O governo do bolsonarista Ronaldo Caiado (PSD) em Goiás utilizou a fintech BK Instituição de Pagamento, conhecida como BK Bank, investigada na Operação Carbono Oculto e apontada como banco paralelo do PCC (Primeiro Comando da Capital), para movimentar R$ 1,36 bilhão em programas de transferência de renda do Estado. Com informações da Folha de S. Paulo.
O período de repasses compreende entre outubro de 2021 e agosto de 2025, abrangendo os dois mandatos do governador, que deixou o governo em março deste ano para se candidatar à Presidência da República.
O documento do Coaf obtido pela Folha detalha que a Agência de Fomento de Goiás, acionista majoritário e responsável pela operacionalização de benefícios sociais, repassava os recursos à BK Bank. Os valores eram posteriormente creditados nos cartões dos 880 mil beneficiários.
As operações incluíam uma taxa de até 6% cobrada dos estabelecimentos comerciais credenciados, dividida entre a agência e a fintech. Em 2024, uma nova fintech foi contratada, alterando a divisão da taxa para 75,6% à agência e 24,4% à nova instituição. Mesmo após a deflagração da Operação Carbono Oculto em agosto de 2025, repasses à BK continuaram devido a saldos remanescentes.
“A GoiásFomento não realizou novas transações financeiras com a BK Bank após agosto de 2025″, disse o governo, em nota. “Quando da deflagração da Operação Carbono Oculto, a agência adotou medidas administrativas e judiciais para resguardar o interesse público, considerando que o contrato possuía cobertura securitária. Até o momento, não há prejuízo constatado à GoiásFomento”, disse o governo.
A BK Bank, com sede em Barueri (SP) e capital social de pouco mais de R$ 9 milhões, oferecia estrutura para movimentação de recursos de forma opaca, utilizando contas-bolsões que dificultam o rastreamento financeiro. A fintech já tinha contratos com órgãos públicos, como Correios e Serpro, e atuava com autorização do Banco Central.
Após a Carbono Oculto, essas instituições interromperam contratos com a empresa. O relatório do Coaf mostra 22 comunicados bancários relacionados a transações suspeitas da BK, incluindo movimentações bilionárias de empresas ligadas ao PCC, especialmente nos setores de álcool e combustíveis.

Maquininha da BK Bank. Foto: Divulgação
Segundo a Receita Federal, o volume de entradas atípicas somou R$ 17,7 bilhões, revelando alto risco de lavagem de dinheiro. Parte dos recursos também retornava à Agência de Fomento, em operações menores que totalizaram R$ 28,5 milhões entre julho de 2022 e setembro de 2025.
“Valores repassados pela BK referem-se à devolução de recursos não utilizados pelos beneficiários e à remuneração contratual prevista na operacionalização do arranjo de pagamento”, disse a gestão goiana.
Conforme as investigações, a BK teria operado como banco paralelo do PCC, utilizando contas-bolsões em que múltiplos clientes realizam depósitos em uma mesma conta para dificultar rastreamento. A Justiça determinou bloqueio de valores, preservação de extratos, contratos e cadastros de clientes.
A movimentação financeira suspeita também envolveu prefeituras e outros órgãos públicos, embora em valores menores que os repassados pela agência goiana. As autoridades apontam que a fintech permitia transações bilionárias de empresas de fachada ligadas ao PCC, com ocultação da origem e destino do dinheiro.
Entre os comunicados analisados, constam operações com postos de combustíveis, distribuidoras e fundos que teriam relação com esquemas da facção criminosa. Segundo o relatório, os repasses da agência de Goiás para a BK foram realizados com débito imediato, sem causa aparente, evidenciando irregularidades.
O uso da fintech na gestão de programas sociais ocorre desde 2020, quando a BK foi credenciada formalmente. O governo estadual afirma que a contratação se deu de forma regular e com cobertura securitária, destacando que a instituição “atuava regularmente no mercado, com autorização do Banco Central, e mantinha contratos com diversos órgãos públicos”.
A BK, no entanto, é uma das principais investigadas na Operação Carbono Oculto, que visa desarticular atuação do PCC no setor financeiro e de combustíveis.






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