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Como a bancada evangélica atua no Congresso
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Como a bancada evangélica atua no Congresso

Quando uma pauta sobre aborto, educação sexual, direitos LGBTQIA+ ou laicidade do Estado entra em cena, uma pergunta volta ao centro do debate: como a bancada evangélica atua? A resposta não cabe na caricatura de um grupo que apenas cita versículos no plenário. Trata-se de uma força organizada, com capilaridade eleitoral, acesso a meios de comunicação, presença em partidos distintos e disposição para transformar conservadorismo moral em poder institucional.

A chamada bancada evangélica não manda sozinha no Congresso, mas sabe jogar o jogo. E joga pesado. Sua força aparece menos em discursos inflamados para a câmera e mais na ocupação de comissões, na pressão sobre lideranças partidárias, nas negociações de governo e na capacidade de pautar a conversa pública fora de Brasília.

Não é um partido, mas funciona como força política

A bancada evangélica é formada, em grande parte, por deputados e senadores ligados a igrejas pentecostais e neopentecostais, além de parlamentares que assumem uma identidade cristã conservadora. Ela se articula institucionalmente na Frente Parlamentar Evangélica, mas seu alcance vai além da frente formal. Há parlamentares religiosos em siglas de direita, centro-direita e até em partidos que, no papel, adotam outra linha.

Isso ajuda a explicar por que ela sobrevive a mudanças de governo e de composição partidária. Não depende de uma única legenda. Depende de redes religiosas, lideranças com influência local, canais de TV, rádios, perfis digitais, templos e uma relação contínua com parcelas do eleitorado.

Mas há uma distinção que a direita costuma apagar de propósito: evangélicos não são um bloco homogêneo. Milhões de fiéis são trabalhadores, mulheres negras, moradores de periferia, pessoas que dependem do SUS, da escola pública e de políticas de renda. Muitos não apoiam a extrema direita nem compram o pacote moralista vendido por pastores-políticos. A bancada fala em nome da fé, mas representa interesses políticos muito específicos dentro desse universo diverso.

Como a bancada evangélica atua na prática

No Congresso, poder não é apenas ganhar votações no plenário. Muitas vezes, é definir o que será votado, quando será votado e em qual comissão um projeto vai parar. É nesse terreno que a bancada evangélica costuma atuar com eficiência.

A primeira frente é a ocupação de espaços estratégicos. Comissões de Constituição e Justiça, Educação, Direitos Humanos, Segurança Pública e Comunicação podem decidir o destino de propostas antes que elas cheguem ao plenário. Um projeto pode ser acelerado, desidratado, receber emendas ou simplesmente ficar esquecido em uma gaveta institucional. Quem controla a relatoria e a presidência de uma comissão controla boa parte do debate.

A segunda é a formação de alianças. A bancada evangélica frequentemente atua em sintonia com ruralistas, bolsonaristas, setores da segurança pública e partidos do chamado centrão. Essa engrenagem é conhecida como aliança entre Bíblia, boi e bala, ainda que suas fronteiras variem conforme a votação. O ponto comum é uma agenda de costumes conservadora, punitivismo penal, resistência a direitos territoriais e, muitas vezes, apoio a interesses econômicos que prejudicam trabalhadores.

A terceira é a pressão pública. Parlamentares transformam projetos de lei em campanhas morais, muitas vezes usando termos distorcidos para gerar medo. Educação sexual vira doutrinação. Debate sobre gênero vira ameaça à família. Garantias legais de atendimento a vítimas de violência sexual viram uma suposta defesa do crime. O objetivo é fabricar pânico, mobilizar bases religiosas e constranger adversários que temem parecer hostis à fé.

A disputa não é religiosa: é sobre direitos e poder

O discurso da bancada costuma apresentar suas propostas como defesa da família e da liberdade religiosa. Só que a pergunta decisiva é: de qual família, de qual liberdade e à custa de quem?

Quando setores desse grupo atacam políticas de educação sexual, por exemplo, o resultado pode ser menos informação para adolescentes, mais desproteção contra abuso e mais dificuldade para prevenir gravidez não planejada. Quando tentam restringir até as hipóteses já previstas em lei para interrupção da gravidez, colocam meninas e mulheres, especialmente as mais pobres, sob vigilância e sofrimento ainda maiores.

Também há impacto sobre pessoas LGBTQIA+. Projetos e discursos que tratam diversidade como ameaça alimentam discriminação em escolas, serviços públicos e locais de trabalho. A retórica pode parecer abstrata no plenário, mas chega à vida concreta de quem é expulso de casa, sofre violência ou encontra portas fechadas por ser quem é.

A laicidade do Estado entra justamente aí. Estado laico não é Estado inimigo da religião. É um Estado que não pode impor a doutrina de uma crença sobre toda a população. Católicos, evangélicos, religiões de matriz africana, espíritas, judeus, muçulmanos, indígenas e pessoas sem religião devem ter os mesmos direitos. Quando um parlamentar usa a máquina pública para privilegiar sua leitura religiosa, não está defendendo liberdade: está tentando estabelecer hierarquia.

Conservadorismo nos costumes, pragmatismo no orçamento

Seria um erro imaginar que a atuação da bancada se resume a temas morais. Em muitas votações econômicas, parlamentares ligados a esse campo apoiam agendas de austeridade, privatização, precarização do trabalho e redução de proteções sociais. A contradição salta aos olhos: discursam sobre família, mas votam medidas que apertam a vida de famílias trabalhadoras.

Isso não significa que todos votem igual em tudo. Há diferenças regionais, disputas entre igrejas, cálculos eleitorais e interesses partidários. Em pautas sociais, alguns parlamentares podem aderir a programas de transferência de renda ou políticas locais populares. Só que, na correlação de forças nacional, a liderança mais visível da bancada tende a se alinhar a projetos conservadores e à direita econômica.

É por isso que a análise precisa fugir de dois atalhos. O primeiro é tratar qualquer pessoa evangélica como bolsonarista, o que é falso e politicamente burro. O segundo é fingir que a extrema direita não construiu uma base religiosa organizada para avançar sobre instituições. Uma coisa é respeitar a fé popular. Outra, bem diferente, é aceitar que ela seja usada como cabo eleitoral para retirar direitos.

O bolsonarismo e a instrumentalização da fé

O bolsonarismo entendeu cedo que igrejas poderiam funcionar como plataformas de mobilização permanente. A mistura de culto, vídeo viral, desinformação e guerra cultural criou uma máquina poderosa, sobretudo em períodos eleitorais. Líderes religiosos aliados ao bolsonarismo passaram a vender candidatos como escolhidos, perseguir adversários como inimigos da fé e tratar políticas públicas como se fossem uma batalha entre bem e mal.

Essa estratégia é perigosa porque desloca o debate da realidade. Em vez de discutir salário, fome, transporte, saúde e moradia, uma parte da política passa a girar em torno de fantasmas inventados. Enquanto o eleitor é convocado a temer uma ameaça moral fabricada, os interesses dos de sempre seguem protegidos.

A bancada evangélica não criou sozinha esse mecanismo, nem todo integrante dela aderiu ao bolsonarismo de forma automática. Mas setores centrais ajudaram a normalizar esse tipo de operação. E continuam tentando manter viva uma política baseada em ressentimento, medo e autoridade religiosa convertida em moeda parlamentar.

Como acompanhar sem cair na armadilha da desinformação

Para entender o peso real da bancada, vale observar menos os vídeos de indignação performática e mais os movimentos concretos. Quem apresenta o projeto? Quem relata? Em qual comissão ele tramita? Quais partidos fecham acordo? Que direitos podem ser reduzidos? E, principalmente, quem ganha com a pauta?

Também é preciso separar a defesa legítima da liberdade religiosa da blindagem a políticos que usam Deus como slogan. Fé não dá salvo-conduto para racismo, misoginia, LGBTfobia, ataque à democracia ou ataque ao Estado social. Um mandato deve ser cobrado pelo que vota, pelos recursos que destina e pelas alianças que constrói, não pelo púlpito que frequenta.

A resposta progressista mais inteligente não é desprezar os evangélicos, mas disputar esse campo com respeito e firmeza. Defender emprego, comida no prato, creche, moradia, segurança sem violência policial e liberdade de crença também é falar com uma enorme parcela da população evangélica. A extrema direita não tem procuração sobre a fé de ninguém – e o Congresso não pode ser entregue a quem confunde religião com licença para mandar na vida alheia.


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