O calor extremo não é apenas um incômodo passageiro; ele afeta diretamente a capacidade de aprendizado e o bem-estar de alunos e professores. Em situações de temperatura elevada, o cérebro prioriza o alívio do desconforto, desviando energia de funções como concentração e raciocínio. Em uma sala de aula, isso significa que o ensino e a aprendizagem ficam comprometidos.
A neurocientista Lívia Ciacci explica que, em dias muito quentes, o corpo entra em um estado de alerta. “O bem-estar do corpo é prioridade, e tudo o que é secundário perde importância”, diz. Com vasos dilatados, respiração acelerada e maior perda de água, o organismo busca equilibrar a temperatura, deixando pouco espaço para atividades que exigem engajamento cognitivo.
Impactos na educação e na saúde
O ano de 2024 foi o mais quente já registrado, com temperaturas 1,6°C acima da média do início da era industrial, segundo o programa Copernicus. Em salas de aula superlotadas, o calor é ainda mais intenso, e os efeitos são sentidos por todos. Crianças, por exemplo, são mais vulneráveis à desidratação, já que a porcentagem de água em seus corpos é maior do que nos adultos. A Sociedade de Pediatria do Rio de Janeiro alerta para sintomas como tonturas, desmaios, cansaço e irritabilidade.
Além dos problemas de saúde, o calor extremo prejudica o desempenho escolar. Um estudo da Universidade de Harvard mostrou que, em dias muito quentes, as perdas de aprendizagem podem chegar a 50%. Esses impactos não são passageiros: notas em testes realizados anos depois também podem ser afetadas. No Brasil, uma projeção do Banco Mundial indicou que, em anos com mais de 37 dias acima de 25°C, as notas médias dos estudantes na Prova Brasil caem quase 2%.
Os professores não estão imunes aos efeitos do calor. Além de lidar com a própria dificuldade de concentração, eles precisam gerenciar salas de aula com alunos irritados e desconcentrados. “Uma hora ou outra, o docente também vai ficar irritado e vai desistir de alguma tarefa pedagógica”, afirma Lívia Ciacci.
Daniel Bitencourt, pesquisador da Fundacentro, destaca que ambientes internos mal preparados podem potencializar o calor externo. “Professores, trabalhadores das escolas e os próprios alunos sentem um estresse térmico maior do que se estivessem do lado de fora”, diz. Atividades ao ar livre, como educação física, expõem ainda mais alunos e professores à radiação solar e ao calor intenso.
Falta de estrutura nas escolas
A precariedade das escolas públicas agrava o problema. Muitas instituições não têm ar-condicionado, e o uso de ventiladores gera ruídos que prejudicam a comunicação e podem causar danos às cordas vocais dos professores. Heleno Araújo, presidente da CNTE, defende a criação de Comissões Internas de Prevenção de Acidentes (CIPAs) nas escolas para enfrentar esses desafios.
“Existe um conjunto de ausências dentro do espaço da escola pública: salas de leitura, bibliotecas, quadras de esporte, laboratórios e também climatização”, afirma Araújo. A falta de infraestrutura adequada interfere não apenas no conforto, mas também no processo de ensino-aprendizagem.
Um cenário que tende a piorar
As mudanças climáticas indicam que o problema do calor extremo nas escolas só vai aumentar. “Existe um novo cenário climático, já estabelecido, com temperaturas mais altas, maior frequência de ondas de calor e maior umidade”, alerta Bitencourt. Sem medidas urgentes, como a climatização das salas de aula e a adaptação dos currículos para dias mais quentes, o futuro da educação pode ser ainda mais desafiador.
Enquanto isso, alunos e professores seguem enfrentando as consequências do calor extremo, em um sistema educacional que ainda não está preparado para lidar com as mudanças climáticas. A pergunta que fica é: quantos anos letivos precisarão ser comprometidos antes que ações concretas sejam tomadas?
Fonte: Repórter Brasil






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