O celular que ameaça explodir o clã Bolsonaro

Aparelho de Daniel Vorcaro contém os diálogos, as fotos e vídeos da irmandade com Flávio

Por Redação
celular Vorcaro ameaça Bolsonaro
Flávio Bolsonaro questionado pela imprensa na agenda em Manaus (AM). Foto: Vittor Sales

Há um cofre em Brasília. Dentro dele, um celular. E dentro do celular, o rastro que o clã Bolsonaro passou o ano inteiro tentando esconder. O cofre está trancado. A chave está nas mãos de André Mendonça. E o ministro, neste domingo, explicou por que não vai abrir: porque abrir “tumultuaria o julgamento” e “colocaria em risco as investigações”. A frase é antiga. O medo, também.

O que o cofre guarda

O celular de Daniel Vorcaro não é um aparelho qualquer. É o arquivo do escândalo. Foi nele que a Polícia Federal encontrou o acordo de US$ 24 milhões para financiar Dark Horse, a cinebiografia do golpe. Foi a partir dele que se rastrearam as sete remessas ao fundo Havengate, no Texas — US$ 12,33 milhões administrados por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Foi dele que saíram as provas de que Flávio pediu R$ 131 milhões ao banqueiro e recebeu R$ 61 milhões. E foi nele que a PF encontrou a mensagem que o procurador-geral da República, Paulo Gonet, leu como “promessa de apoio ou interferências” — escrita três dias antes de Vorcaro ser preso no jato com destino a Dubai.

O celular é o cofre. E o cofre guarda a história que o clã não quer que o Brasil leia antes do voto.

O guardião seletivo

Mendonça conhece bem o mecanismo da chave. Ele não hesitou em abrir o sigilo quando o conteúdo servia ao roteiro dele: as conversas entre Vorcaro e Alexandre de Moraes foram derrubadas na hora certa, para transformar o ministro que presidiu a ação criminal com a qual o golpista Jair Bolsonaro foi parar na cadeia em alvo e desviar o foco do escândalo. A “transparência” dele funcionou perfeitamente — enquanto apontava para o inimigo.

Agora, diante da íntegra — o material que pode conter o rastro financeiro do clã —, o mesmo ministro se esconde atrás do “risco às investigações”. A mesma toga que abriu a gaveta quando o conteúdo era contra Moraes tranca o cofre quando o conteúdo pode ser contra Flávio. O guardião é seletivo. A seletividade tem nome, sobrenome e candidatura.

O isolamento

O detalhe que condena a versão de Mendonça é a solidão dele. Moraes, Zanin, Gilmar e a própria PGR — todos pediram acesso à íntegra. Zanin foi além e ordenou, neste domingo, que a PF envie os dados até as 23h: “não existe hierarquia entre os ministros”, escreveu. Gilmar disse ter “sérias dúvidas” se o processo está pronto. A PGR alertou que o “acesso assimétrico” compromete a paridade e a colegialidade da Corte. A PF informou que tem “plenas condições técnicas” de entregar cópia idêntica a todos.

Só o relator resiste. E a resistência dele não é técnica. É o mesmo padrão que a Frente Livre vem documentando: o ministro que represou o caso Master por cinquenta dias, que segurou o inquérito de Flávio na gaveta até o limite da legalidade, que soltou o filho do Careca do INSS contra o parecer da PGR, agora tranca o cofre que pode abrir o clã. O sicário jurídico faz o trabalho de sempre: ganhar tempo.

A distração de terça

A sessão de terça-feira, 15 de setembro, vai julgar o relatório sobre as mensagens de Vorcaro com Moraes. Não vai julgar Flávio. Não vai julgar o Dark Horse. Não vai julgar o Master. O plenário vai olhar para o alvo que Mendonça escolheu — o ministro que incomoda o bolsonarismo — enquanto o cofre com a história do clã permanece trancado no gabinete do relator.

É o teatro da distração. E o celular é a ameaça de quebrar o palco.

O cofre e o voto

Mendonça ganhou o tempo que pôde. Represou o inquérito, segurou o sigilo, escolheu o alvo. Mas o cofre não é dele — é da investigação. E a investigação, como a PF já disse, tem o celular sob guarda, com lacres íntegros e “plenas condições técnicas” de abrir para todos. A chave pode mudar de mão a qualquer momento.

O clã sabe o que o cofre guarda. Por isso o guardião resiste. Por isso a sessão de terça é sobre Moraes e não sobre Flávio. Por isso o medo de abrir a íntegra é maior que o medo de parecer o que é: o ministro que protege o candidato.

O cofre está trancado. Mas o tempo, esse, não tranca. E o tempo, nesta eleição, corre contra quem apostou tudo no segredo. O celular de Vorcaro é a chave que o clã teme — e a chave, um dia, gira.

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