Quem vive de bico sabe que a conversa sobre “empreendedorismo” costuma esconder uma conta cruel: trabalha-se mais, ganha-se menos e quase nunca há proteção quando a doença, a chuva ou a falta de demanda chegam. A economia solidária brasileira entra justamente nessa fresta aberta pela precarização. Ela propõe trabalho coletivo, divisão mais justa dos resultados e decisões tomadas por quem produz – não por um aplicativo, um fundo de investimento ou um patrão distante.
Não se trata de pintar cooperativas como solução mágica para um país que convive com desemprego, juros extorsivos e concentração de renda. Trata-se de reconhecer que há, em feiras, associações, grupos de reciclagem, empreendimentos da agricultura familiar e redes de produção, uma disputa concreta por outro jeito de organizar a economia. E essa disputa incomoda quem lucra com trabalhador isolado, endividado e sem poder de negociação.
O que muda na economia solidária brasileira
Na economia convencional, a regra é conhecida: poucos mandam, muitos executam e o excedente sobe para o topo. Na economia solidária, os participantes compartilham a propriedade ou a gestão do empreendimento, definem coletivamente regras e repartem os resultados conforme critérios construídos pelo grupo. O objetivo não é abolir toda circulação de dinheiro por decreto, mas impedir que o trabalho de muita gente vire fortuna privada de meia dúzia.
Isso pode acontecer em uma cooperativa de catadores, em uma fábrica recuperada por trabalhadores, em uma associação de costureiras, em um banco comunitário ou em uma rede de agricultores que comercializa sem atravessador. As experiências são diversas e têm graus diferentes de autonomia. Nem toda cooperativa registrada no papel é solidária na prática: há muita falsa cooperativa criada para cortar direitos e terceirizar responsabilidade. Se há chefe mandando sozinho, retirada miserável e trabalhador sem voz, o nome bonito não muda a exploração.
A diferença central está no controle. Quem decide sobre preço, jornada, investimentos e distribuição da renda? Quem fica com os ganhos quando o negócio cresce? Essas perguntas separam uma iniciativa de autogestão de uma empresa comum fantasiada de cooperação.
Uma resposta popular à precarização
O avanço do trabalho por plataforma vende autonomia enquanto aperta a coleira pelo algoritmo. O entregador escolhe, em tese, quando se conectar, mas não escolhe a taxa, a rota, a punição automática ou o bloqueio sem explicação. O motorista arca com combustível, manutenção e risco. A empresa, convenientemente, aparece como mera intermediária, embora controle o jogo inteiro.
A economia solidária não resolve sozinha esse problema, porque uma cooperativa de plataforma também precisa de tecnologia, escala, clientes e capital. Mas ela desloca a pergunta: por que a infraestrutura digital que organiza o trabalho não pode pertencer aos próprios trabalhadores? Não é uma ideia romântica. É uma questão de poder econômico.
Há também um efeito territorial. Quando uma comunidade organiza produção, crédito e comercialização localmente, uma parte maior da riqueza circula no bairro, no município e na região. Em vez de cada compra alimentar uma sede corporativa do outro lado do país ou do mundo, ela pode sustentar renda próxima de quem consome. Isso vale especialmente para alimentação, reciclagem, artesanato, cuidados, cultura e serviços de pequena escala.
O mercado, porém, não vira bonzinho porque a iniciativa é coletiva. Empreendimentos solidários enfrentam concorrência predatória, aluguel caro, falta de máquinas, burocracia e consumidores com orçamento apertado. A boa intenção não paga conta de luz. Por isso, reduzir a economia solidária a histórias inspiradoras de superação individual é uma forma elegante de abandonar essas pessoas à própria sorte.
Sem Estado, a solidariedade paga juros
A direita adora invocar a liberdade de mercado, mas corre para o Estado quando bancos precisam de socorro, grandes empresas querem renúncia fiscal ou o agronegócio cobra crédito subsidiado. Já para cooperativas populares, a receita costuma ser palestra motivacional e um formulário impossível de preencher. É a velha dupla medida: subsídio para os de cima, empreendedorismo de sobrevivência para os de baixo.
A economia solidária precisa de política pública continuada. Crédito orientado e barato, assistência técnica, formação em gestão democrática, espaços de comercialização, incubadoras ligadas a universidades e regras de compras públicas são instrumentos decisivos. Uma escola, um hospital ou uma repartição que compra alimentos da agricultura familiar e de cooperativas locais não está fazendo caridade. Está usando o poder de compra do Estado para gerar emprego, segurança alimentar e desenvolvimento menos concentrado.
As compras públicas têm uma força que o discurso liberal finge não enxergar: elas criam demanda previsível. Para um pequeno grupo produtivo, saber que haverá contrato para fornecer merenda ou itens de limpeza pode permitir planejamento, investimento e estabilidade. Sem isso, o empreendimento fica refém da oscilação de feiras e do consumo eventual.
Também é indispensável enfrentar a financeirização. Pequenos produtores não podem continuar pagando juros que devoram sua margem enquanto grandes grupos recebem crédito em condições privilegiadas. Bancos comunitários, fundos rotativos e moedas sociais podem ajudar a manter recursos circulando no território, desde que tenham apoio técnico e regulação adequada. Não substituem o sistema financeiro público, mas mostram que dinheiro pode servir à comunidade, não apenas à especulação.
Autogestão dá trabalho – e é justamente esse o ponto
Decidir coletivamente é mais lento do que receber uma ordem. Há conflitos sobre retirada, divisão de tarefas, entrada de novos integrantes e prioridades de investimento. Em grupos marcados por desigualdades de gênero, raça e escolaridade, a democracia interna pode reproduzir silenciamentos se não houver método e formação. A economia solidária não nasce imune aos problemas da sociedade brasileira.
Mas esse é um argumento para qualificá-la, não para descartá-la. A empresa tradicional também tem conflitos, só que os resolve de cima para baixo e chama isso de eficiência. Na autogestão, o conflito aparece porque as pessoas têm direito de falar. Assembleias bem organizadas, transparência nas contas, rodízio de funções e regras claras não são burocracia inútil: são a infraestrutura política da igualdade.
Há outro limite que precisa ser dito sem enfeite. Cooperativas não devem servir como desculpa para o Estado se retirar de suas obrigações trabalhistas e sociais. Um trabalhador organizado coletivamente continua precisando de saúde pública, previdência, transporte, creche e proteção contra acidentes. Solidariedade não pode virar álibi para precariedade com selo progressista.
O que está em disputa
Defender a economia solidária brasileira é defender uma economia em que trabalho não seja sinônimo de humilhação e sobrevivência. É contestar a mentira de que só existem duas opções: submeter-se à carteira de pedidos de uma gigante digital ou abrir um CNPJ e carregar sozinho todos os riscos.
Não há fórmula única. Em alguns setores, cooperativas terão mais fôlego; em outros, sindicatos fortes, emprego formal e regulação pública serão a prioridade. O ponto é não aceitar que a concentração de riqueza seja uma lei da natureza. Ela é resultado de escolhas políticas, tributárias e institucionais – e pode ser enfrentada por outras escolhas.
Quando trabalhadores passam a decidir sobre o que produzem, como vendem e para onde vai a renda, a economia deixa de ser assunto exclusivo de banqueiro, CEO e colunista de mercado. Vira o que sempre deveria ter sido: uma ferramenta para sustentar vidas dignas. E isso, num país viciado em privilegiar os de sempre, já é uma pequena revolução cotidiana.
