No domingo (16), Sarah B. Rogers, subsecretária de Estado para Diplomacia Pública dos Estados Unidos, publicou nas redes sociais uma declaração que, lida sem contexto, parece defesa da liberdade. Lida com contexto, é defesa da mentira. Rogers classificou como “censura imposta pelo Brasil” a regra eleitoral que levou o X, o antigo Twitter, rebatizado depois que foi comprado por Elon Musk, a limitar recomendações orgânicas de publicações de candidatos nas eleições de 2026.
“Esse tipo de transparência algorítmica é exatamente o que muitos reguladores dizem querer. Ela também deixa explícita a censura imposta pelo Brasil”, escreveu.
A frase é uma obra de engenharia retórica: usa a palavra “transparência” para elogiar o que a plataforma fez, e a palavra “censura” para condenar quem a obrigou a fazer. O problema é que o que o Brasil fez não é censura. É proteção. E quem fala em censura, neste caso, é uma mulher cujas credenciais merecem ser apresentadas com o cuidado que a gravidade do cargo exige, porque Sarah B. Rogers não é uma diplomata de carreira. É uma extremista colocada por Donald Trump no posto que, historicamente, define como os Estados Unidos se comunicam com o mundo.
Quem é Sarah B. Rogers
Antes de tratar do ataque ao Brasil, é preciso saber quem ataca. O Mediaite, veículo americano especializado em política e mídia, publicou em 16 de janeiro de 2026 reportagem com o seguinte título: “Alto diplomata do governo Trump surpreende ao responder a conta neonazista mencionando “hordas de estupradores bárbaros”.” A diplomata de alto escalão de Trump que estupefez Washington ao responder a uma conta nazista no X é Sarah Rogers. A conta se chama “National Socialists of TikTok”, e publica regularmente conteúdo pró-Hitler. Rogers havia postado sobre os ataques de Colônia, na Alemanha, e escrito: “Após os ataques de Colônia, um parlamentar alemão enfrentou sanções oficiais e foi ameaçado de prisão por tuitar a frase ‘hordas muçulmanas bárbaras de estupradores em grupo’. A Alemanha então rapidamente promulgou mais uma lei de ‘discurso de ódio’ visando redes sociais.” A conta neo-nazista respondeu: “judeus deixaram os morenos entrarem.” E Rogers, em vez de ignorar, bloquear ou repudiar, respondeu: “A Alemanha infamemente retém muito poucos judeus, mas importou hordas bárbaras de estupradores (como americano, posso chamá-los assim).” Explique-se: quando ela cita hordas bárbaras de estupradores está se referindo aos imigrantes e refugianos árabes na Alemanha.
A frase é de uma diplomata americana. De uma subsecretária de Estado. Sobre o caso, Ishaan Tharoor, colunista do Washington Post, tuitou: “É isso que conta como ‘diplomacia pública’ americana hoje em dia.” E de outro usuário que escreveu: “Este tuíte racista e desequilibrado vem de uma funcionária do Departamento de Estado. Ironicamente, ela ocupa o mesmo cargo que Breckinridge Long, o funcionário do Departamento de Estado que usou essa posição para barrar refugiados judeus durante o Holocausto.”
E há mais. Em 6 de março de 2026, o Mediaite publicou outra reportagem, com o título: “Deputado republicano questiona diplomata sênior da era Trump que afirma que o governo Biden estava “tentando tornar os mapas mais gays”. Rogers foi chamada como testemunha em audiência da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, intitulada “Promovendo a segurança nacional por meio da diplomacia pública”. O deputado republicano Brian Mast, presidente da comissão, perguntou: “Pode me dizer o que é ‘queering the map’ (algo como colorindo o mapa, no sentido de maquiando como uma rainha, na tradução para o português)?” E Rogers respondeu: “Acho que estávamos tentando deixar os mapas mais gays.” Mast, estupefato: “Literalmente? Como você deixa um mapa mais gay? Ou gay de qualquer forma?” Rogers: “Não sei. Desde a era da cartografia, temos mapas muito bons, mas talvez não fossem gays o suficiente. Também fiz teoria crítica na faculdade, e acho que às vezes as pessoas usam ‘queer’ como verbo. Os mapas que estávamos tentando deixar gays eram, acho, da Chéquia e da Eslováquia. Talvez esses países tenham pedido. Duvido, mas não sei.” Mast, republicano, do mesmo partido de Rogers, encerrou: “Temos coisas reais para trabalhar no Congresso, como a ameaça iminente do Irã. E é constrangedor que tenhamos que falar que coisas como esta foram financiadas.”
A mulher que ataca o Brasil por “censura” é a mesma que disse, em audiência no Congresso americano, que o governo anterior estava “tentando deixar os mapas mais gays.” É a mesma que respondeu a uma conta neo-nazista no X usando a expressão “hordas bárbaras de estupradores” para descrever imigrantes muçulmanos. É a mesma que advertiu o governo britânico de que “nada está fora da mesa” se a Grã-Bretanha banir o X de Elon Musk. Não é diplomata. É militante. Não é observadora neutra do debate sobre liberdade de expressão. É parte ativa do esquadrão de extrema direita que Trump instalou no Departamento de Estado para pressionar governos estrangeiros a aceitarem a desinformação como “discurso livre.”
O que é manipulação algorítmica
Agora que sabemos quem ataca, entendemos por que ataca. Rogers defende o algoritmo solto porque o algoritmo solto é o instrumento que amplifica a desinformação que beneficia a extrema direita. E para entender por que o algoritmo é o instrumento, é preciso entender como ele funciona, porque a maioria das pessoas ainda pensa em desinformação como postagem falsa que alguém lê e acredita. A realidade é pior. A desinformação do século XXI não depende de alguém ler. Depende de um algoritmo decidir quem vai ler, quando vai ler e quantas vezes vai ler. E o algoritmo não é neutro. É uma máquina projetada para amplificar o que gera engajamento, e o que gera engajamento não é a verdade. É a indignação, o medo, a raiva, o escândalo. A mentira gera mais indignação que a verdade. O algoritmo sabe disso. E amplifica a mentira.
O problema é que o que prende a atenção humana não é o fato verificado, a análise ponderada, o dado contextualizado. É o que provoca emoção forte. E nada provoca mais emoção forte que a mentira escandalosa. Se um deputado diz que o café custa R$ 24,90, ninguém se indigna, porque é o preço real. Se um deputado diz que o café custa R$ 45,99, todo mundo se indigna, compartilha, comenta, manda para o grupo da família. O algoritmo registra essa indignação como “engajamento” e amplifica a postagem para mais pessoas, que também se indignam, também compartilham, também comentam. A mentira se multiplica exponencialmente. A verdade não. A verdade é chata. A verdade não gera cliques. A verdade não gera receita. O algoritmo não foi feito para servir a democracia. Foi feito para servir ao lucro. E quando o lucro e a mentira convergem, a democracia morre.
O exemplo de Nikolas Ferreira
O que o TSE fez e por que não é censura
Agora que entendemos como funciona a manipulação algorítmica, entendemos o que o Tribunal Superior Eleitoral fez e por que não é censura. A Resolução nº 23.610/2019 do TSE determina que plataformas com sistemas de recomendação excluam os perfis oficiais de candidatos informados à Justiça Eleitoral desses mecanismos. Em linguagem simples: o candidato pode postar o que quiser, mas o algoritmo não pode empurrar a postagem para quem não seguiu o candidato voluntariamente. A postagem continua no ar. O perfil continua ativo. Quem segue o candidato continua recebendo o conteúdo. O que a regra impede é a amplificação algorítmica, ou seja, a máquina decidindo que a postagem do candidato deve aparecer no feed de milhões de pessoas que não escolheram vê-la.
Rogers chama isso de censura. Não é. Censura é quando o Estado proíbe a fala. Aqui o Estado não proíbe a fala. Proíbe a amplificação. A diferença é abissal. A fala é um direito individual. A amplificação algorítmica é um serviço comercial prestado por uma empresa privada que decide, por critério de lucro, quem vê o quê. O TSE não está censurando Nikolas Ferreira. Está impedindo que o algoritmo da Meta ou do X transforme a mentira de Nikolas Ferreira em verdade para 31 milhões de brasileiros que não pediram para vê-la. Nesse caso, nem deu muito certo…
O ataque e o que está em jogo
E é aqui que o ataque de Rogers ganha contorno revelador. Ela não é uma cidadã comum opinando nas redes. É subsecretária de Estado para Diplomacia Pública dos Estados Unidos. É governo. É o mesmo governo que decretou emergência nacional contra o Brasil, que impôs tarifas de 37,5% sobre produtos brasileiros, que enviou funcionários para descredibilizar as urnas e teve os vistos negados pelo Itamaraty, que tem Departamento de Estado admitindo “interesse” no processo eleitoral brasileiro. O mesmo governo cujo presidente recebeu Flávio Bolsonaro na Casa Branca e cujo secretário de Estado, Marco Rubio, declarou apoio à candidatura do senador. O ataque à regra do TSE não é opinião. É ingerência. É o império dizendo ao Brasil que não pode regular o algoritmo que amplifica a mentira do candidato que o império apoia.
E quem fala por esse império é uma mulher que responde a contas neo-nazistas no X. Que chama imigrantes muçulmanos de “hordas bárbaras de estupradores.” Que disse, em audiência no Congresso, que o governo anterior estava “tentando deixar os mapas mais gays.” Que advertiu a Grã-Bretanha de que “nada está fora da mesa” se banir o X de Musk. Sarah B. Rogers é a cara da diplomacia trumpista: racista, desinformada, extremista, colocada no cargo não para representar os Estados Unidos perante o mundo, mas para representar o trumpismo perante o mundo. E o trumpismo, como se sabe, não distingue entre liberdade de expressão e liberdade de mentir. Para o trumpismo, são a mesma coisa. Para a democracia, não são.
O que está em jogo é o seguinte: se o algoritmo fica solto, a mentira viaja na velocidade da luz e alcança 31 milhões de pessoas em 24 horas. Se o algoritmo é regulado, a mentira fica confinada a quem procura o candidato voluntariamente. A diferença entre essas duas situações é a diferença entre uma eleição decidida por desinformação e uma eleição decidida por argumento. Trump quer a primeira. O TSE quer a segunda. E chamar a segunda de censura é servir à primeira.
A manipulação algorítmica não é abstração. É Nikolas Ferreira inventando que o café custa R$ 45,99 quando custa R$ 24,90, inventando que o ovo custa R$ 29,99 quando custa R$ 9,80, inventando que a picanha custa R$ 162 quando custa R$ 69,99, e alcançando 31 milhões de pessoas em 24 horas com essa mentira, porque o algoritmo amplifica o que indigna, não o que é verdadeiro. A regra do TSE é o freio. O ataque de Rogers é o pé no acelerador. E o Brasil, que já viu o que a desinformação algorítmica fez em 2022, quando Jair Bolsonaro foi eleito com ondas de fake news amplificadas por WhatsApp e por algoritmos de plataformas, sabe exatamente o que está em jogo. Sabe porque já pagou o preço. E não vai pagar de novo.
Se o algoritmo ficar solto, vai amplificar a palavra “censura” para milhões de pessoas que não saberão que o que está sendo defendido não é a liberdade de falar. É a liberdade de mentir em escala industrial. E essa, na democracia, não é liberdade. É fraude. E quem a defende, com as credenciais de Rogers, não é diplomata. É cúmplice.






Deixe seu comentário