No xadrez das potências, até um armistício comercial pode abrir janelas para quem costuma ser apenas espectador. Neste fim de semana, Estados Unidos e China as duas maiores economias do planeta anunciaram uma trégua na guerra tarifária que travavam havia anos. O acordo, costurado em Genebra, estabelece a redução de tarifas mútuas por 90 dias e, por ora, devolve alguma previsibilidade aos mercados.
Mas no tabuleiro da geopolítica, os movimentos nunca são apenas bilaterais. Essa pausa na hostilidade sino-americana tem repercussões diretas para países em desenvolvimento e o Brasil é um dos que mais têm a ganhar, se souber agir com estratégia e autonomia.
A começar pelo que já é visível no curto prazo: os frigoríficos brasileiros comemoram. Estimulados pelas incertezas no abastecimento americano e chinês, os compradores internacionais correram para estocar carne nacional. Resultado: os preços da proteína brasileira subiram cerca de 20% desde abril, e o Brasil consolida sua posição como fornecedor confiável não apenas de carne, mas de alimentos em geral.
Enquanto isso, em Beijing, o presidente Lula é recebido por Xi Jinping ao lado de líderes da América Latina e do Caribe. O gesto é mais do que diplomático: é estratégico. A China busca consolidar uma aliança comercial e geopolítica na região, mirando a instabilidade norte-americana e o vácuo deixado por Donald Trump, mais interessado em presentear jatos à Arábia Saudita do que em preservar pontes econômicas no hemisfério sul.
Essa aliança, no entanto, traz desafios. Países vizinhos pressionam o Brasil a conter a enxurrada de produtos chineses que, barrados pelos EUA, buscam novos destinos na América Latina. O governo brasileiro respondeu com aumento de tarifas sobre aço, ferro e cabos de fibra ótica, sinalizando que não aceitará virar “mercado de sobra” num mundo em reorganização.
E faz bem. Porque neste momento de redefinições globais, o Brasil precisa mais do que nunca combinar soberania, diplomacia ativa e inteligência comercial. A guerra tarifária expôs as fragilidades da hiperdependência dos grandes blocos. O Brasil pode e deve se posicionar como ator equilibrado, com autonomia de decisão, vocação para liderança regional e compromisso com a integração produtiva.
Temos tamanho continental, base industrial, biodiversidade estratégica e capacidade diplomática para mais. O que não temos é tempo a perder com aventuras ideológicas ou submissão a qualquer hegemonia.
A trégua entre EUA e China é temporária. Mas a chance do Brasil de deixar de ser refém e virar protagonista é histórica. Basta saber jogar.
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