Membros da família Bolsonaro têm atuado junto ao governo dos EUA para que organizações criminosas brasileiras como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) sejam designadas como grupos terroristas. A articulação, que ocorre há meses, envolve reuniões entre Flávio Bolsonaro e emissários da Casa Branca, assim como coordenação com governadores de direita, incluindo Cláudio Castro, do Rio de Janeiro.
Em 5 de maio de 2025, Flávio Bolsonaro se reuniu com Ricardo Pita, assessor do Escritório de Assuntos do Hemisfério Ocidental da Casa Branca, integrado a uma comitiva liderada por David Gamble, coordenador de sanções da administração Trump. Segundo Flávio contou à CNN, ele entregou um “dossiê” a Pita, elaborado pela Secretaria de Segurança Pública do Rio a seu pedido. No mesmo dia, Eduardo Bolsonaro afirmou à CNN que havia sugerido, em reunião na Casa Branca, que o PCC e o CV fossem considerados organizações terroristas. “A sugestão foi muito bem recebida por membros da Casa Branca”, declarou.
A campanha pela designação
Três dias após a reunião com Ricardo Pita, o secretário de Estado de Segurança Pública do Rio, Victor Santos, anunciou que o dossiê seria “oficialmente” entregue a autoridades norte-americanas pelo governador Cláudio Castro. Segundo relatório obtido pelo jornal O Globo, a análise estratégica do governo fluminense argumenta que o Comando Vermelho atende aos critérios norte-americanos para designação como organização terrorista por sua “crescente sofisticação, transnacionalidade e brutalidade”.
O dossiê aponta que a designação facilitaria extradições de líderes do CV refugiados em países como Paraguai e ampliaria parcerias com Interpol, DEA e FBI. Victor Santos declarou à época: “Temos narcoterroristas no Rio”, listando a utilização de civis como “escudos humanos” e a manutenção de “tribunais do tráfico” como atos terroristas.
Em 9 de maio, Cláudio Castro viajou a Nova York para se reunir com autoridades da Agência de Controle de Drogas (DEA) e do Escritório das Nações Unidas para Assuntos de Desarmamento (UNODA), com o objetivo declarado de “firmar parcerias no enfrentamento ao tráfico de drogas e armas”.
Coordenação com governadores
O movimento de Flávio e Eduardo Bolsonaro ocorre em alinhamento com um grupo de governadores de direita que formaram um “consórcio da paz” para apoiar a designação de traficantes como terroristas. Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, destacou-se pela rapidez na articulação: coordenou com seu secretário de segurança pública, Guilherme Derrite, uma licença do cargo para relatar o Projeto de Lei 1283/2025 na Câmara dos Deputados. O PL enquadra organizações de narcotráfico como terroristas no Brasil e reduz o papel da Polícia e Justiça federais na investigação, empoderando polícias civis e tribunais estaduais.
Derrite deve substituir o deputado Nikolas Ferreira (PL-SP) como relator do texto. Segundo informações de O Globo, ele já se reuniu com o presidente da Câmara, Hugo Motta, na quarta-feira (29 de outubro), para tratar do projeto.
Contexto internacional
A campanha pela designação ocorre em contexto de pressão internacional. O governo Trump autoriza operações militares norte-americanas contra embarcações nas águas do Caribe e Pacífico, justificadas pela designação da facção Tren de Aragua como organização terrorista. De setembro até outubro de 2025, os EUA afundaram pelo menos 15 embarcações, resultando em cerca de 64 mortes, segundo reportagens de imprensa.
Conforme coluna do jornalista Jamil Chade no UOL, Trump pretende pressionar países latino-americanos, durante a próxima Cúpula das Américas, a adotarem comunicado conjunto designando narcotraficantes como terroristas. Peru e Equador já sinalizaram apoio à proposta. A Argentina, sob governo de Javier Milei, designou oficialmente CV e PCC como organizações terroristas. O Paraguai fez o mesmo.
Potencial impacto no Brasil
A designação de facções brasileiras como organizações terroristas poderia gerar consequências para a economia brasileira. Bancos e empresas com qualquer vínculo com essas organizações ainda que sem conhecimento poderiam ser alvo de sanções norte-americanas. A designação também poderia permitir ações militares norte-americanas em águas brasileiras, similar ao que ocorre no Caribe.
O governo federal não se manifestou oficialmente sobre a campanha de designação liderada por membros da oposição e governadores de direita.






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