O escândalo do Banco Master, que já sujava Flávio Bolsonaro pelas negociatas com Daniel Vorcaro, ganhou um capítulo digno de um true crime da Netflix. Reportagem do jornal O Globo publicada nesta sexta-feira (15), com base em relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), revelou que a empresa Entre Investimentos e Participações — intermediária dos pagamentos de Vorcaro ao filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro — enviou R$ 139 milhões a empresas investigadas por suspeita de ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC) e com a máfia italiana.
A revelação transforma o que era uma história de corrupção financeira em um caso de potencial conexão com o crime organizado transnacional. As movimentações, que ocorreram entre julho de 2022 e dezembro de 2025, foram detectadas pelo Coaf, órgão de inteligência financeira ligado ao Banco Central. O órgão classificou as operações como suspeitas, apontando que a Entre Investimentos pode ter funcionado como uma “conta de canal de passagem” — um ralo por onde o dinheiro sujo escorre sem deixar vestígios.
A rota do dinheiro sujo
De acordo com a apuração, os R$ 139 milhões repassados pela Entre Investimentos tiveram dois destinos igualmente preocupantes. O primeiro: quatro empresas alvos da Operação Carbono Oculto, da Polícia Federal, que encontrou nos prédios luxuosos da Avenida Faria Lima, em São Paulo, instituições financeiras em frenética operação de lavagem de dinheiro para o PCC. O segundo: uma empresa de pagamentos também sediada em São Paulo que entrou na mira da PF na Operação Mafiusi, que investiga um esquema internacional de lavagem de dinheiro envolvendo integrantes do PCC e membros da máfia italiana ‘Ndrangheta, com atuação no Porto de Paranaguá, no Paraná.
A Entre Investimentos, registrada numa travessa da Avenida Faria Lima, é comandada pelo empresário Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como “Mineiro”. Foi ele quem operacionalizou os pagamentos ao fundo Havengate Development Fund LP, registrado no Texas, nos Estados Unidos, que tem como “agente legal” o escritório de um advogado ligado a Eduardo Bolsonaro. Coincidência? Na contabilidade do crime organizado, dificilmente.
O irmão e a facção
Flávio Bolsonaro, que na quarta-feira admitiu ter cobrado Vorcaro sobre repasses atrasados do filme, agora precisa explicar como o dinheiro que ele pedia ao “irmão” banqueiro atravessou fronteiras e parou nas mãos de facções criminosas. A empresa Entre Investimentos também foi alvo de um processo na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) por suspeita de atuar como “intermediária de liquidez” para o esquema do Master — ou seja, dando aparência de normalidade a investimentos sem lastro. Em março, o Banco Central liquidou a EntrePay, do mesmo grupo.
Em nota, o grupo Entre afirmou que “realiza suas operações em conformidade com as normas e regulamentações aplicáveis ao setor financeiro”. Vorcaro, preso em Brasília, negocia uma delação premiada. Flávio diz que não há irregularidade. O PCC e a ‘Ndrangheta, naturalmente, não se manifestaram. O Brasil que se prepare: o escândalo do Banco Master ainda pode revelar conexões que ninguém imagina.






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