O Brasil saiu de quatro anos de sabotagem institucional, fome normalizada e propaganda golpista travestida de governo. Por isso, qualquer análise governo Lula que ignore o tamanho do entulho bolsonarista começa errada. O terceiro mandato petista não é uma página em branco: é uma tentativa de reconstruir políticas públicas, recuperar a autoridade democrática e recolocar o povo no Orçamento enquanto enfrenta um Congresso conservador, o rentismo e uma extrema direita que não desistiu de incendiar o país.
A pergunta central não é se Lula fez tudo o que sua base esperava. Não fez, e fingir o contrário seria trocar crítica política por torcida. A questão é entender onde houve avanço concreto, onde o governo cedeu demais e quais forças impedem transformações mais profundas.
O que o governo Lula reconstruiu
A primeira marca do governo foi devolver capacidade de ação ao Estado. Depois de anos em que ministérios foram desmontados, conselhos sociais esvaziados e servidores tratados como inimigos, a máquina pública voltou a reconhecer que tem função social. Isso aparece na retomada de programas de combate à fome, na valorização real do salário mínimo, na reconstrução de políticas culturais, ambientais, educacionais e de saúde, além da reativação de espaços de participação popular.
Não se trata de perfumaria administrativa. Quando o salário mínimo sobe acima da inflação, aposentadorias, benefícios e rendas de milhões de famílias respiram. Quando a política de segurança alimentar volta ao centro, a fome deixa de ser tratada como falha individual de quem não consegue pôr comida na mesa. Quando universidades, institutos federais e a ciência voltam a receber atenção, o país para de vender a fantasia de que desenvolvimento se faz com corte, privatização e palestra motivacional de coach.
Na área ambiental, a mudança também foi nítida. O retorno da fiscalização e da política de combate ao desmatamento interrompeu a lógica de terra arrasada que transformava a Amazônia em balcão de negócios para grileiro, garimpeiro ilegal e latifúndio predatório. Há contradições sérias, especialmente nos impasses sobre exploração de combustíveis fósseis e grandes obras de infraestrutura. Mas é intelectualmente desonesto equiparar uma gestão que recolocou a proteção ambiental na agenda global a um governo que estimulava invasores e desmontava órgãos de controle.
A economia entre o alívio e a coleira fiscal
A economia é o ponto em que a análise do governo Lula exige menos slogan e mais lupa. Houve melhora no emprego, renda recuperada em parcelas importantes da população e retomada de investimentos públicos. O consumo popular ganhou algum fôlego, e a inflação dos alimentos, sempre decisiva para quem vive de salário, voltou ao centro do debate político. Nada disso é pequeno em um país onde o preço do arroz pode definir o humor de uma família inteira.
Mas o governo escolheu operar dentro de uma moldura fiscal muito estreita. O chamado arcabouço fiscal substituiu o teto de gastos de Michel Temer, uma peça de austeridade cruel e socialmente irracional. Ainda assim, preservou a ideia de que o gasto público deve caminhar permanentemente sob vigilância, enquanto os privilégios tributários de grandes fortunas, bancos e setores empresariais seguem protegidos por uma muralha de lobby.
O problema não é apenas técnico. Austeridade tem lado de classe. Quando a regra fiscal aperta, a pressão recai sobre saúde, educação, moradia, infraestrutura e serviços que atendem quem depende do Estado. Já o mercado financeiro continua a ser ouvido como se fosse uma entidade da natureza, e não um setor econômico com interesses próprios. A Faria Lima não foi eleita, mas frequentemente fala como se tivesse direito a veto sobre o voto popular.
A reforma tributária foi uma conquista importante por simplificar impostos sobre consumo e abrir caminho para corrigir distorções. Porém, justiça tributária de verdade exige mais: taxar lucros e dividendos de forma consistente, enfrentar heranças milionárias, rever subsídios sem retorno social e reduzir o peso dos impostos indiretos sobre os mais pobres. O governo avançou em debates antes interditados, mas ainda está longe de mexer na estrutura que faz a trabalhadora pagar proporcionalmente mais tributo que o herdeiro.
O Congresso não é detalhe: é parte do problema
Quem cobra do Planalto uma revolução por decreto precisa olhar para o prédio ao lado. O Congresso Nacional atual é majoritariamente conservador, fisiológico e influenciado por bancadas empresariais, ruralistas, religiosas e armamentistas. O orçamento secreto recebeu novos nomes e arranjos, mas a chantagem parlamentar não desapareceu. Ela apenas se profissionalizou.
O presidencialismo de coalizão, em sua versão mais degradada, obriga o Executivo a negociar recursos e cargos para aprovar até medidas básicas. Não há glamour nisso. Há uma correlação de forças brutal, agravada pelo poder das emendas parlamentares. Cada recuo do governo precisa ser analisado com esse cenário em mente, mas contexto não pode virar desculpa automática. Ceder para governar é uma coisa; naturalizar a captura do orçamento público por interesses locais e eleitorais é outra.
O caso das pautas de costumes mostra a dimensão do confronto. A extrema direita e setores conservadores usam ataques aos direitos das mulheres, da população LGBTQIA+, dos povos indígenas e das periferias como combustível de mobilização. Muitas vezes, apresentam crueldade como defesa da família. É uma velha fraude: chamam de liberdade o direito de explorar, de moral o desejo de controlar corpos e de mérito o privilégio herdado.
Nesse terreno, o governo Lula precisa combinar articulação institucional com mobilização social. Não basta ganhar votação apertada em Brasília enquanto a mentira corre solta em grupos de WhatsApp e púlpitos convertidos em palanque. A disputa cultural não é acessório da política pública. Ela decide quem consegue explicar para a população por que creche, vacina, salário, moradia e imposto progressivo são direitos, não favores.
Segurança pública: o nó que a esquerda não pode terceirizar
A segurança pública continua sendo um dos desafios mais difíceis do governo e da esquerda brasileira. A direita vende soluções de cinema: mais armas, mais encarceramento e polícia sem controle. O resultado real dessa receita é conhecido: jovens negros mortos, facções fortalecidas dentro de presídios e comunidades tratadas como território inimigo.
O governo federal tem limites constitucionais, já que polícias militares e civis são comandadas pelos estados. Ainda assim, não pode usar esse fato como biombo. É necessário induzir uma política nacional que una inteligência, controle de armas, investigação financeira das organizações criminosas, combate à lavagem de dinheiro e proteção dos territórios populares. Segurança não pode significar licença para matar, mas tampouco pode se resumir a uma boa intenção sem presença estatal.
A população trabalhadora quer voltar para casa sem medo, quer ônibus seguro, escola funcionando, emprego e Estado presente. Quem entrega esses direitos enfraquece o poder do crime mais do que qualquer discurso de bravata. Esse é um campo em que o governo ainda precisa falar mais diretamente, com clareza e resultados perceptíveis.
Política externa e soberania: o Brasil voltou a falar
Na política externa, Lula recolocou o Brasil como ator relevante. O país voltou a defender diálogo, cooperação regional, combate à fome, ação climática e uma ordem internacional menos subordinada aos interesses das potências do Norte Global. Isso incomoda quem sonhava com um Brasil ajoelhado, batendo continência para Washington e tratando diplomacia como postagem ideológica de rede social.
A postura de mediação em guerras e crises internacionais, porém, traz riscos. Defender paz não pode significar relativizar invasões, massacres ou violações de direitos humanos, seja qual for o agressor. Uma diplomacia soberana precisa ser independente, não ambígua por conveniência. O mérito do governo está em recusar alinhamentos automáticos; o desafio é manter coerência humanitária quando os interesses geopolíticos apertam.
O saldo depende da pressão popular
O governo Lula devolveu dignidade a áreas que haviam sido atacadas e paralisadas. Recuperou programas, reabriu canais democráticos, conteve parte da devastação ambiental e recolocou a fome, o emprego e a renda na agenda estatal. Só que reconstruir não basta para um país atravessado por desigualdade racial, concentração de riqueza, violência patriarcal e poder econômico sem freio.
A esquerda não deve entregar um cheque em branco ao governo, muito menos repetir a pose cínica de quem trata qualquer conquista social como irrelevante. A crítica consequente reconhece o avanço e exige mais. Exige que a riqueza circule, que o orçamento sirva ao povo, que a democracia não se limite ao calendário eleitoral e que a extrema direita seja derrotada também no cotidiano.
O melhor caminho para empurrar o governo à esquerda não é alimentar o desalento, mas organizar pressão: no sindicato, na escola, no bairro, nos movimentos e nas redes. Lula governa sob cerco. A resposta popular precisa ser apoio quando há avanço, cobrança quando há recuo e nenhuma paciência para quem acha que o Brasil deve voltar a ser laboratório de ódio e privilégio.
