O Ministério Público do Trabalho recebeu 223 denúncias de assédio eleitoral em 2026. Destas, 95 foram registradas apenas em agosto — 42,6% do total. Em julho, foram 46. O número mais que dobrou no mês em que começou a campanha eleitoral. Há registros nos 26 estados e no Distrito Federal. São Paulo lidera com 29 denúncias, seguido por Rio de Janeiro (21), Pernambuco (14), Minas Gerais e Pará (13 cada). Os dados são oficiais, são frios e retratam exatamente o que a Frente Livre vinha denunciando: o patrão bolsonarista usando o emprego como refém.
Isso importa porque não são casos isolados. É padrão. Uma pesquisa do TST e do Conselho Superior da Justiça do Trabalho analisou 138 processos judiciais e encontrou terror psicológico em 81,9% dos casos. Assédio virtual em 67,4%. Coerção econômica em 61,6%. Em 48,6% dos processos, havia ameaça explícita de demissão. Em 13,8%, a demissão aconteceu de fato. O WhatsApp foi mencionado em 37% dos casos. O patrão não manda mais só o capataz bater na porta da casa do trabalhador. Ele manda áudio no grupo da empresa.
O contexto é de uma classe patronal que se alinhou ideologicamente com a extrema direita porque compartilha o mesmo projeto: ampliar lucros reduzindo direitos. O trabalhador que conquista jornada de 40 horas, dois dias de descanso, salário mínimo reajustado acima da inflação e carteira assinada é um trabalhador mais caro. O patrão que apoiou Bolsonaro, financiou Flávio e chora a 6×1 não quer liberdade para o trabalhador. Quer liberdade para explorar. E como não consegue vencer nas urnas — porque o povo vota em Lula — tenta vencer no medo. Controla o voto controlando o emprego.
O caso de Campestre do Maranhão é o retrato perfeito. O prefeito Fernando Bermuda mandou mensagem em grupo de WhatsApp: “Quem votar em Lula após a eleição tá na rua”. Uma música produzida com inteligência artificial foi distribuída nos grupos do município com a letra: “Já vou avisar, quem não apoiar o Flávio, já pode arrumar a mala e ir pra obra”. O prefeito bolsonarista transformou a prefeitura em curral eleitoral. E a ironia: Campestre do Maranhão recebeu mais de R$ 185 milhões em recursos federais do governo Lula entre janeiro de 2023 e julho de 2026. O prefeito ameaça demitir quem vota em Lula com o dinheiro que Lula manda para o município.
A escalada é calculada. Entre janeiro e julho, antes mesmo do início oficial da campanha, foram 128 denúncias — 25,5% acima das 102 registradas no mesmo período de 2024 e 16 vezes maior que os oito relatos de 2022. O procurador-geral do Trabalho, Gláucio Araújo de Oliveira, admite que a polarização da disputa presidencial eleva a demanda. A Justiça do Trabalho capacitou magistrados para atuar em regime de plantão, a qualquer horário, para produzir liminares que interrompam as práticas. Mas o principal obstáculo é o medo. A procuradora da República Nathália Mariel é clara: “A pessoa está no emprego, ela tem medo de perder o emprego dela, ela tem medo de não conseguir emprego em outro lugar depois”.
É exatamente esse medo que o patronato bolsonarista explora. O patrão sabe que o trabalhador depende do salário para comer. Sabe que a urna é secreta — por isso insistiu tanto no voto impresso, para poder conferir cédula por cédula quem votou em quem. O voto impresso era o sonho do coronel. A urna eletrônica é a ferramenta do povo. E o povo não vai entregar o voto de volta aos coronéis.
A contradição central
O patrão bolsonarista ameaça demitir quem vota em Lula porque sabe que não vence no argumento. Vence no medo. 223 denúncias em 2026. Terror psicológico em 81,9% dos casos. Ameaça de demissão em 48,6%. O capital não controla o voto porque gosta de política. Controla o voto porque precisa de um governo que permita explorar mais, pagar menos e cortar mais direitos. O assédio eleitoral não é excesso. É a própria lógica do sistema.
Compartilhe esta notícia. Mande para quem precisa saber que o voto é secreto, a urna é inviolável e a ameaça do patrão é crime. Denuncie no site do MPT. O patrão não decide seu voto. Você decide.
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