A grande imprensa brasileira publicou nesta semana uma enxurrada de vazamentos do inquérito que investiga Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Lula. As matérias, baseadas em informações sigilosas, sugerem tráfico de influência no governo federal. Mas quem lê com atenção percebe: não há encadeamento de causa e consequência que sequer pareça criminoso. São indícios jogados aleatoriamente para pichar o personagem Lulinha e sugerir corrupção no governo Lula. E isso está sendo feito metodicamente.
O inquérito é derivado da Operação Sem Desconto, que apura fraudes em descontos de aposentadorias do INSS. Quem preside o caso no Supremo Tribunal Federal (STF) é o ministro André Mendonça, nomeado por Jair Bolsonaro em 2021 com a missão explícita de ocupar a vaga de Marco Aurélio Mello com um perfil “evangélico e conservador”, nas palavras do próprio Bolsonaro. Mendonça abriu três inquéritos contra Lulinha em menos de uma semana. Cobra pressa da Polícia Federal (PF). Exige respostas. Pressiona diligências. As provas, segundo fontes ouvidas pelo ICL Notícias, ainda não foram juntadas aos autos. Mas o ministro cobra. E elas estão vazando.
A investigação que não vaza
Do outro lado do corredor do STF, repousa adormecido o inquérito Dark Horse, que investiga os R$ 61 milhões repassados pelo banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, para o financiamento de uma cinebiografia de Jair Bolsonaro. O inquérito foi aberto em 23 de julho. Quase um mês depois, nenhuma busca e apreensão. Nenhuma quebra de sigilo. Nenhuma prisão. Nenhum vazamento. Nenhuma vírgula. O caso envolve Flávio Bolsonaro, candidato neofascista à Presidência pelo PL, que pediu dinheiro a Vorcaro. Eduardo Bolsonaro se autoexilou nos Estados Unidos. A PF pediu inclusão de Flávio na lista prateada da Interpol. É, por qualquer critério, o caso mais grave em tramitação no STF. Mas Mendonça espera. No Dark Horse, o ministro dorme. No Lulinha, o ministro cobra. A diferença não é sutil. É estrutural.
A imprensa que não checa
A imprensa reproduz os vazamentos sem questionar. Não importa se policiais a serviço do ministro estão alimentando reportagens. Não analisa criticamente o conteúdo.
Noticiaram no jornal O Globo que a empresária Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha, ressaltam, comprou joias para o ex-chefe de gabinete de Lula, Marcola.
No site Metropoles, outro pedaço de vazamento. Diz-se que Lulinha recomendou que Roberta emitisse nota fiscal para um empresário.
No site Poder360, outro filamento vazado com o mesmo propósito. Lulinha e Roberta “discurtiram sobre negócios e encontros com integrantes do Governo Federal”, assim mesmo, sem muitos detalhes, e conversaram sobre “a Suíça” — essa com direito a print da tela do celular com a frase solta, sem nenhuma contextualização. Lulinha menciona Marcola e Swedenberger Barbosa, o Berger, ex-secretário-executivo do Ministério da Saúde.
Nada disso configura crime. Configura pichação.
A revista Fórum apurou que o PT pediu ao STF investigação sobre o vazamento dos áudios de Lulinha para a campanha de Flávio Bolsonaro. O advogado de Lulinha, Marco Aurélio Carvalho, classificou como “mais um vazamento criminoso” e disse que vai pedir providências enérgicas a Mendonça, ao Ministério da Justiça e à PF.
O presidente Lula já disse em várias oportunidades que não vai usar a força do cargo para proteger o filho. “Se ele fez alguma coisa errada, que se defenda e que pague por isso”, afirmou. É a postura de um presidente que respeita as instituições. Mas as instituições respeitam Lula? Mendonça, nomeado por Bolsonaro, acelera o inquérito contra o filho de Lula em ano eleitoral e congela o inquérito contra o candidato de Bolsonaro. A imprensa amplifica. A Justiça é seletiva. Quando quer, é rápida. Quando não quer, é paciente. E quando o objeto da paciência é um Bolsonaro, a paciência tem nome, rosto e padrinho.






Deixe seu comentário