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VIDA

Entenda o cálculo político das balas eleitorais

Espetacularização da violência policial serve a uma agenda eleitoral, e não a uma política de segurança eficaz e duradoura

A Operação Contenção, deflagrada nos complexos da Penha e do Alemão, que resultou em mais de 132 mortes, não é apenas uma ação de segurança pública. Lida por analistas políticos e pesquisadores da violência urbana, a megaoperação é, sobretudo, um potente manifesto eleitoral, cronometrado com precisão cirúrgica para ressoar a um ano das urnas de 2026. A ofensiva brutal, que ceifou vidas majoritariamente nas periferias, questiona-se: é um combate ao crime ou uma estratégia fria para capitalizar votos às custas do sangue dos mais vulneráveis?

O palco da contenção e o cronômetro político

Em 28 de outubro de 2025, enquanto a fumaça de confrontos ainda pairava sobre a Zona Norte do Rio, a Operação Contenção gravava seu nome na história como uma das mais letais do estado. O balanço inicial de mais de 119 mortos — número contestado por moradores que relatam cifras ainda maiores — e a grandiosa demonstração de força policial marcaram um episódio que, para muitos, transcende a simples repressão ao tráfico. O timing da ação, a pouco menos de um ano do pleito de 2026, acende um alerta sobre a intencionalidade política por trás do massacre.

À época da operação, o cenário político do governador Cláudio Castro, que não pode se reeleger, mostrava um índice de rejeição de 48% em fevereiro de 2025, segundo pesquisas divulgadas. Com um olho no Senado e outro na manutenção de sua influência política no estado, a “guerra ao crime” surge como um recurso de alto impacto para reverter narrativas e capitalizar a percepção de pulso firme.

Especialistas em segurança pública veem nesse movimento uma tática recorrente, onde a espetacularização da violência policial serve a uma agenda eleitoral, e não necessariamente a uma política de segurança eficaz e duradoura.

Um padrão histórico de sangue e urnas

A Operação Contenção não é um evento isolado, mas ecoa um padrão que se repete dolorosamente na história recente do Rio de Janeiro. Análises acadêmicas revelam uma correlação preocupante entre a intensificação de operações policiais e os ciclos eleitorais.

Pesquisas indicam um aumento de 240% no número de operações nos meses que antecedem as eleições, e uma média de 23,7% de aumento em anos eleitorais, contra apenas 5,2% em outros períodos.

O ano de 2018 é um exemplo gritante: a intervenção federal na segurança pública do Rio foi decretada em fevereiro, às vésperas de um ano eleitoral marcado por grande polarização. O monitoramento de 4.411 operações policiais entre 2018 e 2022 – período que abrange a intervenção – demonstrou a magnitude da presença militarizada, frequentemente associada a picos de letalidade.

Márcia Pereira Leite, socióloga e professora da UERJ, em seus estudos e escritos constrói o raciocínio segundo o qual a narrativa da “guerra” contra o tráfico é uma ferramenta poderosa para governos que buscam legitimidade e popularidade através de uma retórica de ordem, transformando as favelas em palcos de disputas políticas.

Vozes do território e da análise política

Mas a conta política é paga com dor e sofrimento humano. Os depoimentos de moradores do Complexo do Alemão após a operação, compilados em reportagem do RJ2 publicada pelo G1, são um grito de socorro. “Minha cachorra foi morta a tiros dentro de casa, e os policiais não ligaram”, narrou um morador, mostrando a crueldade indiscriminada.

Outro relato descreve o terror de uma criança obrigada a passar horas dentro do banheiro, o único cômodo sem janelas, para fugir dos tiros. E a imagem chocante de uma mulher grávida, sem transporte, sendo forçada a caminhar quilômetros até Inhaúma para buscar atendimento médico em meio ao caos da operação, ilustra a desumanidade com que os moradores das favelas são tratados.

As organizações sociais, que são a espinha dorsal da resistência nessas comunidades, também sofrem as consequências. Albert Austin, presidente da ONG Base Transformadora, que atua no Complexo da Penha, denunciou o vandalismo e os danos sofridos pela sede da organização durante a operação. “Não só perdemos equipamentos, mas principalmente o senso de segurança e o trabalho que levamos anos para construir. Isso também é parte do custo da bala eleitoral”, lamentou Austin.

Especialistas em segurança pública apontam que operações de grande impacto podem servir a fins políticos enquanto desviam recursos de políticas estruturais de prevenção.

A questão central, portanto, não é se essas operações são eficazes no combate ao tráfico – dados anteriores demonstram que sua eficácia é mínima – mas sim qual é a sua real intencionalidade política, e que tipo de sociedade permite que a violência contra os pobres seja usada como moeda de troca eleitoral.

COMPARAÇÃO HISTÓRICA DE OPERAÇÕES LETAIS NO RIO

CRONOLOGIA DAS OPERAÇÕES MAIS LETAIS

Operação Data Local Mortos Presos Fuzis Contexto Político
Chacina do Jacarezinho 6/mai/2021 Jacarezinho, Zona Norte 28 ~50 N/D Pandemia COVID-19; operação policial “de rotina”
Vila Cruzeiro 24/mai/2022 Vila Cruzeiro, Zona Norte 23 N/D N/D 1 ano após Jacarezinho; escalada observada
Operação Contenção 28/out/2025 Penha + Alemão, Zona Norte 119+ 81 93 1 ano antes das eleições de 2026

ANÁLISE DO PADRÃO ELEITORAL

Dados históricos de anos eleitorais

  • 2014 (Eleições gerais): Operações intensivas “para garantir segurança eleitoral”
  • 2018 (Eleições + Intervenção Militar federal): Pico de operações; PM recebe controle federal
  • 2022 (Eleições gerais): Operações intensivas; clima de polarização
  • 2026 (Próximas eleições): Operação Contenção acontece exatamente 1 ano antes

O CICLO CRESCENTE DE VIOLÊNCIA

2007-2025: 707 operações policiais na RMRJ = 2.936 mortes civis (Geni/UFF)
Média: 4 mortos por operação (2007-2021)
Pico: 28 mortos por operação (2021)
Explosão: 132+ mortos por operação (2025)
TENDÊNCIA: Escalada exponencial a cada ciclo eleitoral

CONCLUSÃO

O que a comparação histórica revela:

  1. Escalada sem interrupção: A cada operação, a letalidade cresce exponencialmente, não linearmente

  2. Timing político: Operações de maior escala coincidem com anos pré-eleitorais (2014, 2018, 2022, 2026)

  3. Ineficácia comprovada: Apesar de matar 5x mais em 2025 do que em 2021, o tráfico continua crescendo

  4. Impunidade estrutural: Das 2.936 mortes em 707 operações (2007-2025), quantas resultaram em investigação real? 

  5. Demanda intacta: Nenhuma operação jamais tocou o consumo em bairros nobres — porque isso não rende manchetes nem votos

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