A decisão do ministro Alexandre de Moraes de decretar a prisão do deputado Alexandre Ramagem (PL-RJ), condenado por participação na trama golpista, marcou um novo capítulo do conflito entre o núcleo bolsonarista e o Supremo Tribunal Federal. A fuga do parlamentar para os Estados Unidos, descumprindo ordem judicial para permanecer no país e entregar seus passaportes, adiciona um elemento que extrapola a esfera penal e toca diretamente no funcionamento das instituições.
Enquanto aliados de extrema direita alegam perseguição política, a leitura dominante dentro do STF e entre especialistas em direito constitucional é que Ramagem testou deliberadamente os limites da Justiça, ampliando a sensação de que parte do grupo envolvido no 8 de Janeiro aposta na desobediência aberta como tática política e jurídica.
A deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ) sintetizou essa percepção ao afirmar que o caso revela “a profundidade da trama golpista” e reforça que não há blindagem para quem ataca o Estado Democrático de Direito.
Descumprimento reiterado de ordens e fuga calculada: o que pesou na decisão do STF
Ramagem foi condenado pela 1ª Turma do STF a 16 anos, 1 mês e 15 dias de prisão por organização criminosa, golpe de Estado e abolição violenta do Estado Democrático de Direito. Entre as provas, está o uso da estrutura da Abin, sob sua direção, para monitorar adversários e sustentar a ofensiva bolsonarista contra o sistema eleitoral.
Mesmo proibido de sair do país, o parlamentar viajou para Boa Vista e, segundo investigação da PF, atravessou clandestinamente a fronteira possivelmente pela Venezuela ou pela Guiana. Já nos Estados Unidos, fixou residência em um condomínio de luxo em North Miami.
A fuga ocorreu em setembro, justamente quando seus recursos começavam a ser negados, indicando que o momento da execução da pena se aproximava. Para investigadores, trata-se de uma tentativa consciente de escapar do cumprimento da sentença.
A PF havia solicitado a prisão preventiva, e Moraes deferiu o pedido sob sigilo, antes mesmo da pressão política exercida pelo PSOL nesta semana.
Outro episódio de desobediência bolsonarista e um padrão preocupante
A tentativa de Ramagem não é um caso isolado. Ele se soma à deputada Carla Zambelli (PL-SP), presa em Roma, e ao senador Marcos do Val (Podemos-ES), que descumpriu ordem de apreensão de passaporte e viajou aos EUA, gerando confronto direto com o Supremo.
Esses episódios formam um padrão recorrente:
- parlamentares e aliados bolsonaristas enfrentam investigações por crimes graves;
- deixam o país mesmo proibidos;
- e só retornam quando a situação jurídica se agrava ou quando são detidos no exterior.
Para analistas, esse comportamento revela uma tentativa de “internacionalizar” os conflitos políticos brasileiros, transferindo crises para outros países e buscando apoio em núcleos da extrema direita global.
Impactos sobre a Câmara e o desgaste político de Ramagem
A Câmara dos Deputados foi atingida em cheio pelo caso. Documentos oficiais mostraram que Ramagem solicitou roaming internacional para votar remotamente o Projeto Antifacção algo proibido pelo regimento, que impede exercício do mandato desde o exterior.
Além disso, atestados médicos apresentados por ele cobrem praticamente o período desde sua fuga. O episódio constrangeu a cúpula da Casa, que tenta evitar novo conflito com o STF, mas terá de analisar a perda de mandato quando os recursos se esgotarem.
Internamente, líderes interpretam a manobra como um desgaste institucional desnecessário, com potencial para enfraquecer ainda mais o grupo bolsonarista diante da opinião pública.
O peso político: uma decisão que fortalece o STF e isola o bolsonarismo
Para o governo e para setores do Congresso, a prisão preventiva é vista como mais uma afirmação de autoridade do Supremo no enfrentamento às redes golpistas. Moraes reforça a mensagem de que a Justiça está preparada para responder a qualquer tentativa de driblar decisões judiciais e que ninguém, por mais influente politicamente, está acima da lei.
A declaração de Jandira Feghali ecoa esse entendimento ao destacar que “cada passo dado contra a democracia terá consequências”.
A ala bolsonarista, por sua vez, tende a reagir politicamente, mas encontra terreno mais frágil: a condenação unânime, a fuga clandestina e o histórico de violações tornam difícil sustentar publicamente a narrativa de perseguição.
Um divisor de águas para a execução das penas do 8 de Janeiro
A prisão de Ramagem tem efeito simbólico e prático:
- sinaliza que o ciclo de execução das penas do 8/1 está chegando;
- reforça a autoridade do STF no combate à tentativa de golpe;
- expõe tensões entre poderes;
- enfraquece a estratégia bolsonarista de adiar decisões por meio de recursos e fugas.
Mais que um episódio isolado, o caso se transforma em marco da fase final do processo contra o núcleo golpista, com potencial de impactar Bolsonaro e demais condenados cujos recursos já começam a ser derrubados.
Fonte: Portal Vermelho






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