A Meta, dona do Facebook, Instagram e WhatsApp, ordenou a destruição de evidências sobre assédio e exploração sexual de menores “em mais de uma ocasião”. A denúncia é de Jason Sattizahn, ex-pesquisador de integridade e segurança da unidade de realidade virtual da empresa. Em depoimento publicado no dia 18 de agosto, como parte de uma ação movida por 29 estados americanos, Sattizahn relatou que sua gerente direta e uma advogada da Meta mandaram que ele apagasse “de forma absoluta” todos os dados recolhidos sobre os danos sexuais sofridos por menores em um estudo interno.
Isso importa porque não é negligência. É ocultação deliberada. A Meta sabia que crianças estavam sendo vítimas de abuso sexual em suas plataformas, coletou os dados que provavam isso — e escolheu destruir as provas para proteger a marca. O ex-diretor de engenharia Arturo Béjar, em depoimento no mesmo processo, afirmou que a diretriz interna era “priorizar lucros em vez de segurança no design das plataformas”. A empresa diz que as pesquisas “não mostraram uma ligação clara entre o uso de redes sociais por adolescentes e a falta de bem-estar”. Mas apagou as que mostravam.
O contexto é de um padrão de comportamento que se arrasta há anos. Segundo Sattizahn, a Meta começou a tratar investigações sobre danos ligados às redes sociais “como riscos para a marca” após o vazamento de relatórios internos pela delatora Frances Haugen, no fim de 2021. Qualquer pesquisa sobre verificação de idade passou a envolver “forte interferência do time jurídico”. A empresa não queria descobrir o problema — queria garantir que o problema não fosse documentado.
Reportagem recente da revista Wired mostrou que as imagens de abuso sexual infantil não só persistem nas plataformas da Meta, como foram disseminadas por aplicativos de IA que tiram as roupas das pessoas sem consentimento. O Tech Transparency Project identificou mais de 50 anúncios em imagem e vídeo com esse tipo de abuso. A Meta removeu os conteúdos — mas só depois que a revista entrou em contato. A empresa afirma ter removido mais de 36 milhões de publicações com referências à exploração sexual de menores no ano passado. Se removeu 36 milhões, é porque o problema existe em escala industrial. E mesmo assim, escolheu apagar as evidências internas que poderiam ajudar a combatê-lo.
A mesma lógica que fez o Discord demorar 25 minutos para derrubar uma live onde uma menina de 13 anos morreu é a lógica que faz a Meta destruir provas de pedofilia. Big tech não se autorregula. Big tech se protege. E quando o lucro colide com a segurança de crianças, o lucro ganha — e a criança perde.
A contradição central
A Meta coletou dados sobre abuso sexual de menores em suas plataformas, teve a prova em mãos — e ordenou a destruição. O ex-funcionário que denunciou foi instruído a apagar “de forma absoluta” os registros. A empresa diz que removeu 36 milhões de publicações de exploração infantil no ano passado. Se o problema é desse tamanho, por que destruir as evidências que poderiam ajudar a resolvê-lo? Porque a Meta não quer resolver. Quer proteger a marca.






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