Ele estava em Manaus, diante de uma fábrica de motocicletas, quando resolveu posar de vítima da própria Justiça. A frase saiu com a entonação de quem não tem nada a esconder: “Eu peço ao ministro André Mendonça: abra o sigilo, o sigilo de tudo, mostra tudo para o povo, que merece saber e diferenciar quem tá certo, que é o meu caso; de quem tá errado, que é o caso do governo.”
Bela cena. Só que o roteiro não se sustenta. Porque o homem que agora exige que o país veja tudo é o mesmo que passou a reta final da campanha inteira escondido — não por acaso, mas por gaveta. E a gaveta, essa, ele ajudou a trancar.
Vamos à cronologia, porque cronologia é a única testemunha que não mente.
Na quinta-feira, 10 de setembro, André Mendonça — o relator amigo, o mesmo que afastou o diretor da Polícia Federal, o mesmo que engavetou o caso por 75 dias — retira o sigilo de parte das apurações do Banco Master. E deixa de fora, entre 180 documentos e arquivos digitais, justamente os procedimentos do “Dark Horse”, a cinebiografia do pai do candidato. O caso dele. O caso que ele não quer que você veja. Moraes chamou a manobra de seletiva. A PGR avisou que divulgação parcial transmite “ideia equivocada de transparência”. A cortina estava armada, e o nome protegido por trás dela era o dele.
Na sexta-feira, 11 de setembro, o presidente do STF, Edson Fachin, manda Mendonça tirar o sigilo de tudo, em até 24 horas. A gaveta abre. Não por gesto de grandeza — por ordem. A porta cai.
E é nesse instante exato — reparem, nesse instante — que o investigado resolve gritar por transparência.
Entendam o que acabou de acontecer. Ele não pediu abertura do caso quando o caso estava trancado. Não pediu quando dependia da boa vontade do relator. Pediu no dia em que a abertura já estava decretada, quando não havia mais nada a perder com o gesto. O grito não veio antes da porta cair. Veio depois, com a porta já no chão, para transformar a derrota em performance. Isso não é transparência. Isso é coreografia de quem tenta salvar a própria imagem do naufrágio.
E o que ele quer que você veja, quando a gaveta abrir? Vamos lembrar o que há dentro. Flávio é formalmente investigado por suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção no financiamento do filme sobre o pai. A Polícia Federal suspeita que parte dos recursos nem chegou à obra. Nas conversas divulgadas pelo Intercept, o senador pede dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro. Vorcaro teria destinado R$ 61 milhões ao filme por um fundo nos Estados Unidos — e discutido outro repasse de US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões.
R$ 61 milhões. Para um filme. Atravessando um fundo no exterior. E a PF quer saber se esse dinheiro viu um estúdio de cinema ou se viu outra coisa qualquer.
Se é tudo “patrocínio privado”, como ele jura na fábrica de motocicletas, por que o dinheiro precisou de um fundo nos Estados Unidos? Por que a produção dependeu de um banqueiro que, como o Frente Livre já mostrou, cobrava 10% de tudo o que o dinheiro público investia no Master? Por que o mesmo Vorcaro que aparece no Dark Horse é o mesmo que aparece no Rioprevidência, no Amapá, no Amazonas, na Cedae?
Não é pergunta de campanha. É pergunta de auditoria. E é exatamente essa auditoria que ele tenta dirigir agora, escolhendo o ângulo do facho, o momento da luz, o palco do grito.
Porque “transparência”, na boca dele, sempre foi seletiva. Transparência para o INSS, para o Banco Master, para o “caso do governo”, como ele mesmo disse — para tudo que não é dele. Mas quando o nome na gaveta é o seu, transparência vira o que sempre foi antes desta semana: um risco a ser administrado com sigilo, com relatoria amiga, com 75 dias de paralisação, com o silêncio de quem torce para a eleição chegar antes da verdade.
E chegou. Faltam 23 dias. A gaveta abriu. E agora o investigado quer que você acredite que ele sempre quis que ela abrisse.
Não acredite. Acredite na cronologia. Acredite nos 180 documentos que ele deixou trancados enquanto pôde. Acredite no silêncio de 30 dias. Acredite no grito que só veio quando a porta já tinha caído.
“Mostra tudo pro povo”, Flávio? Mostra. Mas mostra de verdade — os 180 documentos, as mensagens, os R$ 61 milhões, o fundo nos Estados Unidos, o que saiu do filme e o que não saiu. E mostra antes de 4 de outubro, porque transparência, para valer, não é grito: é leitura. E leitura exige tempo.
O povo está esperando. Não na frente da fábrica de motocicletas, com a plateia combinada. Está na frente da urna, de olhos abertos, querendo ver tudo antes de decidir.
Mostra tudo, então. Mas mostra de um jeito que dê tempo de ler. Porque o grito de transparência soltado uma sexta-feira, com a gaveta já arrombada na véspera, não é coragem. É confissão disfarçada de espetáculo.
E o povo, esse, já aprendeu a desconfiar de quem dança em cima da própria cova.
