O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), anunciou na segunda-feira (10), em evento em João Pessoa (PB), apoio à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva. A justificativa do parlamentar é digna de roteiro de novela: o projeto do presidente “converge com aquilo que pensamos ser o melhor para o país”.
A conversão é tocante. Sobretudo para quem passou o mandato inteiro como um dos principais sabotadores do governo.
O Centrão que traiu o tempo inteiro
Motta é a cara do Centrão: o presidente da Câmara que comandou o Congresso que entrou para a história como “Congresso inimigo do povo”. Foi sob sua gestão que pautas do trabalhador foram engavetadas, regulações contra o grande capital ficaram pelo caminho e 87 vetos trancaram a pauta do Legislativo.
- Reforma Administrativa: Motta demonstrou intenção de acelerar a votação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que trata da reforma administrativa, alterando regras para servidores públicos.
- Projetos de Lei contestados: Apoiou e conduziu votações de matérias de interesse do empresariado que foram alvo de forte oposição de entidades trabalhistas, chegando a processar sindicatos por críticas à chamada “PEC da Blindagem”.
- Confrontos sindicais: Entidades sindicais, como o Sindicato dos Bancários, criticaram sua atuação por supostamente privilegiar interesses patronais e adotar posturas repressivas contra parlamentares de oposição.
Isso sem contar que Motta é um dos “gerentes” do Orçamento secreto, das emendas PIX. A natureza dele nunca foi o povo trabalhador. É a defesa do grande capital, a negociação permanente com o poder econômico, o toma-lá-dá-cá que define o Centrão há décadas. Nada disso mudou.
O que mudou foi a Paraíba.
A aritmética da sobrevivência
Na Paraíba, Lula é amplamente majoritário. Motta disputa a reeleição como deputado federal. Contra Lula no estado, o presidente da Câmara seria atropelado nas urnas. A favor, cola no palanque mais forte do estado e garante o mandato. O apoio não é convicção. É aritmética eleitoral.
O anúncio, inclusive, veio depois de o Republicanos liberar os diretórios estaduais: o partido declarou neutralidade nacional, frustrando os planos de Flávio Bolsonaro (PL). O presidente nacional da legenda, Marcos Pereira, fará campanha para Flávio — mas respeita a vontade da maioria dos diretórios. Ou seja: no discurso nacional, neutralidade; na prática paraibana, Motta e a família já estavam do lado de Lula havia meses.
O pai de Motta, Nabor Wanderley (Republicanos), ex-prefeito de Patos (PB) e candidato ao Senado, já declarava voto em Lula desde muito antes. A família integra uma coligação que une o Republicanos ao PT na Paraíba. Nada de novo sob o sol — só a oficialização do que a sobrevivência política já tinha decidido.
A conversão de véspera
Há um detalhe que o discurso de Motta esconde: o presidente Lula deve pedir votos no Senado para outros aliados na Paraíba, como o ex-governador João Azevedo (PSB) e o senador Veneziano Vital do Rêgo (MDB). Ou seja, o apoio de Motta a Lula não garante nem o palanque para o próprio pai. O presidente da Câmara entra na onda lulista para salvar o próprio mandato — e só.
Se o projeto de Lula sempre foi “o melhor para o país”, por que Motta esperou o fim do mandato para descobrir? Por que travou o governo na presidência da Câmara e agora aparece abraçado ao presidente? A resposta é simples: porque na Paraíba, em 2026, ficar contra Lula é decreto de morte eleitoral. O Centrão não vira lulista por conversão. Vira por cálculo. E o povo, mais uma vez, serve de escada para quem sempre esteve do outro lado da mesa.
Nós, da Frente Livre, só temos a concluir com a lógica básica: se você é trabalhador, não vote no Centrão, nem se ele anunciar apoio a Lula. Vote na esquerda.






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