Ele passa todo santo dia apontando o dedo para o filho do presidente. “Quem deve explicações não sou eu, é o Lulinha”, repete Flávio Bolsonaro sempre que é confrontado com o caso Dark Horse — aquele em que o dinheiro sujo da corrupção do Banco Master saiu do Brasil para pagar as despesas do filme do golpe, e em que ele próprio foi flagrado cobrando a grana de Daniel Vorcaro, não sem antes negar, às gargalhadas, que o fizera.
Pois bem. Nesta segunda (29), o PlatôBR revelou a primeira camada do verniz que o candidato tenta manter intacto: Flávio Bolsonaro foi o lobista-geral da República durante o governo do pai. O resolvedor-geral de Brasília — a pessoa a se procurar para destravar o que fosse, em ministérios, na CVM, no Cade, nos tribunais. E a vida que esse cargo lhe rendeu é exatamente o oposto do código moral que ele professa em praça pública.
A fé é cenário. A vida é outra. E agora os dois se encontraram na reta final da eleição.
O resolvedor-geral
O retrato que a reportagem desenha é o de um homem que transformou o parentesco com o então presidente em empresa. Amigos do Rio montaram um bunker de lobby no Lago Sul de Brasília — uma casa alugada onde se recebia gente, se marcava reuniões e se resolvia problemas no governo. Um deles foi preso em 2020 no “QG da Propina” de Crivella; o outro, o advogado Alan Belaciano, chegou a ser detido por se apresentar como juiz. Flávio frequentava a casa. Belaciano o socorria nas horas vagas.
E o socorro tinha preço de luxo. Em 10 de fevereiro de 2022, o advogado comprou um Rolex Submariner Date em ouro branco por R$ 305 mil — nota fiscal em nome dele, destino: o pulso do filho 01. Os registros guardados por quem acompanhou tudo de perto apontam o mesmo padrão já conhecido das rachadinhas: equipamentos de academia para a casa de R$ 5,9 milhões de Flávio, com notas que passaram de R$ 90 mil, TV de 75 polegadas, mensalidades de academia de luxo — tudo pago pelos “amigos”.
Quando as notas vieram a público, Flávio disse que um “amigo de longa data” tinha comprado os equipamentos a título de “empréstimo pessoal”. O empréstimo que nunca acaba, o amigo que nunca cobra e o lobista que nunca explica.
O amigo que guardava os segredos
O homem que administrava esse caixa paralelo chamava-se Alexandre Santini. Sócio e amigo de Flávio desde o início dos anos 2000, ele se mudou para Brasília no meio do governo Bolsonaro e virou uma espécie de controlador das finanças não declaradas do candidato. Há pouco mais de três anos, sentindo-se abandonado e sem dinheiro, Santini rompeu com Flávio e deflagrou uma cruzada: queria o “acerto de contas”. E tinha com o que cobrar.
Nos arquivos dele estavam imagens íntimas de encontros com garotas de programa — das que ele e Flávio costumavam contratar. Quando a cobrança chegou, a mulher de Flávio, Fernanda, tentou costurar um acordo. O escritório de Willer Tomaz — o onipresente, preso no caso JBS, investigado no INSS, sócio do jatinho que levou a família Bolsonaro — entrou para mediar em 2023. Flávio tentou comprar o silêncio com acertos e promessas. Santini ensaiava levar o que sabia aos órgãos de investigação.
“Erros que eu cometi”
E é aqui que a história perde a capa da negociação e vira documento. Num dos momentos mais duros da briga, o próprio Flávio escreveu a Santini uma mensagem em que admitia ter cometido erros dos quais se arrependia. A resposta do ex-sócio ficou registrada: “Flávio, você tem noção do que você escreveu, e para quem escreveu? Acredito que tenha mandado para a pessoa errada.”

Imagem: Reprodução PlatôBR
Não precisamos ver as imagens para saber o que houve. O candidato, quando pressionado, admitiu por escrito. Quantos moralistas em campanha conseguem isso — a confissão no próprio punho, enviada à pessoa errada, no momento errado?
E agora repare no calendário. Este mesmo Flávio, no fim de semana passado, acusou “gente de dentro da CNBB” de ajudar o PT a espalhar fake news, sem apresentar nomes nem provas. A CNBB respondeu com a frase que virou síntese: “A mentira não se combate com outra mentira.” Dias antes, o candidato tinha atacado a conferência episcopal. Depois, para limpar a barra com os católicos, ergueu a imagem de Nossa Senhora Aparecida ao lado de Tarcísio de Freitas — e enfureceu os evangélicos, a base que o sustenta. A cena virou a terceira maior controvérsia política do ano. Aliados classificaram a reação como “desastrosa”. O bispo dom Roberto Francisco Ferreira Paz cobrou explicações sobre a promessa de decretar que o Brasil pertence a Jesus — “uma decisão perigosa”, disse, “porque envolve todas as outras religiões”.
O candidato que promete entregar o país a Jesus, que ergue a santa para a foto, que ataca bispos e que prega o código moral da família é o mesmo homem do caixa paralelo, do Rolex de R$ 305 mil e das orgias bancadas, registrado nos arquivos do próprio sócio e confessado por escrito. A fé, para Flávio, é cenário de campanha — o eleitor católico e o evangélico estão vendo o malabarismo.
O segredo que fez o candidato sentar
E o último nó da reportagem é o que amarra essa história ao nosso dossiê. Quando as ameaças de Santini esbarraram no tema que Flávio mais temia, o jogo mudou de patamar. No fim do ano, perto do Natal, o ex-sócio mandou nova mensagem: disse que sabia que Flávio havia tratado diretamente com o ministro Kassio Nunes Marques — o presidente do TSE, o árbitro da eleição — sobre os interesses de um cliente, em caso tocado por Belaciano, com jantar marcado na casa e participação do chefe de gabinete do ministro.
A resposta de Flávio foi imediata: “Terça às 15:00 no meu gabinete ok.”

Imagem: Reprodução PlatôBR
O homem que vinha arrastando a negociação há meses sentou na hora. O assunto que o fez parar tudo e abrir o gabinete foi o juiz da eleição. É relato de quem participou da história — mas a reação, essa é verificável, registrada e pública pela reportagem. E o desfecho diz tudo: a guerra “se resolveu”. Santini hoje faz campanha para Flávio. “Sou e sempre serei FLAVIO BOLSONARO.”
O acusador que ameaçava levar os segredos aos órgãos de investigação virou cabo eleitoral. O segredo era tão potente que valia comprar o silêncio — e o silêncio foi comprado. Em Brasília, ameaças funcionam.
O que o eleitor decide em cinco dias
Junte tudo e olhe para a urna de 4 de outubro. O candidato que aponta o dedo para o Lulinha tem confissão por escrito de “erros” numa vida de orgias e dinheiro não declarado. O candidato que se vende como defensor da fé ataca os bispos, briga com os evangélicos, faz da santa um adereço de campanha e tem no currículo o estilo de vida que o código que prega condena. O candidato que promete “limpar o Brasil” é o lobista-geral que cobrava o financiador do filme do golpe, voava no jatinho do banqueiro e tratava diretamente com o juiz que vai validar a própria eleição.
E quando alguém pergunta sobre isso, ele aponta o dedo para o Lulinha. Não por acaso: é o único movimento que sobrou para quem passou a vida guardando os próprios segredos na casa alheia.
O verniz rachou. A primeira camada está à mostra. E faltam cinco dias para o dono dos segredos pedir o seu voto.
