O governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), sancionou nesta terça-feira (21) a Lei 7.754/2025, que institui o “Dia da Memória das Vítimas do Comunismo” no calendário oficial do DF. A data será “celebrada” em 4 de junho, em referência ao massacre da Praça da Paz Celestial, ocorrido na China em 1989. Acadêmicos criticam a medida que passa a valer em 2026 e afirmam que ela tem caráter ideológico e desvia o foco das demandas reais da população.
A sanção motivou reações contundentes. Para o professor Jacques de Novion, do Departamento de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Brasília (UnB), a iniciativa tem pouco a ver com memória histórica e muito com uso político. “Essa é uma prática política de grupos oportunistas, que tentam criar uma alucinação ideológica para não discutirmos os verdadeiros problemas da cidade”, pontua.
Na visão do professor, a proposta serve para desviar a atenção da população do Distrito Federal de problemas cotidianos urgentes, como transporte, saúde e educação. “Estamos vendo o sucateamento do metrô, que está sendo preparado para a privatização, assim como já foi feito com a rodoviária. A cidade está passando por um processo de privatização dos espaços públicos e deterioração dos serviços essenciais”, destacou.
Jacques também apontou o descaso do governo com áreas sensíveis. “A recusa do governador em aceitar novas ambulâncias para o SUS mostra claramente que eles têm aversão à saúde pública. Eles têm nojo de professores da rede pública e tentam militarizar tudo, como se vê com as escolas cívico-militares, que já foram condenadas por organismos internacionais”, afirmou.
A crítica se estende ao campo político. Para o professor da UnB, tanto o autor do projeto quanto o governador pertencem ao mesmo grupo ideológico que participou da tentativa de golpe no país. “Esse espectro político teve participação ativa nos eventos que culminaram no 8 de janeiro, e tudo isso precisa ser lido dentro de um contexto muito maior de ataque às instituições democráticas”, alertou.
Apagamento histórico
A escolha da data também foi questionada. “Gostaria de saber quem são as vítimas do comunismo no Distrito Federal. Foram os que acamparam em frente a quartéis? Os que tentaram colocar uma bomba no aeroporto? Os que destruíram a sede dos Três Poderes? Porque, para mim, as vítimas reais foram Onestino Guimarães, Paulo de Tarso, os professores demitidos da UnB, o radialista Mário Eugênio, entre tantos outros que sofreram com a ditadura militar”, afirmou o docente.
Para ele, a criação da data reforça uma lógica de apagamento de memórias legítimas. “Em vez de um dia para vítimas de nada, por que não criamos um dia para lembrar os 700 mil mortos da pandemia de Covid-19? Ou um museu para homenagear os povos indígenas dizimados, os africanos escravizados ou as vítimas de feminicídio, que é uma realidade alarmante em Brasília?”, questionou.
Segundo Jacques Novion, “não se criam esses dias nem se constroem museus porque isso confrontaria a estrutura de uma sociedade que continua sendo machista, racista e classista”. Para ele, a sanção da lei revela prioridades políticas distantes das necessidades reais da população.
Data passa a valer em 2026
O projeto, de autoria do deputado distrital Thiago Manzoni (PL), foi aprovado com 16 votos favoráveis e 5 contrários na Câmara Legislativa do DF. Segundo o parlamentar, o objetivo da nova data é “gerar reflexão na sociedade do Distrito Federal por todas as mortes causadas por regimes baseados nessa ideologia, de modo que, de nenhuma maneira, o Brasil seja alcançado por esse mal”.
A justificativa menciona episódios como o Holodomor na Ucrânia soviética, os crimes do regime de Stálin e o genocídio promovido pelo Khmer Vermelho no Camboja.
Fonte: Brasil de Fato






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