PF prova: Dark Horse tem dinheiro público, Flávio mentiu

Pelo menos R$ 750 mil de emendas do orçamento secreto chegaram à produtora

Por Redação
delação Dark Horse
Os Bolsonaros tietando o ator Jim Caviezel, que recebeu dinheiro do Banco Master para interpretar Jair Bolsonaro. Foto: Reprodução Instagram

Ao deflagrar na quinta-feira (10) a Operação Make Up, a Polícia Federal (PF) obteve provas do que era óbvio e ululante, mas estava até então blindado na gaveta do ministro André Mendonça, o líder do bolsonarismo no plenário do Supremo: tinha dinheiro público, aquele dos impostos pagos pelos brasileiros, dentro da contabilidade do filme Dark Horse, a “obra-prima” sobre o golpista Jair Bolsonaro encomendada a Holywood para ser exibida durante a campanha e, quem sabe, mudar o resultado das eleições brasileiras. Como era de se esperar, a grana veio do orçamento secreto. E foi posta lá sob a assinatura de pelo menos três desses paspalhos políticos mais inflamados da extrema direita: os deputados do PL Mário Frias (SP), Bia Kicis (DF) e Marcos Pollon (MS).

Frias, inclusive, foi o principal alvo da operação da PF. Foram cumpridos 49 mandados de busca e apreensão no Distrito Federal, São Paulo, Rio de Janeiro e Ceará. Karina Gama, dona da produtora Go Up Entertainment e presidente do Instituto Conhecer Brasil (ICB), também tomou buscas.

A operação apura suspeitas de peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e irregularidades em licitações. Sete armas registradas em nome de Frias — um fuzil e seis outras — também foram apreendidas por estarem em endereço diferente do informado no registro.

O caminho do dinheiro, passo a passo

Para entender o que a PF investiga, é preciso seguir o rastro do dinheiro. Ele andou em etapas:

1. A emenda parlamentar. Mario Frias destinou emendas parlamentares a entidades ligadas a Karina Gama. O Instituto Conhecer Brasil (ICB), presidido por ela, recebeu R$ 700 mil em emendas destinadas a projetos educacionais.

2. A ONG redistribui. O ICB transferiu R$ 8,5 milhões (R$ 8.554.301,14) para a Ultra IP, empresa que antes se chamava William Silva Ferreira Representações — e que a PF classifica como uma das “redistribuidoras” de valores da rede. Duas outras empresas do grupo receberam R$ 700 mil do instituto entre fevereiro e março de 2025.

3. As empresas-laranja. A Ultra IP repassou o dinheiro a empresas com donos de perfil incompatível com os valores movimentados:

  • R$ 1.075.586 à ABC Logísticas e Serviços Ltda, cuja única sócia, Nayara Bianca Silva de Souza, trabalha como cuidadora de idosos, recebe salário médio de R$ 1.815 e é beneficiária do Novo Bolsa Família;
  • R$ 627.482,25 à Fastsoftsolution Mídia, cujo único sócio, Anderson Souza Mendes, tem como última ocupação formal registrada a de servente de obras;
  • R$ 1.336.201,50 à Academia Nacional de Cultura, também presidida por Karina Gama.

4. O dinheiro chega à produtora. Entre novembro e dezembro de 2025, a NTT Brasil, do mesmo grupo, repassou R$ 750 mil à Go Up Entertainment, produtora do “Dark Horse”. A PF ressalva que os elementos “não permitem afirmar” que os R$ 750 mil tenham “origem direta” nos valores do instituto — mas destaca a coincidência dos montantes e das datas.

5. Os gastos na época das filmagens. As gravações ocorreram entre 20 de outubro e 7 de dezembro de 2025. Nesse período, a Go Up pagou R$ 906,7 mil a um hotel e R$ 653 mil a uma empresa de alimentação, e movimentou cerca de R$ 19 milhões entre 10 de novembro e 30 de dezembro.

Os pagamentos diretos de Frias

Além das emendas, a PF aponta pagamentos diretos do deputado. Um deles, de R$ 645,4 mil à Go Up em menos de 60 dias, foi considerado incompatível com a remuneração parlamentar, estimada em cerca de R$ 44 mil mensais. Frias também usou R$ 154 mil da cota parlamentar para pagar a Complexsys Soluções Integradas, empresa que recebeu milhões do ICB e aparece conectada ao conjunto empresarial investigado.

A versão de Flávio, desmontada

Quando as primeiras suspeitas vieram a público, Flávio Bolsonaro afirmou que havia “zero de dinheiro público” no filme. Depois, a produtora apresentou uma perícia particular segundo a qual o longa teria custado cerca de R$ 75 milhões, financiados pelo fundo Havengate, sem recursos públicos — sem detalhar fornecedores, notas fiscais ou a compatibilidade das despesas.

A PF não afirmou que os R$ 75 milhões sejam integralmente públicos. Mas a existência de uma investigação formal sobre repasses de emendas que teriam chegado à própria produtora torna a frase de Flávio, no mínimo, incompatível com os fatos. Ele não é alvo deste inquérito específico, mas figura em outra apuração sobre o “Dark Horse”, sob relatoria de André Mendonça. Nesta quinta, em Boa Vista (RR), Flávio acusou Dino de tentar interferir nas eleições e repetiu que a produção foi bancada com dinheiro privado.

O contraste com Lula

Enquanto Flávio silencia sobre a publicidade das apurações, Lula e o PT cobram a quebra completa do sigilo do caso Master “seja quem for, doa a quem doer”. O PT levou petições ao STF contra os “vazamentos seletivos”, que criam uma “publicidade em mosaico”: são públicos os fragmentos que atingem adversários do bolsonarismo, permanecem sigilosos os autos principais que contêm o contexto. A investigação sobre o dinheiro de Vorcaro para o “Dark Horse” segue sigilosa — na gaveta de Mendonça, o relator que blindou o candidato.

O caminho do dinheiro está desenhado. Falta a gaveta abrir.

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