Celina, cadê o dinheiro do BRB? A pergunta que virou crime

Do DF Legal ao homem armado, Estado inteiro atrás de uma faixa de pergunta

Por Frente Livre
dinheiro do BRB
Faixa pendurada nos viadutos da cidade: governadora não responde à simples pergunta, mas bota a polícia em cima de quem a produziu. Foto: Entre Nós Comunicação

Uma faixa de 12 metros, sem número de candidato, sem sigla de partido, estendida sobre viadutos e passarelas de Brasília, com uma pergunta de rara pertinência política, “Celina Leão, cadê o dinheiro do BRB?”, recebeu do Palácio do Buriti o único tratamento que a governadora parece conhecer para perguntas incômodas: não a resposta, que seria o procedimento republicano, mas a maquinaria do Estado em marcha, da Polícia Civil ao DF Legal, com direito a PM e a um sujeito armado de camiseta azul da candidata no caminho.

Os fatos, como convém a um caso com essa cara, são exatos e estão documentados. Na quarta-feira 30 de setembro, o grupo começou a instalar as faixas em viadutos e passarelas da capital. Na quinta 1º de outubro, enquanto a manifestação estendia novamente a faixa na plataforma superior da Rodoviária do Plano Piloto, agentes do DF Legal recolheram o tecido de 12 metros. Na sexta 2, nova interpelação, agora com DF Legal e policiais militares. E, entre uma apreensão e outra, chegou o documento que promete ser o mais eloquente do episódio: a intimação.

O “envolvido” que não sabia do quê

Saulo Dias Kalunga, filiado ao Partido dos Trabalhadores mas com uma faixa que não ostentava sigla, número ou qualquer peça de campanha, recebeu da 38ª Delegacia de Polícia a convocação para uma oitiva na condição de “envolvido” na ocorrência policial. A intimação, emitida na quinta, determinava comparecimento à delegacia nesta sexta. Eis o detalhe que deveria envergonhar um Estado de direito: o documento não especifica qual fato está sendo apurado, não faz referência às faixas, não menciona o BRB e não menciona a governadora. Intima-se um cidadão como “envolvido” em algo que o próprio documento se recusa a nomear, enquanto o que ele fez, publicamente, foi instalar um questionamento escrito de 12 metros sobre o destino de dinheiro público.

A pergunta, aliás, é tão simples que parece ter sido formulada para ser respondida em uma linha, e não para mobilizar delegacias.

“Estamos exercendo nosso direito de manifestação e fazendo uma pergunta simples: Celina, onde está o dinheiro do BRB? Diante de ações repetidas contra a nossa manifestação, fica a pergunta: por que tanto esforço para impedir que essa cobrança seja feita?”, disse Kalunga ao Brasil de Fato.

E arrematou com a síntese que o Palácio do Buriti não consegue rebater: “A Celina Leão, ao invés de responder à pergunta que está na nossa faixa, ‘cadê o dinheiro do BRB?’, ela pega, usa a mão do Estado, a polícia, para poder tentar nos intimidar”.

Camiseta azul e mão na cintura

O segundo capítulo do cerco é mais grave, porque desce da intimação formal para a ameaça física. Um participante da ação, que pediu anonimato, relatou a abordagem desta sexta no Varjão. O grupo esticou a faixa por volta das 6h30 e se preparava para retirá-la quando dois homens subiram a passarela atrás deles. Um rapaz com a camiseta azul da campanha de Celina Leão perguntou se a faixa era deles e decretou: não podia, era ilegal. Questionado sobre a ilegalidade, o interlocutor não apresentou lei, apresentou postura: um dos homens levantou a camiseta e ficou com a mão na cintura, onde se adivinha uma arma, “ameaçando a gente, intimidando, pisou e tentou tomar a faixa”, nas palavras do manifestante.

Repare o leitor na coreografia completa: em uma semana, o Estado do DF produziu uma intimação da Polícia Civil sem fato especificado, duas ações de apreensão do DF Legal, uma interpelação com PM e, no fim da cadeia, um cidadão armado de camiseta da candidata à reeleição decidindo, no Varjão, o que é ou não ilegal. Tudo isso para impedir que alguém pergunte, em público, onde está o dinheiro de um banco público. A menos que a “irregularidade na instalação” tenha ganho força de lei penal e administrativa simultânea, o que se vê é o aparelhamento da repressão contra uma pergunta.

 

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O recibo de R$ 8,8 bilhões

A pergunta proibida, como sempre, tem lastro. O BRB não publica demonstrações financeiras desde setembro de 2025. Em março, na véspera do vencimento do prazo legal, o banco informou que o balanço de 2025 seria postergado por causa da auditoria forense relacionada à Operação Compliance Zero, que apura fraudes no Banco Master, o mesmo banco cuja compra de 58% do capital, aprovada pelo conselho do BRB em março de 2025 por valor estimado em R$ 2 bilhões, o Banco Central barrou em setembro do ano passado. O prejuízo das operações com o Master, que os acionistas minoritários vêm cobrando em valores bilionários, já obrigou a um plano de socorro de até R$ 6,5 bilhões, homologado pelo ministro Luiz Fux em maio, e o Tribunal de Contas do DF está com a análise das contas de 2025 travada por falta do balanço auditado.

No debate da TV Globo de terça-feira 29, o candidato Leandro Grass lembrou a transferência de R$ 120 milhões do Fundo de Saúde do Distrito Federal para uma conta no BRB, dinheiro que tinha outra destinação e outra urgência, esvaziado para tapar o rombo de um banco que já não dá satisfação. O Jornal Opção registrou, no dia seguinte, a acusação de Kiko Caputo: “Celina já confessou o crime”. E a governadora, que segundo o fundador do Master participou da negociação da compra, embora ela jure que sempre foi contra — o que é mentira –, tem hoje uma conduta inconfundível com a de quem tem algo a explicar: silêncio sobre o dinheiro, barulho de sirene contra quem pergunta.

A Polícia Civil, procurada, respondeu com o protocolo de sempre: não fornece informações antecipadas sobre procedimentos em apuração, o sigilo preserva as diligências. Traduzindo: a 38ª DP pode intimar um cidadão por uma ocorrência que o próprio documento não descreve, mas não pode explicar ao país o que, exatamente, é o crime de perguntar onde foram parar os R$ 8,8 bilhões de crise.

 

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Quem quebrou o banco

Há uma pergunta que a governadora não intimida, porque ela a ouviu de um presidente da República: no dia 17 de setembro, em Brasília, Lula disse que quem quebrou o BRB foi Ibaneis. O diagnóstico presidencial não isenta ninguém do Palácio do Buriti atual, ao contrário, o acossa: governa-se há anos o mesmo banco, o mesmo caixa, o mesmo grupo político; a crise é de gestão, e a gestão tem nome, sobrenome e projeto de reeleição.

Kalunga intima o Palácio do Buriti a fazer o que a Polícia Civil, o DF Legal e o homem armado do Varjão não conseguem: “Ao invés de usar o Estado para tentar nos intimidar, para nos combater, é só responder onde está o dinheiro do BRB, Celina. O dinheiro é do povo de Brasília”.

O DF tem, portanto, uma escolha elementar. Pode responder a pergunta, publicar o balanço, abrir a auditoria e devolver o dinheiro do Fundo de Saúde à saúde. Ou pode seguir intimando, apreendendo e ameaçando até que a única faixa restante seja a da candidatura da governadora. Há um nome para o segundo caminho, e a história de Brasília já o conhece de outras épocas. A pergunta de 12 metros, esta semana, foi silenciada pela mão do Estado. O problema é que ela só cresce quando calada.

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