A campanha de Flávio Bolsonaro (PL) cometeu crime eleitoral na cara dura. A plataforma Direita Já, ligada ao PL e usada pela campanha do senador, enviou ao menos dez conteúdos desinformativos contra o presidente Lula (PT) a grupos de WhatsApp e pediu que eleitores os compartilhassem.
A divulgação de informações sabidamente falsas sobre candidatos durante a campanha é proibida pela legislação eleitoral. Não é opinião, não é “disputa de narrativa”. É crime. O artigo 323 do Código Eleitoral pune quem espalha, na propaganda ou na campanha, fatos que sabe serem inverídicos e que podem influenciar o eleitorado.
Levantamento da Agência Lupa analisou mais de 350 cards publicados na página Direita Já. Era tudo material da campanha prontos para apoiadores espalharem. O resultado é uma coleção de alegações falsas e ataques a adversários, incluindo peças que ligam Lula ao Banco Master. Um dos cards chegou a afirmar que “Lula selou Vorcaro a vender Master”.
Entre os conteúdos divulgados, tem-se o absurdo de difundir a informação de que Lula é o responsável pela chegada das bets ao Brasil! Os cassinos foram autorizados no governo golpista de Michel Temer, se espalharam loucamente com a falta de regras no “liberalismo” de Bolsonaro e ganharam regulamentação com Lula. Que depois as baniu do Brasil.
O que a campanha de Flávio Bolsonaro obviamente não incluiu na plataforma Direita Já é a informação de que ele próprio é investigado por corrupção e lavagem de dinheiro com as bets no Rio de Janeiro. O sócio e advogado dele, Willer Tomaz, move um processo na Justiça contra as plataformas alegando ter perdido R$ 163 milhões depois de ter jogado R$ 13 bilhões em apostas esportivas. Não, você não leu errado, o sócio de Flávio Bolsonaro afirma ter jogado R$ 13 bilhões nas bets (no processo, ele diz que ganhou R$ 4,8 bilhões e perdeu R$ 4,963 bilhões). É de um cinismo inacreditável.
Willer Tomaz, advogado brasiliense associado a Flávio Bolsonaro, reclama perda de mais de R$ 163 milhões em apostas, tendo apostado R$ 4,9 bilhões. PF apura corrupção, lavagem de dinheiro e associação criminosa. Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado
Mentira não é estratégia, é crime
A desinformação não foi um deslize de um militante perdido. Saiu da plataforma oficial da sigla, com pedido explícito de compartilhamento. Ou seja: a máquina do PL foi usada, de forma organizada, para enganar o eleitor. E a legislação existe justamente para impedir que a mentira decida eleição.
O professor Fernando Neisser, da Fundação Getulio Vargas (FGV-SP), lembra que multas e remoção de conteúdo podem ocorrer sem processo criminal. Mas isso não basta. A impunidade que ronda a campanha bolsonarista é o que permite que a mentira vire método.
IA sem identificação e o silêncio da assessoria
O problema não para aí. Além das mentiras, a plataforma disponibilizou mais de 140 imagens geradas por inteligência artificial. Destas, 15% saíram sem o aviso obrigatório sobre o uso da tecnologia, descumprindo as regras eleitorais. Ou seja: a campanha não só mente, como escondeu a origem das mentiras para ampliar o alcance sem deixar rastro.
A assessoria de Flávio Bolsonaro não respondeu ao contato até a publicação da reportagem. Silêncio que fala alto: quando a verdade aperta, o candidato que promete “transparência” some.
A régua que vale para um, não vale para outro
O caso escancara o que a Frente Livre denuncia há tempo: a lei eleitoral é aplicada com régua de dois pesos. Quando a esquerda informa fatos documentados e denúncias, o tribunal eleitoral pune com a censura. Quando a campanha de Flávio espalha fake news na plataforma oficial, a resposta é um encolher de ombros.
O eleitor precisa saber: no dia 4, quem votar em Flávio Bolsonaro está votando em uma campanha que mente na cara dura, usa a estrutura oficial para enganar e se recusa a explicar. A mentira tem dono, tem plataforma e tem pedido de compartilhamento. Falta só a punição que a lei exige.
