Os influenciadores Andrew e Tristan Tate foram presos neste sábado (18) em Miami, nos Estados Unidos, após um pedido de extradição do Reino Unido. A dupla, que se autointitula líder do movimento redpill — a “pílula vermelha” que promete despertar os homens para uma suposta verdade oculta sobre as mulheres — enfrenta 59 acusações de estupro, tráfico sexual, agressão e crimes relacionados a imagens indecentes de crianças.
Andrew Tate, ex-campeão de kickboxing de 39 anos, responde a 42 acusações, incluindo estupro, tráfico para exploração sexual, agressão e pornografia extrema. Tristan, de 38, responde a 17 acusações, entre elas estupro e tráfico. Os abusos teriam ocorrido entre julho de 2010 e agosto de 2017, com sete vítimas identificadas. A prisão ocorreu por agentes do U.S. Marshals Service, e o mandado estava sob sigilo.
O Ministério Público britânico informou que as novas acusações elevam o número de vítimas para sete. “Essas decisões de acusação ocorreram após o recebimento de um novo dossiê de provas da Polícia de Bedfordshire”, declarou Malcolm McHaffie, chefe da Divisão de Crimes Especiais.
O que é a redpill e por que ela interessa ao Brasil
O termo redpill é inspirado no filme Matrix — a pílula vermelha que revela a “verdade” ao protagonista. No universo da misoginia organizada, a redpill é o movimento que prega que os homens foram “castrados” pelo feminismo e que precisam retomar o controle sobre as mulheres. É a base filosófica da chamada “machosfera”, um conjunto de comunidades online marcadas pela hostilidade ao feminismo e pela defesa de uma masculinidade tóxica e violenta.
No Brasil, a redpill não é um fenômeno importado — é um afluente direto do bolsonarismo. Enquanto Andrew Tate ostentava carros de luxo e pregava a submissão feminina para milhões de seguidores no mundo inteiro, seus discípulos brasileiros faziam o mesmo em terras tupiniquins. Paulo Kogos, ex-YouTuber e militante bolsonarista que já defendeu a volta da monarquia e a “masculinidade tradicional”, é um dos nomes mais conhecidos. Thiago Schutz, o coach de masculinidade que ameaçou de morte a atriz Livia La Gatto, é outro. Nando Moura, músico e youtuber que acumulava milhões de seguidores pregando misoginia disfarçada de “humor”, completa a lista.
Do mesmo time, o ator global Juliano Cazarré, católico conservador e bolsonarista assumido, lançou em abril o curso “O Farol e a Forja”, que ele descreve como “o maior encontro de homens do Brasil”. A proposta, segundo a divulgação, é ajudar o “homem enfraquecido” a se reconectar com a masculinidade e a fé cristã — com direito a instrutor de tiro incluído no pacote. Questionado sobre o teor misógino da iniciativa, Cazarré nega qualquer ligação com a redpill e diz que seu curso é na verdade o “oposto” dela, que seria “usar as mulheres, não se relacionar com elas, vê-las como inimigas”. A diferença, no entanto, escapa a atrizes como Marjorie Estiano e Elisa Lucinda, que apontaram que o discurso do ator “mata mulheres”. Se Andrew Tate é o pai da redpill mundial, Cazarré é o primo católico que quer vender a mesma pílula com embalagem de vela e terço — mas o conteúdo, no fundo, é o mesmo veneno servido em cálice bento.
O que une todos eles é o discurso: as mulheres são inferiores, o feminismo é uma praga e a violência é uma ferramenta legítima de afirmação masculina.
Redpill é igarapé do neofascismo
Assim como o bolsonarismo no Brasil, o movimento redpill é um igarapé do neofascismo global. Eles compartilham o mesmo DNA: aversão à democracia, culto à violência, hierarquia de gênero como dogma e um desprezo profundo pelos direitos humanos.
No Brasil, as conexões são explícitas. O deputado Ricardo Salles (Novo-SP), candidato ao Senado, chamou Marina Silva de “tartaruga fugida do Acre”, atacou Simone Tebet e ofendeu a falecida dona Lindu, mãe do presidente Lula. O pré-candidato a presidente Flávio Bolsonaro (PL-RJ) disse que “estancaria” a madrasta Michelle se ela não fosse mulher do pai. E o deputado Capitão Alden (PL-BA) — o mesmo que a Polícia Federal aponta como “laranja” de Valdemar Costa Neto no esquema de desvio de R$ 119 milhões em emendas — apresentou uma emenda para liberar o racismo no Brasil como condição para aprovar o PL da Misoginia.
O ódio sobre nossas meninas na escola
59 acusações e um império em ruínas
Enquanto seus seguidores brasileiros continuam soltos e produzindo conteúdo, os irmãos Tate estão atrás das grades. A prisão em Miami foi a consequência de um longo processo que começou na Romênia, onde foram detidos em dezembro de 2022 por suspeita de tráfico humano. Depois de passarem por prisão domiciliar, conseguiram deixar o país e voltaram aos Estados Unidos — onde agora aguardam a extradição para o Reino Unido.
O advogado dos irmãos, Joseph McBride, classifica a prisão como “injusta” e alega que os Tate colaboravam com a Justiça romena. Mas os números são contundentes: 59 acusações, sete vítimas, um período de abusos que durou sete anos. O império de luxo, misoginia e violência construído por Andrew Tate está desmoronando.
Resta saber quanto tempo os discípulos brasileiros vão conseguir se manter de pé — e quantos jovens continuarão engolindo a pílula vermelha do ódio antes que a Justiça também bata à porta deles.





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