Nesta segunda-feira (28), o ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal (STF), suspendeu os efeitos da decisão de Flávio Dino que havia derrubado a ordem do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contra publicações sobre Nossa Senhora Aparecida e Flávio Bolsonaro. Traduzindo: a censura voltou. E, com ela, o balé de togas que transforma a campanha eleitoral em roleta-russa.
A cronologia é digna de parque de diversões. Na sexta-feira (25), André Mendonça, vice-presidente do TSE, mandou apagar a publicação do humorista Antonio Tabet sobre a “família miliciana”. No domingo (27), Dino derrubou a censura, e Tabet republicou a crítica. Na segunda (28), Fux suspendeu a decisão do colega e mandou as plataformas voltarem a cumprir a ordem. Três decisões, dois dias, uma santa calada.
Postagem de Antonio Tabet no X que já foi censurada, liberada e recensurada. Foto: Reprodução
O ministro que a direita ama
Para quem ainda se espanta, vale o histórico. Fux é o mesmo de 2016, quando Sérgio Moro digitou para Deltan Dallagnol a mensagem que virou lenda: “In Fux we trust”. Na Lava Jato, o ministro era o escudo de Curitiba. Anos depois, virou a tábua do bolsonarismo: foi o único voto pela absolvição de Jair Bolsonaro no julgamento da tentativa de golpe. A reação veio do decano Gilmar Mendes, que classificou o voto como “prenhe de incoerências” e apontou a contradição nos próprios termos: condenar Mauro Cid e Braga Netto e absolver os demais.
Foi também de Fux a tese de que o STF seria “incompetente” para julgar os golpistas porque os réus “não têm prerrogativa de foro” — o mesmo argumento importado de Donald Trump, comemorado pelo bolsonarismo como verniz de “perseguição”. A festa da direita, o vexame da corte.
O filho, o irmão e o tapete vermelho
E então chegamos ao elo doméstico. O filho do ministro, o advogado Rodrigo Fux, trocou mensagens por mais de um ano — de maio de 2024 a agosto de 2025 — com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, preso e acusado de não só comandar a maior fraude bancária da história do Brasil, em associação com figurões do Centrão e da direita, sobretudo Flávio Bolsonaro, e, entre outras coisas, quebrar o Banco de Brasília (BRB) falsificando mais de R$ 17,5 bilhões em títulos podres.
Nas conversas obtidas pela Polícia Federal, Rodrigo chama o banqueiro de “irmão”, oferece “tapete vermelho”, marca almoço em Nova York, ganha camarote na Sapucaí e é procurado para “ajudar num caso” — um recurso ligado a um precatório bilionário de cerca de R$ 5 bilhões.
“E para a Patrícia. Secretária do meu pai”
O detalhe que amarra tudo veio à tona nas mensagens de 12 de março de 2025, horas depois de uma reunião na casa de Vorcaro no Lago Sul, em Brasília. “Qual a data de Londres mesmo?”, pergunta Rodrigo. “Pede pra mandarem o e-mail para”, escreve, e completa: “fux@fux.com.br. Esse é o meu”. E emenda: “E para a Patrícia. Secretária do meu pai. Com cópia pra mim”. O endereço indicado, “patriciaan@stf.jus.br”, pertence ao domínio institucional do Supremo. “Vou pedir!”, responde o banqueiro.
O contexto, segundo o Metrópoles: a provável explicação era o Fórum Jurídico que o banco preparava em Londres para reunir ministros do tribunal. O diálogo não esclarece o teor do e-mail nem registra que ele tenha sido enviado. Mas o filho do ministro abrindo o canal do gabinete do pai ao dono do banco que quebrou o BRB não é detalhe — é o retrato.
Luiz Fux nega: “Mensagem comigo não tem”. Rodrigo nega ter advogado para o banqueiro. A Ordem dos Advogados do Brasil do Rio de Janeiro correu em defesa do filho. A cronologia, porém, não precisa de delação: a mão que censura a santa pertence à mesma casa que recebia o banqueiro com tapete vermelho e o endereço da secretária na bagagem. In Fux we trust — na santa, na censura e no Master.
