A Polícia Federal abriu investigação de lavagem de dinheiro contra Willer Tomaz — o advogado, sócio e operador financeiro de Flávio Bolsonaro — por movimentações bilionárias em apostas online. No mesmo dia em que a apuração veio a público, a Revista Fórum revelou diálogos em que Tomaz e a plataforma Blaze combinavam formas de driblar a regulamentação federal de apostas, com saques liberados sem reconhecimento facial e sugestão de apostas em criptomoedas. A PF apura a origem dos recursos em movimentações que somam R$ 13 bilhões até junho de 2026.
O processo que expõe os R$ 5 bilhões
Os números saíram de um processo que o próprio Tomaz moveu contra a Blaze na 44ª Vara Cível de São Paulo. O comprovante anual da plataforma, anexado à ação, registra R$ 4,8 bilhões em ganhos e R$ 4,963 bilhões em perdas em 2025 — prejuízo líquido de R$ 163,2 milhões. É com base nesse prejuízo que o advogado alega “vício em jogos” e pede à Justiça a devolução dos valores.
A lógica da lavagem é a clássica: a aposta mistura o recurso ilícito com o fluxo legítimo de milhares de apostadores. O dinheiro sujo entra, “aposta” e sai com aparência de movimentação lícita. Quando o volume é de bilhões, numa estrutura cujo beneficiário final está oculto, a suspeita deixa de ser teoria e vira objeto de investigação criminal — que é exatamente o que a PF abriu.
A estrutura: laranja, operador e beneficiário oculto
O mesmo círculo que a Frente Livre vem documentando desde julho aparece aqui com nome e arquitetura. Segundo a representação protocolada pelo deputado Lindbergh Farias (PT-RJ), a RioPag S.A. era controlada por Willer Tomaz “por meio de laranjas” e tinha contrato com exclusividade com a Loterj (Loteria do Estado do Rio de Janeiro) para intermediar pagamentos de apostas esportivas. Na direção de 14 empresas ligadas a Tomaz aparece Lídia Mazelli — a empregada doméstica usada como laranja, segundo a apuração.
O beneficiário final de toda a operação, segundo as informações levadas por Lindbergh às autoridades, seria Flávio Bolsonaro: “toda intermediação com as bets passava por ele”. A arquitetura é a clássica de associação criminosa — um beneficiário oculto (Flávio), um sócio formal (Tomaz) e uma laranja na administração (Mazelli) — montada para um negócio que dependia da relação com o Estado.
O elo com o Estado e o STF
O ponto que caracteriza a corrupção é o objeto da estrutura: a RioPag intermediava apostas com a Loterj, um ente público, com titularidade oculta. A representação de Lindbergh ao STF pede que se investigue o destino de R$ 20,9 milhões em recursos públicos ligados à operação. A denúncia foi além da PF e da PGR: chegou ao Supremo.
Aqui, a régua que a matéria exige: o relato aponta a intermediação com a Loterj, mas não detalha quem, dentro do governo, teria recebido o quê em troca de quê. É por isso que isso é uma investigação em curso — e não uma condenação. O que está documentado é a estrutura; o que falta confirmar é o elo interno da contrapartida e a titularidade final de Flávio.
Flávio Bolsonaro faz campanha em Sergipe, enquanto nova frente de investigação contra ele se abre em Brasília: R$ 13 bilhões em apostas sob suspeita. Foto: Vittor Sales
O que precisa ser apurado
A investigação da PF e a representação no STF precisam confirmar — e a matéria não pode cravar antes de existir:
- o registro da RioPag e quem de fato assina;
- o contrato com a Loterj e em que condições a exclusividade foi concedida;
- o vínculo real de Lídia Mazelli com Tomaz e com as 14 empresas;
- o papel de Flávio como beneficiário final — a alegação central;
- a origem e o destino dos R$ 13 bilhões movimentados.
Cada ponto é verificável. E é exatamente por isso que a investigação existe.
O que o eleitor leva para a urna
Faltam quatro dias para o voto, e o candidato que aponta o dedo para o Lulinha acumula, no próprio círculo, uma sequência que já não cabe em uma matéria só: o jatinho do banqueiro, o financiamento do filme do golpe, o lobista-geral com Rolex e caixa paralelo, orgias com garotas de programa pagas com dinheiro sujo, o lobby com o juiz da eleição — e agora uma investigação da PF por lavagem de dinheiro, com R$ 5 bi em apostas, laranjas na RioPag e uma representação no STF.
A PF investiga. O STF foi acionado. E o eleitor, em 4 de outubro, decide se um país com o histórico que o Brasil tem pode se dar ao luxo de colocar no Planalto um homem cujo operador financeiro está sob investigação por lavagem — com a laranja, o contrato público e o beneficiário final já desenhados na denúncia.
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