O prefeito de Campestre do Maranhão (MA), Fernando Bermuda (PSB), resolveu transformar a prefeitura em curral eleitoral. Numa mensagem enviada a grupos da cidade, ele ameaçou demitir servidores municipais que não apoiarem Flávio Bolsonaro (PL) na eleição presidencial de outubro. O recado foi direto: “Quem votar em Lula após a eleição tá na rua”.
A declaração circulou em 4 de agosto, quando a prefeitura promoveu um culto para marcar o início das atividades do segundo semestre de 2026. Ao convocar funcionários para o evento da Assembleia de Deus, Bermuda afirmou: “Vamos no culto hoje na Assembleia de Deus. Todos Flávio Bolsonaro. Quem votar em Lula após a eleição tá na rua”.
Uma música produzida com inteligência artificial e distribuída em grupos do município também associa a manutenção de cargos ao apoio ao candidato do PL. Um trecho diz: “Já vou avisar, quem não apoiar o Flávio, já pode arrumar a mala e ir pra obra”.
Por que o bolsonarismo quer o voto impresso
Este episódio, mais do que um caso isolado de assédio, explica exatamente por que o bolsonarismo insistiu tanto no voto impresso. Não era por desconfiança da urna eletrônica. Era para ter como ressuscitar a política dos coronéis — a velha prática em que o chefe local controlava o voto dos seus dependentes, sabia quem votava em quem e cobrava a conta depois.
Com o voto impresso, o prefeito de Campestre do Maranhão não precisaria ameaçar no escuro. Ele poderia conferir, cédula por cédula, quem votou em quem. E aí sim, “quem votar em Lula tá na rua” deixaria de ser blefe para virar sentença. O voto impresso é o sonho de todo coronel: o controle total sobre o eleitor.
O que fazer se o seu chefe é um fascista
Se você é servidor público e está sob ameaça desse tipo, respire fundo. O voto é secreto. A urna não conta para o prefeito. E ele não tem como saber em quem você votou — a não ser que você conte. Então, primeiro conselho: não conte.
O segundo conselho: denuncie. Ameaçar dispensar funcionários por causa de voto pode configurar assédio eleitoral. O artigo 300 do Código Eleitoral prevê multa e detenção de até seis meses para condutas que coajam eleitores, enquanto a Lei das Eleições também permite enquadramento por abuso de poder político.
Um servidor da Secretaria Municipal de Educação de Campestre do Maranhão, que pediu anonimato por receio de represálias, relatou que as pressões seriam recorrentes. “Ele sempre foi assim, só fala com os funcionários na base da ameaça e da ignorância”, afirmou. O trabalhador disse que colegas se submetem à situação porque dependem do salário para sustentar as famílias.
O manual do voto sob ameaça
Passo um: lembre-se de que a urna é inviolável. Ninguém, nem o prefeito, nem o patrão, nem o pastor, tem acesso ao seu voto. A promessa de demissão é blefe — e, mesmo que fosse real, seria crime.
Passo dois: guarde as provas. Print de mensagem, áudio, vídeo. Tudo serve para denunciar o assédio eleitoral ao Ministério Público Eleitoral, à Justiça Eleitoral ou ao Ministério Público do Trabalho. A ameaça do prefeito, registrada em grupos de WhatsApp, é a prova do crime.
Passo três: vote. Vote em quem você quiser, inclusive em Lula. O seu voto é seu. Não é do prefeito, não é do patrão, não é de ninguém. É a única arma que o trabalhador tem contra o poder — e é secreta.
Passo quatro: se for demitido, processe. A demissão por motivo de voto é nula e dá direito a reintegração e indenização. O assédio eleitoral é crime e o abuso de poder político pode cassar o mandato do prefeito.
A hipocrisia do “prefeito do povo”
O prefeito de Campestre do Maranhão ainda tentou se defender, dizendo que apresentava seu “ponto de vista sobre a política”. E completou a pérola: “Se eu for obrigado a demitir servidores, vou começar pelos petistas”. Horas depois, afirmou que poderia ser alvo de perfis falsos — mas o número exibido nas mensagens coincide com o usado por ele nas conversas com a reportagem.
A ironia é que Campestre do Maranhão recebeu mais de R$ 185 milhões em recursos federais entre janeiro de 2023 e julho de 2026. Ou seja: o prefeito ameaça demitir servidores que votarem em Lula, mas enche a prefeitura com o dinheiro que o governo Lula manda para o município. É o bolsonarismo na sua forma mais pura: morder a mão que alimenta.
O voto é secreto. A urna é inviolável. O assédio é crime. E o trabalhador, que depende do salário para sustentar a família, tem o direito — e o dever — de votar em quem achar melhor, sem medo. O prefeito pode ameaçar. Mas quem decide é o povo. E o povo, na cabine de votação, está sozinho com a sua consciência. E com Lula, se assim quiser. O voto impresso, que o bolsonarismo tanto quer, é a ferramenta do coronel. A urna eletrônica é a ferramenta do povo. E o povo não vai entregar o seu voto de volta aos coronéis.






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