Fachin suspendeu a sessão; Nunes Marques se declarou impedido; Toffoli, suspeito; Dino avisou que “será uma crise por semana”. Os holofotes acenderam, as câmeras ligaram, os portais abriram com a briga das togas. E, no fim, às 17h49, o pedido de vista: nada decidido, tudo adiado, o circo armado para a próxima função.

Foi o maior espetáculo do dia. E foi exatamente isso que ele devia ser.

Porque, enquanto o Brasil olhava para o circo, o dono do circo passou de fininho.

O que ninguém viu

Flávio Bolsonaro não apareceu hoje. Não foi citado, não foi julgado, não foi questionado. O candidato que é oficialmente investigado por corrupção passiva, lavagem de dinheiro, evasão de divisas e organização criminosa no financiamento do filme sobre o próprio pai — o Dark Horse — passou o dia inteiro fora da ribalta. Enquanto o STF brigava sobre Moraes, o homem que pediu R$ 131 milhões a um banqueiro preso e recebeu R$ 61 milhões não respondeu por nada. De novo.

Não foi acidente. Foi calendário.

O calendário de Mendonça

Olhem as datas. Em 22 de julho, Mendonça abre o inquérito contra Flávio — e o mantém sob sigilo, longe do eleitor. Em 9 de setembro, homologa a delação do doleiro Mineiro, que diz ter mandado US$ 12,33 milhões ao fundo Havengate, no Texas, administrado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro. Em 10 de setembro, a Operação Make Up estoura — e, à noite, o sigilo de 15 procedimentos cai. Em 15 de setembro, hoje, o plenário se reúne. E o que julga? Moraes. Não Flávio. Não o Dark Horse. Não o Master.

Cada peça do circo foi colocada no tabuleiro na hora exata. O relatório que incrimina Moraes foi encomendado no período eleitoral — Gilmar mesmo disse: “até as pedras sabem: há um inequívoco viés político-eleitoral”. O ato bolsonarista do 7 de Setembro, com boneco de Mendonça na Paulista, veio logo depois da liberação do relatório. E quando o circo precisou de um palco, o plenário abriu. O objetivo nunca foi julgar Moraes. O objetivo foi fazer o Brasil olhar para Moraes enquanto Flávio escorre pelo ralo.

E funcionou. Até conosco.

A conta que ficou de fora

Pergunta: quem, ao assistir à sessão de hoje, sabe que o filme do golpe foi financiado com dinheiro roubado de aposentados? Pois é de lá que vieram os R$ 131 milhões que Flávio pediu a Vorcaro. Foi bancado com a grana da Tesouraria do Banco Master — e a Tesouraria do Master era abastecida com dinheiro público.

O Rioprevidência, fundo dos aposentados do Rio, despejou cerca de R$ 3 bilhões em produtos do Master na gestão de Cláudio Castro. O BRB, banco do Distrito Federal, comprou R$ 17,5 bilhões em carteiras do Master — e a PF concluiu que houve gestão fraudulenta nessas compras. Fundos de 3 estados e 15 municípios aportaram no banco de Vorcaro, com calote potencial de até R$ 2 bilhões em previdências. O FGC, o fundo que garante o dinheiro dos correntistas, levou um rombo de R$ 51,8 bilhões. Lula resumiu: o maior rombo da história do sistema financeiro brasileiro, R$ 60 bilhões.

Isso é o que o circo escondeu. O filme do golpe foi pago com o dinheiro da aposentadoria de quem o golpe queria enganar.

A cumplicidade

E aqui a parte que dói. Todos caíram. Todos os sites, TVs, rádios, portais e blogs do país fizeram a mesma coisa: transmitiram a sessão sobre Moraes. Inclusive a Frente Livre. Inclusive nós — que colocamos o vídeo ao vivo no espaço de manchete, o lugar mais nobre do site. A gente também olhou para o circo. A gente também deixou o crime de fora do palco.

É isso que torna o golpe perfeito. Não precisa censurar ninguém. Não precisa esconder nada. Basta montar um espetáculo grande o suficiente para que todo mundo olhe para o lugar errado — e o lugar certo fique vazio, sem plateia, sem câmera, sem pergunta.

O calendário não acabou

E tem mais. Em 23 de setembro, o plenário vai julgar Mendonça. O holofote continua nele. A crise continua sendo a notícia. E Flávio continua passando de fininho, a cada semana mais perto do voto, sem responder por nenhum dos indícios que pesam sobre ele.

Mendonça não está defendendo a Justiça. Está defendendo o calendário. E o calendário tem um único objetivo: fazer o Brasil chegar à eleição olhando para a briga das togas, e não para o dinheiro dos aposentados que financiou o filme do golpe.

A pergunta que fica, e que ninguém fez hoje, é a que importa: enquanto a gente assiste ao circo, quem está contando o dinheiro que saiu da previdência e virou cota de um fundo no Texas? Quem está perguntando a Flávio onde estão os R$ 61 milhões? Quem está olhando para o lugar certo?

Nós. A partir de agora, nós. Porque o circo pode até engolir o dia — mas não vai engolir a gente duas vezes.

Fale conosco