Gayer abriu mão do fundo, não do dinheiro sujo

"Caçador de corruptos" é financiado por denunciado de roubar dinheiro de prefeitura no PA

Por Frente Livre
doação suspeita a Gayer
Gustavo Gayer (PL-GO) foi condenado pelo TJDFT. Foto: Lula Marques/Agência Brasil

Bolsonarista raiz, do tipo truculento, boquirroto e meio burro, o deputado federal Gustavo Gayer (PL), candidato ao Senado por Goiás, recebeu sete doações de campanha que somam mais de R$ 417 mil do empresário Rodrigo Gonçalves dos Santos, denunciado pelo Ministério Público do Pará (MPPA) sob a acusação de fraudar licitações milionárias, informa reportagem do site Intecept Brasil publicada nesta quarta (30). A pena máxima para os crimes apontados chega a oito anos de prisão. As transferências via Pix, de R$ 20 mil a R$ 100 mil, foram feitas entre o fim de agosto e o início de setembro e declaradas ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Até 29 de setembro, Santos era o maior doador individual da campanha — e cerca de 22% de toda a arrecadação do candidato saiu do bolso dele.

A ironia começa aqui. Gayer propagandeia que “abriu mão de milhões do fundo eleitoral” e que, em 2022, “fez uma das campanhas mais baratas do Brasil sem usar nada de dinheiro público, decisão que estenderá à campanha de senador”. O rigor com o dinheiro público, aparentemente, não é tão rigoroso assim. Pois o dinheiro “privado” que paga as contas da campanha vem, suspostamente, dos cofres públicos fraudados em Canaã dos Carajás — cidade de 80 mil habitantes, quase 800 quilômetros distante de Belém, rica em minério, explorado por grandes multinacionais.

Na eleição de Goiás, Gayer está empatado em segundo lugar com o deputado Doutor Zacharias (MDB), um médico renomado, de atuação moderada de centro-direita, uma das maiores autoridades no tema saúde no Congresso Nacional. Muito a frente dos dois, liderando as pesquisas, está Gracinha Caiado, esposa de Ronaldo Caiado.

O esquema de Canaã dos Carajás

A denúncia do MPPA, apresentada em 11 de abril de 2025, descreve um esquema de loteamento de contratos públicos em Canaã dos Carajás (PA), que detém uma das maiores arrecadações do estado: mais de R$ 2 bilhões em receitas em 2025. Terreno fértil para negócios escuros.

Segundo os investigadores, as propinas eram alinhadas entre 6% e 10% do valor dos contratos. Só em fevereiro de 2024, um documento apreendido indica que Santos teria pago R$ 897 mil em propinas. O esquema tinha dois braços na prefeitura: o ex-pregoeiro inabilitava concorrentes ou comprava desistências por valores entre R$ 20 mil e R$ 200 mil, e o ex-secretário controlava o fluxo de propinas.

As duas empreiteiras de Santos — RGS Engenharia e Gonçalves & Dias Engenharia — faturaram cinco contratos sob suspeita, somando quase R$ 83 milhões, incluindo um parque de exposições e obras de pavimentação e drenagem.

Interceptações telefônicas flagraram ainda a violação do sigilo da licitação: Santos avisou ao ex-pregoeiro que apresentaria proposta com 20% de desconto em um certame, permitindo que outro integrante do esquema ajustasse a sua. A fraude foi confirmada pelos investigadores.

Do Pará aos cofres federais

O conglomerado do empresário, que mora em Canaã dos Carajás, se estende por Goiás, Rondônia, Acre, Maranhão e Distrito Federal. A Gonçalves & Dias Engenharia, citada na investigação do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do MPPA, acumula quase R$ 6,5 milhões vindos de emendas parlamentares — incluindo as emendas de relator, o famigerado “orçamento secreto”. A maior parte saiu do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) para pavimentar vias em Ji-Paraná (RO).

O Portal da Transparência mostra outros contratos: três ativos e três encerrados neste ano com o governo federal, somando mais de R$ 370 milhões com o DNIT e com a Universidade de Brasília (UnB). O interesse por Goiás — o estado que Gayer quer representar — também é financeiro: no fim de 2025, a Gonçalves & Dias tentou um contrato milionário em Goiânia, foi uma das propostas mais vantajosas e acabou inabilitada por falhas de documentação.

O processo que pode morrer na gaveta

Há um detalhe que Gayer adora chamar de “fato judicial decisivo”. Em 12 de junho de 2026, o ministro Reynaldo Soares da Fonseca, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), trancou o processo contra Santos em decisão monocrática, acolhendo alegação de violação ao princípio do promotor natural. O MPPA e o Ministério Público Federal (MPF) recorrem; o Conselho Nacional de Procuradores-Gerais (CNPG) endossou o recurso. Fonseca chegou a pautar o caso duas vezes, mas retirou a análise da fila. O STJ esclareceu que a anulação não transitou em julgado.

O outro lado

A defesa de Santos classificou as acusações como “completamente improcedentes” e afirmou que o empresário “não deve nada à Justiça”. Sobre as doações a Gayer, alegou “alinhamento político-ideológico” e negou vínculos comerciais. Os advogados do candidato chamaram a decisão do STJ de “fato judicial decisivo”, negaram proximidade pessoal entre Gayer e Santos e afirmaram que o político desconhecia o interesse da empresa em Goiás. A defesa de Gayer encerrou com uma pérola: não vê incompatibilidade entre combater o crime organizado e aceitar dinheiro de quem o Ministério Público acusa de comandar um esquema criminoso.

A prefeitura de Canaã dos Carajás diz que é “vítima do esquema”. O DNIT e o Ministério dos Transportes afirmam não ter registros de irregularidades. O Ministério da Educação informou não ter contrato com a empresa — a UnB, silêncio.

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