A dois dias do primeiro turno, o governo Lula anunciou um edital de R$ 20 milhões para restauração ecológica da vegetação nativa e revitalização de recursos hídricos nas áreas dos reservatórios de Sobradinho e Itaparica, entre a Bahia e Pernambuco. A chamada Águas do São Francisco, aprovada pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) no âmbito da iniciativa Floresta Viva, é a ponta de uma política maior: completar a transposição que o governo anterior abandonou pela metade e, agora, cuidar também da nascente e do leito, para que os milhões de nordestinos do semiárido tenham água garantida.
A herança que Lula encontrou
O ministro da Integração e do Desenvolvimento Regional, Waldez Góes, deixa claro o tamanho do estrago que sobrara do governo anterior — e o tamanho do esforço para consertá-lo:
“Nós tivemos que recuperar os equipamentos, restaurar o orçamento, acelerar a construção do que estava faltando da Transposição e hoje posso dizer que pelo menos mais cinco milhões de brasileiros entraram para o grupo daqueles que terão água do São Francisco garantindo a segurança hídrica de suas casas. Mas o presidente Lula foi muito claro ao nos orientar de que a gente não poderia fazer isso sem cuidar lá de trás, da nascente e do leito, que é onde o rio ganha força pra chegar no Nordeste em condições de cumprir a missão sagrada com o povo do semi-árido.”
Tradução em uma linha: a obra que era para estar entregue estava com equipamentos sucateados, orçamento minguado e construção incompleta. Lula recuperou, restaurou, acelerou — e agora cuida do rio de ponta a ponta, da nascente à torneira.
R$ 20 mi da nascente ao semiárido
Do total do edital, R$ 10 milhões saem da Conta do Programa de Revitalização dos Recursos Hídricos das Bacias Hidrográficas do Rio São Francisco e do Rio Parnaíba (CPR São Francisco e Parnaíba) e R$ 10 milhões do BNDES. Os projetos precisam de área mínima de 100 hectares, cerca de 140 campos de futebol, com até 48 meses de execução — plantio nos primeiros 24 meses e outros 24 de monitoramento.
São 44 municípios: 25 na área do reservatório de Sobradinho e 19 no de Itaparica, a usina Luiz Gonzaga, que comporta cerca de 11 bilhões de metros cúbicos de água. Entre eles estão Juazeiro, Paulo Afonso, Jacobina, Irecê, Campo Formoso, Casa Nova, Xique-Xique e Sobradinho.
As ações preveem produção de sementes e mudas de espécies nativas, plantio, monitoramento e manejo adaptativo — com a participação de comunidades e povos locais entrando como critério de seleção.
A condução da chamada é do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio), com comissão de especialistas indicados pelo BNDES, pela AXIA Energia e pelo próprio Funbio.
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Até o troco da venda virou mata
Há uma ironia que o semiárido conhece de sobra — e desta vez ela aponta para o lugar certo. Os recursos da CPR nasceram da Lei 14.182/2021, dos compromissos do processo de desestatização da Eletrobras, a privatização de uma estatal estratégica entregue a preço de banana pelo governo Bolsonaro.
Para o São Francisco e o Parnaíba, a lei previu R$ 3,5 bilhões em repasses anuais por dez anos. Ou seja: a venda que a direita chamou de modernização deixou um troco — e é com esse dinheiro, gerido agora pelo governo Lula, que o rio volta a ganhar mata nas margens. O troco da venda virou política de Estado para quem mais precisa.
A Floresta Viva, do BNDES, já selecionou 84 projetos com potencial de restaurar 11.260,83 hectares em diferentes biomas e soma R$ 446 milhões em aportes, entre doações de 15 instituições e recursos do banco.
Enquanto o palanque da extrema direita promete, o edital entrega. O semiárido, que viu o rio ser tratado como balcão de negócios, agora vê Lula transformar a cagada herdada em água na torneira, semente na mão e mata de pé. A “missão sagrada” que o presidente orientou, dessa vez, tem edital, recurso e prazo — e é a conta que o Nordeste vai cobrar.
