O candidato neofascista, ligado às milícias e suspeitíssimo de corrupção à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) declarou neste sábado (5) que o ex-juiz e senador Sergio Moro (PL-PR) está convencido de que ele não cometeu irregularidades na investigação das “rachadinhas”. A declaração foi dada durante visita à Cadeia Pública de Ponta Grossa (PR), onde está preso Filipe Martins, ex-assessor presidencial do golpista Jair Bolsonaro (PL).
Flávio e Moro acusaram, veja só, o governo Lula de interferir na Polícia Federal (PF). A dupla, no entanto, parece ter “esquecido” do motivo que fez o ex-juiz a deixar o governo Bolsonaro. E é aí que a cena vira um monumento ao cinismo de uma intensidade tão absurda que ainda não se tem uma palavra para designar o significado.
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O vexame em três atos
Vamos montar o quebra-cabeça, porque a cena é digna de roteiro de comédia pastelão. O primeiro ato: Flávio Bolsonaro foi denunciado por corrupção por roubar o salário dos funcionários do próprio gabinete, as famigeradas rachadinhas. O segundo ato: o pai dele, enquanto presidente, demitiu o ministro da Justiça, Sergio Moro, justamente para evitar que essa investigação fosse adiante. O terceiro ato: o mesmo Flávio, hoje, viaja ao Paraná para apoiar a candidatura ao governo do próprio Moro e, ao lado dele, diz que o presidente Lula controla a Polícia Federal para que ela não investigue o filho.
Ou seja: o homem que lucrou com o salário dos próprios assessores, cujo pai mandou embora o ministro que denunciou a interferência na PF, agora abraça esse mesmo ministro e acusa o governo Lula de fazer exatamente o que o pai dele fez. Se isso não é cara de pau, é algo muito além. É um nível de cinismo e desfaçatez que nenhum outro ser humano alcançou antes — e por isso mesmo ainda não existe palavra para designar.
o pt não usar isso aqui em campanha pra atacar o moro toda vez que ele aparece junto com o flavio bolsonaro é esculacho
falta ódio e isso pode custar a eleição pic.twitter.com/swjq8bHeyO
— coltrin (@davicoltrin) September 6, 2026
O reencontro dos cúmplices
O reencontro de Flávio com Moro é uma aula de conveniência política. Em abril de 2020, a demissão do então ministro da Justiça e Segurança Pública pegou a extrema direita de surpresa. Na ocasião, após um ano e quatro meses comandando a pasta, Moro alegou tentativa de interferência política do presidente Jair Bolsonaro na Polícia Federal para proteger seus filhos e aliados de investigações. Durante os quatro anos da gestão de Jair Bolsonaro, pelo menos 20 delegados de cargos de chefia na PF foram trocados ou afastados por divergências políticas ou insatisfação com investigações.
Agora, o mesmo Moro que denunciou a interferência bolsonarista na PF faz coro com o filho do ex-presidente para acusar Lula de interferência. A memória é curta, mas a conveniência é longa. O que era crime quando o pai mandava virou denúncia quando o governo é de esquerda. A PF que protegia os filhos de Bolsonaro era “interferência”; a PF que investiga rachadinha é “perseguição de Lula”.
O vexame está completo: o rachadinha, o ex-juiz que ele mesmo mandou calar e o assessor preso, todos juntos em Ponta Grossa, culpando Lula por um crime que a própria família Bolsonaro cometeu com requintes de cinismo. Não há palavra para isso ainda. Mas há eleição, e o eleitor sabe ler o que está escrito nas entrelinhas dessa farsa.
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