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Imagem: FLIA (gerada por IA)
BRASIL

Meta libera mentira eleitoral e cala jornalismo de esquerda no Brasil

Anistia Internacional prova: Facebook aprova desinformação

A Anistia Internacional, movimento global com mais de 10 milhões de pessoas dedicadas a defender direitos humanos, justiça e liberdade, realizou um experimento que deveria ter parado o mundo, mas que a grande imprensa brasileira tratou com a delicadeza com que trata tudo que incomoda o poder das plataformas: silêncio educado, manchete enterrada, análise superficial. A organização apresentou ao Facebook 15 anúncios em português do Brasil, dirigidos exclusivamente à população brasileira em idade de votar, para avaliar como os sistemas de moderação publicitária da plataforma tratavam conteúdos relacionados às eleições na véspera do pleito de 4 de outubro de 2026. Dos 15 anúncios, 14 continham desinformação. Um era neutro. O resultado é o retrato de uma plataforma que não protege a democracia. Aprova a mentira. Não detecta a fraude. E, quando detecta algo, não é a desinformação que detecta. É a esquerda.

Oito dos 14 anúncios com desinformação foram aceitos para publicação. Oito. Mais da metade. Nenhum dos outros sete foi rejeitado especificamente por conter desinformação eleitoral. Foram rejeitados por se tratarem de “anúncios sobre temas sociais, eleições ou política” sem verificação de identidade, não por mentirem. Ou seja: a Meta, empresa controlada por Mark Zuckerberg, cujo Instagram e cujo Facebook são os principais canais de informação do eleitorado brasileiro, não consegue identificar desinformação eleitoral em seu próprio sistema de moderação. Não consegue, ou não quer. A distinção é o que está em jogo.

Jurema Werneck, diretora executiva da Anistia Internacional Brasil, foi direta:

“Resulta extremamente alarmante que o sistema de moderação da Meta não tenha detectado mais da metade dos anúncios relacionados às eleições que continham desinformação. A desinformação que se espalha sem controle nas redes sociais pode ter consequências devastadoras para os direitos humanos e minar significativamente o direito ao voto.”

A frase é de uma organização que não é partidária, não é governamental, não é brasileira. É uma das maiores organizações de direitos humanos do planeta, dizendo que a Meta está minando o direito ao voto no Brasil. E ninguém ouviu.

Ummar Bashir, pesquisador e assessor sobre Inteligência Artificial e Direitos Humanos da Anistia, completou:

“A investigação indica que os sistemas de moderação do Facebook poderiam não estar detectando de forma confiável conteúdo com desinformação relacionado às eleições. Embora o Facebook tenha rejeitado sete dos 15 anúncios, os marcou com base em sua política sobre temas sociais, eleições ou política, não especificamente por desinformação eleitoral. Isso suscita profunda preocupação sobre se estão sendo aplicadas de forma consistente as salvaguardas sobre temas eleitorais.”

Profunda preocupação. A palavra é do pesquisador. A constatação é da ciência. E a consequência é da democracia.

As três táticas da mentira

Os 14 anúncios com desinformação foram concebidos para refletir três táticas usadas por políticos e candidatos para sustentar práticas autoritárias. A primeira é a “deslegitimação eleitoral”, conteúdos cuja intenção é minar a confiança nas eleições, nos sistemas de votação ou nos resultados eleitorais. A segunda é a “construção de um inimigo”, apresentar oponentes políticos e tribunais como criminosos, traidores ou agentes ilegítimos. A terceira é o “autoritarismo centrado na segurança”, desinformação que defende intervenção militar ou abstenção eleitoral como solução para problemas de segurança.

Um dos anúncios de teste afirmava: “Precisamos de uma revolução militar, não votem nas eleições, o exército recuperará o poder se a abstenção superar 50%.” Outro afirmava que “Lula roubará as eleições.” A Anistia constatou que os sistemas de moderação do Facebook pareciam mais eficazes em reconhecer anúncios que apresentavam oponentes políticos como “criminosos”, “traidores” ou “agentes ilegítimos”. Cinco de cada sete anúncios com esse tipo de conteúdo foram rejeitados. Mas os anúncios de deslegitimação eleitoral e de autoritarismo centrado na segurança passaram. A Meta detecta o insulto pessoal. Não detecta o golpe de Estado.

E há mais. A Anistia detectou deficiências nas salvaguardas aplicadas à apresentação de anúncios relacionados às eleições. Os anúncios puderam ser apresentados sem declarar que estavam incluídos nas Categorias de Assuntos Especiais do Facebook, como exige a lei eleitoral brasileira e as próprias políticas da Meta. A verificação de identidade, exigida para todo conteúdo relacionado a processos eleitorais, não foi realizada. Os anúncios foram apresentados de fora do Brasil, de Londres, sem VPN, sem que a plataforma exigisse qualquer comprovação de origem. Ou seja: qualquer ator estrangeiro, de qualquer país, pode comprar anúncios eleitorais no Facebook brasileiro sem verificar identidade, sem declarar origem, sem cumprir a lei eleitoral. A porta está aberta. A Anistia provou. E a Meta não respondeu.

No primeiro trimestre de 2026, 98% da receita da Meta veio de publicidade. Noventa e oito por cento. A empresa que decide o que o eleitor brasileiro vê antes de votar é uma empresa que lucra com o que o eleitor vê. E o que o eleitor vê não é o que é verdadeiro. É o que gera engajamento. E o que gera engajamento não é a verdade. É a indignação, o medo, a raiva, o escândalo. A mentira gera mais indignação que a verdade. O algoritmo sabe disso. E aprova a mentira.

A censura que vem do outro lado

E se a Meta aprova a mentira eleitoral, cala a verdade jornalística. A Frente Livre, em 29 de julho, noticiou o que a Anistia ainda não havia medido: o shadow ban. Na noite do domingo 26, o Instagram enviou notificação informando que “sua conta não pode ser exibida para não seguidores.” O documento chega no momento em que os decretos 12.975 e 12.976 entram em vigor para obrigar as plataformas a combater crimes digitais. A resposta da Meta não é mais transparência. É censura política. E não é um caso isolado.

O historiador Jones Manoel, candidato a deputado federal pelo PSOL em Pernambuco, com 2 milhões de seguidores no Instagram, sofreu o mesmo shadow ban na semana anterior, ao atingir a marca. A conta existe, o conteúdo é publicado, mas ninguém vê. O alcance cai sem explicação. A busca não retorna o perfil. É censura invisível, silenciosa e difícil de provar juridicamente. A política anunciada pela Meta de não promover conteúdo político de contas não seguidas pelo usuário atinge desproporcionalmente a esquerda, que depende do alcance orgânico. A direita tem estrutura de impulsionamento pago, máquinas de conteúdo financiadas e exércitos de perfis automatizados. Quando a Meta corta o alcance orgânico, corta a esquerda. A direita paga para aparecer. A esquerda é proibida de aparecer. E a Anistia provou que, quando a direita paga para aparecer com mentira, a Meta aprova.

O laboratório latino-americano

O que acontece no Brasil não é pioneiro. É a aplicação de um método já testado e aprovado em três países da América Latina nos últimos meses. Em todos, a manipulação algorítmica das redes sociais resultou na eleição de candidatos de extrema direita alinhados a Donald Trump.

Na Colômbia, o presidente Gustavo Petro denunciou fraude eleitoral algorítmica e sistemática que alterou aproximadamente 7 milhões de votos para impor Abelardo de la Espriella, candidato de extrema direita alinhado a Trump e a Israel. A firma israelense BlackCore, que se descreve como “empresa de influência, cyber e tecnologia de elite, construída para a era moderna da guerra de informação”, operou 500 mil contas falsas em redes sociais espalhando “milhões de mentiras” sobre o candidato de esquerda. A Viginum, agência francesa de vigilância de desinformação, identificou BlackCore como operadora de interferência em eleições na França, Escócia, Nova York, Angola e Togo. Em todos, o alvo era o mesmo: políticos que criticavam Israel e defendiam a causa palestina. A diferença entre vitória e derrota na Colômbia foi de menos de 1%. E 500 mil bots trabalhando dia e noite para empurrar esse 1% para o lado errado.

No Peru, Keiko Fujimori venceu o segundo turno contra o candidato de esquerda. No Chile, José Antonio Kast, ultra-direitista admirador de Trump, venceu a eleição, completando o que a BBC chamou de “círculo de fogo pró-Trump” em torno do Brasil. Em todos, o mesmo padrão: o algoritmo amplifica a mentira da direita, oculta a verdade da esquerda, e o resultado é o mesmo: governo fantoche que obedece a Washington e a Tel Aviv.

A Anistia Internacional, sem saber da Colômbia, sem saber do Peru, sem saber do Chile, sem saber do shadow ban, fez o experimento e chegou à mesma conclusão que a Frente Livre já havia cravado: a Meta não protege a democracia. A Meta protege o lucro. E o lucro, na América Latina de 2026, se chama extrema direita.

A OEA que não vê

A Organização dos Estados Americanos informou que enviará observadores internacionais para acompanhar as eleições gerais de outubro no Brasil. Será a quinta vez que a entidade envia representantes ao país. Além da OEA, confirmaram presença a União Europeia, o Parlamento do Mercosul, a União Interamericana de Organismos Eleitorais, a Liga dos Estados Árabes e a Rede dos Órgãos Jurisdicionais de Administração Eleitoral da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.

O problema é que a interferência não acontece nos locais de votação. Acontece antes. Acontece nos algoritmos. Acontece nas tarifas. Acontece nas redes sociais. Acontece nos gabinetes de Washington. E os observadores da OEA nada podem fazer contra isso. A OEA concluiu em 2022 que as eleições brasileiras ocorreram “com ordem e normalidade”. E ocorreram. As urnas eletrônicas são auditáveis, seguras e confiáveis. O problema não está nas urnas. Está no que chega ao eleitor antes de ele votar. Está no algoritmo que esconde a esquerda e amplifica a direita. Está no tarifaço que Trump usa como chantagem. Está na firma israelense que pode estar operando bots neste momento. Está na bandeira americana erguida durante o hino nacional no ato de Flávio Bolsonaro em Copacabana. Os observadores internacionais verificam a integridade do voto. Não verificam a integridade do que o eleitor leu, viu e ouviu nas semanas anteriores. Não verificam o shadow ban. Não verificam o impulsionamento pago de conteúdo de direita. Não verificam a atuação de firmas como BlackCore. Não verificam a ingerência de Trump via tarifas e sanções. Não verificam a manipulação algorítmica que já derrubou governos em três países da América Latina.

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A Doutrina Monroe e os correios

E há o vídeo. Em 12 de agosto, o Departamento de Estado dos Estados Unidos publicou, nas redes sociais oficiais da diplomacia americana, um vídeo de propaganda institucional que declara abertamente a hegemonia norte-americana sobre a América Latina. A peça trata o continente como quintal subjugado. A publicação não foi acidental. Foi ao ar no mesmo dia em que Trump anunciou tarifaço comercial. E no mesmo dia em que os Bolsonaros publicaram foto negociando entregas para Trump. Três movimentos coordenados. Uma coreografia imperial.

A Doutrina Monroe foi enunciada em 1823 pelo presidente James Monroe. Dizia: “América para os americanos.” Tradução livre: a América Latina é quintal dos Estados Unidos. Nenhuma potência europeia pode se meter. Os EUA podem. E se meteram, durante 203 anos. Invadiram, derrubaram governos, instalaram ditaduras, financiaram golpes, bloquearam ilhas, sequestraram presidentes. A Doutrina Monroe não dormiu. Foi apenas atualizada. E os Bolsonaros são os correios. A soberania é o pacote. O destinatário é a Casa Branca.

A eleição de 2026 não é entre Lula e Flávio Bolsonaro. É entre soberania e entrega. E a Meta, como a Anistia provou, está do lado da entrega. Aprova a mentira que ajuda a entrega. Cala o jornalismo que denuncia a entrega. E o faz com a impunidade de quem sabe que 98% da sua receita vem de anunciantes que pagam para que o eleitor veja o que o algoritmo decide que ele veja. A Anistia fez o experimento. Provou a fraude. Mediu a falha. Documentou a omissão. E a pergunta que fica é a mesma que Petro fez na Colômbia: se a plataforma aprova golpe militar em anúncio pago, se a plataforma não detecta desinformação eleitoral, se a plataforma cala jornalismo de esquerda enquanto amplifica mentira de direita, o que exatamente a plataforma está protegendo? Não está protegendo a democracia. Não está protegendo a verdade. Não está protegendo o eleitor. Está protegendo o lucro. E o lucro, em ano de eleição na maior democracia da América Latina, tem endereço: Menlo Park, Califórnia. E tem destinatário: a Casa Branca.

A Anistia provou. A Frente Livre documentou. A Colômbia caiu. O Peru caiu. O Chile caiu. A OEA observa as urnas. Trump vigia o algoritmo. E o Brasil, que vota em 4 de outubro, precisa decidir se aceita ser o próximo país da lista ou se entende, a tempo, que a democracia não morre na urna. Morre antes. Morre no feed. Morre no algoritmo que aprova mentira e proíbe verdade. Morre na plataforma que lucra com a morte. E a Anistia, que não é jornalismo de esquerda, que não é militância política, que é uma das maiores organizações de direitos humanos do mundo, disse com todas as letras: a Meta está minando o direito ao voto no Brasil. Se a Anistia disse, é porque é fato. Se é fato, é escândalo. E se é escândalo, vamos denunciar.
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