O endereço é o que há de novo, foi revelado hoje (11) a tarde pelo ICL Notícias. E o endereço é uma porta. A Bravo Grafeno — a empresa de capacetes que tem Flávio e Carlos Bolsonaro como sócios e Jair fazendo propaganda (“Com capacete Bravo de grafeno, você garante sua liberdade e segurança”) — está registrada na sala 2601, bloco D, Edifício Connect Towers, em Águas Claras, no Distrito Federal. A mesma sala onde se registraram pelo menos 16 empresas de Antonio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS. O homem que a PF aponta como chefe de uma fraude bilionária contra aposentados. A porta abre para a teia.
O vizinho
A sala 2601 fica ao lado da Voga Serviços Contábeis. A Voga pertence a Alexandre Caetano dos Reis. E Alexandre não é um contador qualquer: é sócio do Careca do INSS numa offshore nas Ilhas Virgens Britânicas, um paraíso fiscal no Caribe. Tinha acesso a planilhas internas, documentos estratégicos e operações financeiras que a PF considera sensíveis. Está preso desde dezembro de 2025.
A mesma Voga que presta contabilidade ao escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro. O e-mail da Voga consta nas notas fiscais do escritório do senador. O contador que serve a rede do Careca serve também ao clã. A sala não é coincidência: é o retrato de uma relação.
A família na mesa
O fio puxa mais longe. Alexandre Caetano dos Reis tem uma irmã: Letícia Caetano dos Reis. Ela administra o escritório de advocacia de Flávio desde 2021 — o mesmo escritório que funciona no endereço da mansão de R$ 6 milhões que o senador comprou. A contabilidade do clã e a administração do clã passam pela mesma família que serve ao Careca.
E quem indicou Letícia para o cargo? Willer Tomaz, amigo pessoal de Flávio. O mesmo Willer Tomaz que a Polícia Federal encontrou com pilhas de dinheiro em espécie e uma máquina de contar cédulas no escritório, na Operação Sem Desconto. O amigo do candidato com R$ 45,5 milhões em movimentações financeiras consideradas atípicas. A máquina apreendida não conta votos. Conta dinheiro. Dinheiro que saiu do bolso de quem mais precisava.
A Bravo Grafeno ainda guarda um terceiro sócio: Pedro Luiz Dias Leite, ex-sócio do ex-marqueteiro de Flávio numa empresa de comunicação. A empresa de capacetes do candidato reúne a família Bolsonaro e um sócio ligado ao marqueteiro dele — tudo na mesma sala do contador preso do Careca.
O que o endereço não prova
Sejamos honestos, porque é isso que nos separa do adversário: endereço compartilhado não é crime. Contador que junta as empresas numa sala é prática comum de escritório contábil. Sozinho, o endereço é um indício de mapa, não um batom na cueca. O que ele prova é proximidade documentada — e o candidato não a explica. A pergunta legítima fica no ar: por que a estrutura empresarial de um candidato a presidente dividia contador e endereço com o operador de uma fraude contra aposentados? E por que o silêncio?
O relator que virou vice
Agora a montagem que condena sozinha. A CPMI do INSS, instalada para apurar o esquema, foi presidida na relatoria por Alfredo Gaspar, deputado do PL. Gaspar quebrou o sigilo de Lulinha, filho do presidente Lula. Distribuiu à imprensa. Não tinha absolutamente nada — e mesmo assim meteu Lulinha no relatório final, entre os 216 indiciados, ao lado do Careca e de Daniel Vorcaro. O relatório morreu, rejeitado por 19 votos a 12, e a comissão foi encerrada sem documento aprovado.
Gaspar hoje é candidato a vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro.
O homem que armou a comissão para caçar o filho do presidente é o vice do candidato cuja empresa de capacetes fica ao lado do contador preso do fraudador. O relator que puxava Lulinha para dentro da confusão — sem nada — é o mesmo que agora divide a chapa com o dono da sala 2601. A teia tem endereço, tem contador, tem irmã, tem amigo com máquina de contar cédulas. E tem, no topo, um candidato que usou o Congresso para desviar o olhar.
A porta que não fecha
O endereço é o que há de novo. Mas a teia é antiga. O contador preso, a irmã administradora, o amigo com dinheiro vivo, o vice que caçava Lulinha à toa enquanto a empresa do próprio clã dormia ao lado do fraudador. Cada fio puxado revela outro. E a porta da sala 2601, em Águas Claras, continua aberta para quem quiser seguir o caminho do dinheiro.
O candidato diz que não há nada a esconder. A sala diz outra coisa. E a sala, ao contrário do discurso, tem endereço.
