A contagem de votos no Peru confirma a virada histórica da classe trabalhadora contra o neofascismo. Com 95,043% das urnas apuradas pela Oficina Nacional de Processos Eleitorais (ONPE), o candidato da esquerda, Roberto Sánchez, assumiu a liderança com 50,119% da preferência popular, somando 8.875.353 votos. A herdeira da ditadura, Keiko Fujimori, ficou para trás com 49,881% e 8.833.248 votos. O cenário de vitória apertada, impulsionado pelo voto do campesinato, coloca o país diante de um desafio colossal: varrer o entulho autoritário e reconstruir as instituições.
O balanço oficial detalha que, do total de 92.766 atas, 88.168 já foram contabilizadas. Restam apenas 1.519 enviadas ao Júri Eleitoral Especial (JEE) e 3.079 pendentes. A matemática eleitoral sufoca a extrema direita e abre caminho para uma mudança estrutural.
Para Gustavo Menon, professor da Universidade Católica de Brasília e da USP, a consolidação desse resultado exigirá coragem para romper com o modelo falido.
“O Peru sofre há mais de dez anos uma profunda crise política e institucional. Chamo a atenção para os desafios de Sanchez no sentido de tentar refundar o Estado peruano”, afirma o analista.
O fim dos golpes expressos do Congresso
A refundação do Estado não é apenas uma promessa de campanha, mas uma necessidade de sobrevivência frente à burguesia peruana. A plataforma de Sánchez propõe um processo constituinte inédito para frear o caos patrocinado pelas elites. Menon destaca que o parlamento atual atua como um trator contra a vontade popular.
“Chama a atenção que, nessas últimas eleições no país, tratava-se de um Congresso bastante preponderante, que levou processos de impeachment do dia para a noite, os impeachments express”, ressalta.
Para estancar a sangria institucional, o resgate do Senado e a repactuação de forças serão determinantes. O objetivo é aprovar reformas fundamentais que combatam a informalidade e a criminalidade, devolvendo a dignidade roubada pelo modelo neoliberal.
A resistência popular contra a extrema direita
O avanço de Sánchez ocorre em um cenário hostil, marcado pela ascensão da direita na América Latina. O fujimorismo, sustentado pelo capital financeiro e pelo conservadorismo, continua sendo uma força política perigosa. “Trata-se de uma conjuntura bastante desfavorável”, alerta Menon, lembrando que a relação do novo governo com os Estados Unidos também será um teste de fogo.
Apesar das ameaças, a liderança da esquerda prova que o povo peruano rejeita o legado de corrupção e violência da ditadura. A tarefa agora é garantir a posse e transformar o voto camponês na base de um novo Peru, livre das amarras do imperialismo.
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