Você já esteve numa fila do SUS? Não a fila de banco, não a fila de supermercado. A fila do posto, a fila da consulta, a fila de quem espera um exame que pode salvar uma vida. Se você já esteve, sabe que ali não há pressa. Há espera. E a espera, no Brasil, tem endereço, tem classe, tem cor — e tem governo.
Porque a saúde pública não é um número num orçamento. É a resposta que o Estado dá ao corpo de quem não pode pagar. E essa resposta muda de natureza conforme quem está no poder. Não muda só de tamanho. Muda de alma.
Vejamos o que os documentos nos mostram. Um governo cortou 29% dos investimentos em saúde e reduziu a verba para vacinas. Na pandemia — repitam, na pandemia, quando o país inteiro dependia do SUS — cortou 79% da Saúde e até 85% da Educação. Cortou 42% da Saúde e precisou de emendas para cumprir o mínimo constitucional. Proibiu o Mais Médicos de crescer e pôs no lugar, nas palavras escritas em reportagem da revista Piauí, “um ninho de falcatruas” que a CGU depois apontou como irregular. Reduziu o Farmácia Popular a um terço, cortou de fralda geriátrica a remédio de hipertensão e asma. E, no gesto que resume tudo, cortou 59% do Farmácia Popular para garantir o orçamento secreto em 2023.
Reparem nessa frase. Não é um detalhe. É uma confissão. O dinheiro que deveria comprar remédio para o corpo do pobre foi desviado para o balcão de negócios dos que mandam. A saúde virou moeda de troca. O doente virou custo. E o orçamento secreto — esse, sim — virou prioridade.
O mesmo governo teve quatro ministros da Saúde durante a pandemia. Quatro. Um deles, o general Pazuello, admitiu que não sabia o que era o SUS. Enquanto Manaus sufocava sem oxigênio, ele montou força-tarefa para espalhar cloroquina. Preteriu a vacina da Pfizer. Mentiu na CPI sobre a falta de oxigênio. E, no topo, um presidente que atacava a vacinação infantil e espalhava desinformação sobre a morte de crianças. O resultado está nos números que doem: vacinação infantil no pior nível em três décadas, risco de a pólio voltar, uma geração inteira desprotegida. E mais de 700 mil brasileiros mortos por covid. Repito: mais de 700 mil brasileiros mortos por covid porque o governo decidiu não combater o vírus.
Agora, o outro lado da história. O outro governo elevou o orçamento da Saúde de R$ 166 bilhões para R$ 272 bilhões — o maior da história do ministério. Dobrou o Mais Médicos em três anos. Fez 14,7 milhões de cirurgias eletivas em um ano. Recuperou o certificado de erradicação do sarampo, que o país havia perdido. Reduziu em 86% o número de crianças sem nenhuma dose de vacina. Reabriu o Farmácia Popular com 41 medicamentos gratuitos. Ampliou o tratamento do câncer. E, num gesto de soberania, voltou a produzir insulina 100% nacional depois de 20 anos — porque saúde também é indústria, também é autonomia, também é não depender da boa vontade de quem fabrica remédio lá fora.
Não é uma lista. É uma cosmovisão. De um lado, o Estado que enxerga o pobre como despesa a cortar para alimentar o orçamento secreto. Do outro, o Estado que enxerga o pobre como cidadão a quem se deve o direito de viver. A diferença não está no tamanho do número. Está em quem o número serve.
E é aqui que a pergunta se impõe, seca, sem escapatória: por que um governo corta remédio de hipertensão e o outro entrega 789 ambulâncias ao Samu? Por que um deixa a pólio voltar e o outro vacina um milhão de crianças em dois meses? Não é incompetência de um e competência do outro. É escolha. É a resposta à mesma pergunta de sempre: para quem existe o Estado?
A saúde pública é o espelho mais fiel dessa resposta. Porque ela não mente. Não há discurso que esconda uma fila. Não há marketing que apague uma criança sem vacina. Não há palanque que pague o remédio que faltou. O corpo, esse, não negocia. Ele sente. Ele adoece. Ele espera. E ele sabe, na própria pele, qual governo o tratou como gente e qual o tratou como custo.

Faltam dias para a eleição. E o voto é a única vez em que o corpo, que sempre espera, pode escolher quem vai sentar na cadeira que decide se ele espera pouco ou espera muito — se espera com remédio ou espera sem.
Não vote por discurso. Vote pela fila que você conhece. Vote pelo SUS que você viveu. Vote pelo corpo que você carrega — e pelo corpo de quem não tem voz para reclamar, mas tem direito de viver.
Porque saúde não é gasto. É a resposta que damos à pergunta mais antiga e mais justa: quem é gente neste país?
Que a sua escolha, desta vez, esteja do lado de quem enxerga o pobre. Do lado de quem entrega ambulância, vacina e remédio. Do lado de quem, no fim das contas, escolhe o corpo — em vez de escolher o orçamento secreto.
