Você viu o jogo e já sabe que foi estranho: o Brasil sendo dominado pelo Marrocos no meio campo. Não por um tempinho, não por um rasgo, não por acidente. Pelo jogo in-tei-ro! Deu uma agonia danada. A gente não tá acostumado com isso, não!!!
Pois eu, do mais alto posto do tribunal geral da opinião pública, sentencio: a Seleção da Copa de 2026 está condenada perpetuamente a jamais, e eu repito, jamais ser amada por nós, brasileiros.
Calma lá, meu senhor, minha senhora, eu não estou dizendo que o Brasil não vai ser campeão. Em tempo de Copa, isso seria torcer contra. E torcer contra é heresia. É pecado mortal. Depois de duas cerpinhas, eu mesmo já estava dizendo que Ibañes é mais jogador que Carlos Alberto Torres. Terminei o jogo rouco de tanto gritar. Xinguei o juiz com a jugular latente por motivo nenhum. A não ser pelo fato de que minha santa mãezinha, do nada, começou a paquerar com ele…
O nosso desamor eterno não diz respeito à vitória ou à derrota. Diz respeito ao jogo.
Esse time não tem a malemolência típica do futebol brasileiro. Não tem drible. Não tem ginga. Não tem finta. Nosso maior craque, Vini Jr, é uma flecha, um foguete. E é também a única coisa que faz lembrar vagamente aquilo que um dia já foi sinônimo de magia e arte dentro de um campo. Mas o time é tão cintura-dura que até ele, o Vini, acaba reduzido a um relâmpago negro lá pela esquerda. E relâmpagos só andam acompanhados de trovões e tempestades.
Já teve Seleção que venceu, como a de 1994, e não tomou os corações brasileiros. E tantas outras que perderam, como as de 1950, 1978, 1982 (essa me faz chorar até hoje), 1998, mas que ganharam um lugar no chamego das nossas memórias. Não importa o fim que este time vai dar nessa Copa. Nosso amor ele não leva.
Ouvi dias desses na TV alguém lançar a melhor das explicações sobre o motivo de a gente não jogar mais como a gente. Não tem nada a ver com a grana que os europeus botam em cima e embaixo da mesa para levar nossos craques — e cada vez mais jovens. Não, não é isso.
O maior motivo de a gente jogar desse jeito meio robótico de hoje em dia é o desaparecimento da Dente de Leite. Sim, aquela bola de borracha que todos os meninos brasileiros, ricos, médios ou miseráveis, usavam até a década de 80. O peso daquela bola, o recochete da borracha no pé descalço, a textura lisa que dificultava o domínio, tudo aquilo dava uma intimidade carnal ao jogador com sua amada bola.
Sumiu a Dente de Leite, sumiram os craques tipicamente brasileiros. A gente tem craque hoje em dia? Claro que tem. Mas são todos “europeus”. Até o nome deles tá estranho. Não tem um Biriba, um Manga, um Merica. Na minha infância, o craque do meu time era um meia chamado Lola. Na Seleção de 2026, o único nome mais ou menos é Raphinha. Só que escrito assim, com pê agá, pra deixar claro que ele é desse novo tempo, não daquele velho futebol brasileiro.
Joguem, meninos, joguem! Estamos aqui torcendo por vocês. Louca e exageradamente como sempre fizemos. Mas amar esse time? Não, não vai dar, não…





1 Comentário
Muito bem Ugo Braga, desabafou o que estava travado em muitas gargantas.