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Dois tiroteios em dois meses elevam tensão na terra indígena Apyterewa

DE SÃO FÉLIX DO XINGU (PA) — Três indígenas parakanã trocaram tiros com invasores na terra indígena Apyterewa, no sudeste do Pará, no dia 25 de janeiro.

DE SÃO FÉLIX DO XINGU (PA) — Três indígenas parakanã trocaram tiros com invasores na terra indígena Apyterewa, no sudeste do Pará, no dia 25 de janeiro. Um mês antes, em 18 de dezembro, a aldeia recém-construída Tekatawa havia sido alvo de um ataque armado. Os dois episódios mostram que o nível de tensão após a reocupação do território está elevado.

No tiroteio de janeiro, os indígenas haviam saído de suas aldeias para caçar e toparam com um acampamento com panelas e outros itens de não-indígenas. Foram surpreendidos por disparos e revidaram. Em dezembro, os parakanã também foram surpreendidos por tiros. Fotos e vídeos feitos pelos parakanã mostram cartuchos de munição no chão e furos de bala em redes e paredes de casebres de madeira. “Eles vieram para matar, porque foram muitos tiros. Por sorte, ninguém ficou ferido”, relata Surara Parakanã, liderança do povo da Apyterewa.

Os parakanã estão criando novas aldeias longe das margens do Xingu como medida de vigilância, dentro de uma estratégia de retomada e ocupação do território. Desde a operação de desintrusão, que em 2023 retirou centenas de invasores da Apyterewa, os indígenas dizem que se mantêm em estado de guerra. Eles circulam pela área armados com espingardas, facas, arco e flechas e escoltados pela Força Nacional e Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas). Com frequência, artefatos de ferro pontiagudos enterrados por invasores nas estradas de terra precárias furam os pneus das caminhonetes das equipes de monitoramento.

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“Mas a segurança melhorou bastante depois que eles começaram os acampamentos nas novas aldeias”, explica Hermelio Barreto, que em dezembro de 2024 era o chefe da Base de Operações 1 da Funai no território. “A Funai e a Força Nacional trabalham para manter afastados invasores, mas nosso turno se encerra quando cai a noite, enquanto os indígenas estão alertas 24 horas”, complementa. Neste último ano, não foram poucas vezes que os parakanã acionaram os agentes públicos para recolherem invasores flagrados por eles dentro dos limites da Apyterewa.

Cacau gera novo ciclo de disputa

O gado foi o motor histórico do conflito na terra indígena, mas agora as ameaças estão também relacionadas com outro produto agropecuário deixado para trás por invasores: o cacau. Uma estimativa publicada pelo site Sumaúma estima que existam 30 mil pés dentro da Apyterewa. Os indígenas apostam na colheita desse fruto para a geração de renda comunitária enquanto esperam o reflorestamento da Apyterewa.

Mama Parakanã (à esquerda) defende que indígenas colham o cacau deixado por invasores para conseguirem sobreviver enquanto ocorre o reflorestamento do território (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

“O gado dos invasores nós nunca quisemos, e demos prazo para que fosse retirado. Mas o cacau vai ser importante para os indígenas”, diz Mama Parakanã, o cacique-geral da terra indígena.

Segundo a Polícia Federal, o ataque a tiros à aldeia Tekatawa “está relacionado à colheita da produção de uma roça de cacau plantada por não-indígenas na TI”. Ainda não há conclusões sobre o incidente mais recente, mas a PF diz que “a princípio, trata-se de uma ação isolada, sem conexão” com a anterior.

:: Leia também: Aldeias tomam lugar de gado ilegal criado com trabalho escravo na TI Apyterewa

A localização das oito novas aldeias foi escolhida para permitir acesso às lavouras para tomar conta do cacau. Há um centro de apoio aos parakanã que fica em um ponto entre as novas aldeias Tekatawa, atacada em dezembro, e a Kaateté, na Linha 10. Ambas existiam antes da desintrusão, em uma parte ao norte do território, mas foram removidas por orientação das forças de segurança que trabalhavam na desocupação da área indígena. Agora, estão sendo reerguidas em uma porção mais ao sul do território, conforme mapa abaixo.

O ataque de dezembro à Tekatawa levou a maioria dos parakanã a retirarem mulheres e crianças das áreas de recente reocupação. A única exceção é a comunidade Awyra I’yahoa (que significa Aldeia Nova em português), que mantém todas as famílias no local mesmo após os ataques de dezembro.

Foi para lá que se mudou, nos últimos dias de 2024, Wenatoa Parakanã, presidente da Associação Tato’a, que representa os interesses dos indígenas, e seus filhos, incluindo um recém-nascido. Seu marido, o cacique da Awyra I’yahoa, não titubeia sobre a decisão. “Daqui a gente não vai arredar o pé”, avisa, antes de tomar o rumo da roça de cacau.

Escombros da antiga Vila Renascer, que tinha escola, igreja e posto de gasolina dentro da terra indígena Apyterewa. As construções foram destruídas pelas autoridades durante a desintrusão (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)
Vila Boa Fé, que fica na borda da terra indígena Apyterewa, é habitada por não indígenas. Parte deles segue à espera de uma reversão do cenário de expulsão dos invasores: estão acampados na borda externa da TI em um conjunto de casas improvisadas com lonas e folhas de palmeira (Fernando Martinho/Repórter Brasil)
Indígenas parakanã encontram objetos pontiagudos enterrados nas estradas. Segundo eles, os artefatos foram deixados por invasores para furar os pneus das caminhonetes de monitoramento de segurança da terra indígena Apyerewa, no Pará (Foto: Fernanndo Martinho/Repórter Brasil)

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