André Mendonça construiu um dique. Durante meses, segurou a enxurrada de fatos sobre o Banco Master e o filme do golpe para que uma única pessoa ficasse seca: Flávio Bolsonaro. Represou inquérito, segurou sigilo, desviou o curso da investigação para o colega de toga, envolveu o filho do presidente da República. Fez tudo até o limite da legalidade — e muitos dizem que ultrapassou longe desse limite. O dique trincou.
O que ele represou
A água começou a subir em maio, quando o Intercept Brasil publicou os áudios de Flávio pedindo dinheiro a Daniel Vorcaro para bancar Dark Horse, a cinebiografia do pai. O senador primeiro negou que a relação com Master sequer existisse. Mas não consegui refutar a autenticidade. Testou o argumento de que não havia nada de errado em buscar recursos privados. Recursos privados: R$ 131 milhões pedidos, R$ 61 milhões repassados pelo banqueiro preso.
Mendonça, relator do caso no Supremo, tinha o dique nas mãos. E usou. Abriu o inquérito contra Flávio em 22 de julho — mas o manteve sob sigilo, longe dos olhos do eleitor. Enquanto isso, na outra ponta, revelava partes do inquérito envolvendo Fábio Luís, o filho do presidente Lula, depois mensagens entre Moraes e Vorcaro, afastava o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e transformava a crise do STF no assunto do dia. O filho de Bolsonaro? O dinheiro? Isso ficou na gaveta. A briga de togas virou o noticiário.
O dique segurava. O candidato seguia seco.
As trincas
Mas a água acha o caminho. Em 9 de setembro, Mendonça homologou a delação de Antonio Carlos Freixo Junior, o Mineiro, o doleiro que diz ter feito sete remessas ao fundo Havengate, no Texas — US$ 12,33 milhões — administrado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. No dia seguinte, a PF e a CGU bateram em 49 endereços na Operação Make Up. E o procurador-geral da República, Paulo Gonet, escreveu o que o bolsonarismo não queria ler: Vorcaro obteve “promessa de apoio ou interferências” do senador, três dias antes de ser preso tentando embarcar para Dubai.
A montagem que condena: o plano de negócios enviado ao banqueiro previa que o filme superasse Vingadores: Ultimato e Homem-Aranha — a segunda maior bilheteria da história do Brasil, num “cenário conservador”. O orçamento de US$ 24 milhões (mais de R$ 100 mi) já tinha R$ 68,3 milhões de custos parciais até junho, segundo laudo da própria produtora. E o dinheiro público, esse, escorreu por laranjas: uma cuidadora de idosos que recebe R$ 1.815 por mês e Bolsa Família, sócia de empresa que recebeu R$ 1,07 milhão; um servente de obras com R$ 627 mil; o instituto da produtora repassou R$ 8,55 milhões a uma empresa que movimentou R$ 31,6 milhões em três meses. Mário Frias, o “defensor da família”, destinou R$ 2 milhões em emendas à entidade e guardava sete armas fora do endereço declarado.
A pergunta que importa
A casa vai cair? A candidatura de Flávio Bolsonaro vai resistir? Ou o trabalho de André Mendonça foi todo em vão?
Mendonça ganhou o tempo que pôde. Blindou o candidato até o limite — e além, dizem. Mas o tempo não apaga fato. E os fatos estão na mesa do plenário de 15 de setembro: a delação homologada, o inquérito aberto, o sigilo parcialmente levantado, a promessa de apoio a um banqueiro preso.
O dique trincou. E quando um dique trinca, a água não pergunta se o candidato está pronto para a enchente. Ela vem.
