Seu dinheiro mora no Banco Master. Não, leitor, não no sentido figurado — a menos que você seja servidor do Rio, do Amapá ou do Amazonas, ou funcionário da Cedae. Se for, então, sim: parte da sua aposentadoria, parte do seu futuro, mora no Banco Master.
O Rioprevidência aplicou R$ 2,97 bilhões entre 2023 e 2025. O fundo do Amapá, R$ 400 milhões. A Cedae, R$ 200 milhões. O Amazonprev, R$ 50 milhões. Agora some: mais de R$ 3,6 bilhões do dinheiro do trabalhador estacionados num banco que, segundo a proposta de delação de Daniel Vorcaro, cobrava pedágio de quem abria as portas.
Dez por cento. O dízimo.
Segundo o que o banqueiro afirmou — e atenção, é o que ele afirmou, em proposta revelada pelo UOL —, ACM Neto e Antônio Rueda, os dois no comando do União Brasil, recebiam 10% dos valores investidos no Master por institutos de previdência e outras instituições públicas. Os dois teriam aberto as portas: Rioprevidência, Amapá, Amazonas, Cedae. Nos cálculos de Vorcaro, sobre cerca de R$ 2 bilhões em investimentos, a comissão geraria uma obrigação de R$ 200 milhões. Duzentos milhões. Para dois homens.
Como se paga um dízimo desses? Segundo Vorcaro, ACM Neto recebia em dinheiro vivo e por contratos de consultoria com empresas ligadas a ele. Rueda, em espécie e por contratos com o escritório Rueda & Rueda Advogados — que somariam cerca de R$ 3 milhões por mês. Três milhões. Por mês.
E tem mais. No Banco de Brasília, Rueda e o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, teriam pedido que Vorcaro ajudasse num aumento de capital de cerca de R$ 1 bilhão. O grupo de Vorcaro investiu aproximadamente R$ 750 milhões. No mesmo período, o BRB comprou cerca de R$ 6 bilhões em carteiras do Master. E os dois teriam pedido 10% de comissão sobre os valores desembolsados pelo BRB. Sempre 10%. Sempre o dízimo.
O Coaf já tinha visto. Dados bancários e relatórios apontam que escritórios ligados a Rueda receberam R$ 6,4 milhões do Master entre 2022 e 2025. Uma empresa de consultoria de ACM Neto recebeu R$ 5,4 milhões entre 2023 e 2025.
E a delação? Foi rejeitada. Pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República. Motivo: falta de informações inéditas e de garantias para a devolução de valores relacionados às fraudes. O banqueiro tenta retomar as negociações.
Repare na arquitetura. Quando o dinheiro público entra no banco, alguém cobra 10%. Quando o banco compra carteiras, alguém cobra 10%. Quando a delação aparece, ela é rejeitada. Quando o escândalo chega, os acusados chamam as acusações de “absurdas, completamente fantasiosas e mentirosas”. ACM Neto e Rueda negam. Claro. Negam que receberam, negam que abriram portas, negam até que tinham cargos no período. Tudo negado, tudo lícito, tudo “serviços efetivamente prestados”.
E o dízimo? O dízimo, esse, ninguém nega que circula.
Agora, a pergunta que atravessa tudo isso — e que vai muito além de ACM Neto e Rueda: quem é que não cobra 10% neste país? O mesmo banqueiro que, como o Frente Livre já mostrou, financiou a cinebiografia do pai do candidato que disputa a Presidência. O mesmo banco que virou caixa do mundo político. O mesmo sistema em que a delação dos pequenos é rejeitada e a gaveta dos grandes permanece fechada — a 23 dias da eleição.
Não é uma história sobre dois políticos. É uma história sobre o método. O método é sempre o mesmo, mude o nome, mude o partido, mude o palanque. O dinheiro público entra, e o dízimo fica — no banco, na moita, no escritório de advocacia, na conta. E nós, que pagamos a previdência com o suor do trabalho, nós que vamos nos aposentar com o que sobrar, continuamos olhando para os 10% como quem olha para uma fatalidade.
Não é fatalidade. É escolha. E escolha se corrige com olhar atento, com pergunta incômoda, com voto.
Faltam 23 dias. Pergunte ao seu candidato se ele é a favor de investigar o Banco Master até o fim. Pergunte se o dinheiro da sua aposentadoria pode dormir tranquilo. E lembre-se, antes de apertar o botão: o seu voto é o único dinheiro que eles não conseguem comissionar.
Não deixe que o dízimo decida por você.
