A saga de Flávio Bolsonaro (PL) com a fé brasileira virou um festival de tiro no pé. Depois de atacar a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) sem apresentar provas, o candidato foi filmado erguendo uma imagem de Nossa Senhora Aparecida ao lado do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (veja vídeo abaixo). O gesto, que pretendia agradar o eleitorado católico, pegou mal justamente entre os evangélicos — a base que o sustenta.
Para esse eleitorado, a exibição de uma imagem de santo entra em choque direto com as convicções religiosas. O jornalista Valdo Cruz, na GloboNews, resumiu o estrago: “A imagem de Flávio segurando Nossa Senhora Aparecida, para o grupo evangélico… Tem uma ala que condena totalmente qualquer tipo de imagem de santo. Isso é muito forte”. O gesto aconteceu um fim de semana depois de ataques à santa — e virou a terceira maior controvérsia política de 2026 nas redes sociais.
Caiu como uma bomba entre os evangélicos a cena de Flávio Bolsonaro segurando Nossa Senhora Aparecida ao lado de Tarcísio, após um fim de semana de ataques à santa. Na GloboNews, já falam em possível estrago eleitoral. https://t.co/IG3KmqvFk1
— Bruno Guzzo® (@brunoguzzo) September 28, 2026
O ataque aos bispos
No domingo (27), durante uma carreata em Goiânia, Flávio acusou “gente de dentro da CNBB” de “ajudar o PT” a espalhar a informação de que ele retiraria de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. “O PT, eu sei hoje, já estava havia alguns dias tentando levantar essa fake news, conseguiu com a ajuda de gente de dentro da CNBB, infelizmente essa realidade”, disse. Não apresentou nomes nem provas.
A CNBB respondeu com nota oficial, divulgada pela Agência Brasil: “A CNBB não produziu, autorizou ou participou da elaboração ou divulgação de informações falsas relacionadas ao atual processo eleitoral”. A entidade afirmou que “repudia a produção e a utilização de informações falsas, independentemente de sua origem” e que “não integra qualquer estrutura político-partidária”. A nota terminou com a frase que virou síntese do caso:
“A mentira não se combate com outra mentira”.
A reação ‘desastrosa’ e o bispo que cobra
Nem os aliados de Flávio salvaram a jogada. Pessoas próximas ao candidato classificaram a reação dele à crise como “desastrosa”, segundo a CNN Brasil, e disseram que a menção à CNBB “não constava na estratégia inicial de resposta” — atribuída ao desgaste pela pressão do caso, a poucos dias do primeiro turno.
O bispo dom Roberto Francisco Ferreira Paz, da Diocese de Campos (RJ), foi além e cobrou explicações sobre outra promessa: decretar que o Brasil pertence a Jesus Cristo. “O candidato disse que este será o seu primeiro ato de governo. É uma decisão perigosa porque envolve todas as outras religiões”, afirmou à Folha. A assessoria de Flávio respondeu que, na eventualidade de ele ser eleito, faria uma oração antes de ler o termo de posse, “entregando o Brasil nas mãos de Jesus”. No vídeo publicado nas redes sociais, entretanto, o neofascista evangélico é bem claro: avisou que decretará a “entrega” do Brasil a Jesus.
A refrega dos evangélicos com os católicos não é branda. Nos templos, nas TVs, nas rádios, pastores e bispos das igrejas neopentecostais falam abertamente contra a Igreja Católica, seus santos e dogmas.
O monitoramento de 7 anos
A preocupação da cúpula católica não é de agora. A Igreja Católica no Brasil monitora há sete anos ataques à devoção a Nossa Senhora Aparecida e tentativas de deslegitimar imagens católicas. A fala de Flávio sobre “O Brasil é do Senhor Jesus” foi lida à luz de documentos que discutem o apagamento de imagens, a erosão da laicidade do Estado e a concentração de poder.
E o próprio campo do candidato deixou o projeto documentado. No livro “A Bomba”, publicado em 2001, o pastor de Flávio, JB Carvalho, escreve que “a lei que estabelece Aparecida como padroeira no Brasil é ilegal” e que “está na hora de destronarmos a Rainha em nossa nação”. O pastor que queria destronar a santa agora tem o candidato erguendo a imagem dela para a foto. A fé, para Flávio, é cenário de campanha — e o eleitor católico e o evangélico estão vendo o malabarismo.
