Na manhã de quarta-feira (30), a advogada Nadia Beller — a mulher que levou três tiros mandados pelo ex-companheiro e sobreviveu para contar — divulgou três fotografias que valiam por um dossiê inteiro: Fernando Cerimedo ao lado de Donald Trump Jr., filho do presidente dos Estados Unidos, de Brad Parscale, o ex-chefe de campanha de Trump, e de Andy Rivas. A pergunta que ela fez na legenda valia mais que a imagem: o veto americano ao procurador-geral da Bolívia seria uma forma de “proteger a rede MAGA”?
À noite, no mesmo dia, a resposta veio em tempo real. A polícia boliviana prendeu Roger Mariaca, o procurador-geral do Estado — o homem que conduzia a investigação contra Cerimedo — no Aeroporto Internacional de Viru Viru, em Santa Cruz. A própria Procuradoria-Geral da Bolívia classificou a operação, ao vivo, como “sequestro” e “violação de direitos humanos”. Dois dias antes, o Departamento de Estado americano tinha cassado o visto de Mariaca, acusando-o, sem apresentar nem um arremedo de indício, quanto mais de provas públicas, de corrupção e vínculo com o narcotráfico.
O filho do imperador aparece na foto. O procurador que ia atrás do homem da foto some. Não é literatura: é sequência cronológica.
O procurador que não recuava
Mariaca não era um burocrata qualquer. Eleito para um mandato de seis anos, como prevê a Constituição boliviana, chefiou um Ministério Público que incomodava “dentro e fora do país”. Quando Washington cassou seu visto, na segunda (28), ele reagiu publicamente: chamou a medida de “interferência” e “pressão política”, ligou-a diretamente ao caso Cerimedo e garantiu que não recuaria “nem um centímetro”. O Congresso boliviano chegou a pedir explicações ao governo americano.
Dois dias depois, o homem que não recuava estava algemado no aeroporto, ao lado do procurador departamental de Santa Cruz, Alberto Zeballos. A operação varreu o Ministério Público em Sucre e Santa Cruz, buscou a residência de Mariaca e prendeu integrantes do órgão, agentes policiais e até o ex-ministro do Governo Eduardo del Castillo. No comando, interinos escolhidos na pressa: Luis Montaño na Procuradoria-Geral, Mabel Andrade em Santa Cruz.
Ou seja: no lugar de quem investigava a rede, entraram nomes de confiança do governo. Governo que é capacho de Trump, diga-se. O caso Cerimedo ficou órfão.
O caso que eles queriam enterrar
Para entender o tamanho do que foi soterrado, é preciso lembrar quem é Fernando Cerimedo. O “Steve Bannon latino”, como o chamou o Intercept: estrategista digital de Javier Milei, agitador da tentativa de golpe de 8 de janeiro no Brasil, indiciado pela Polícia Federal em 2024 no inquérito do golpe — e poupado pela PGR. Nos últimos meses, ele era o guru de Eduardo e Flávio Bolsonaro, alimentando a tese de fraude nas urnas “para Flávio”.
O trabalho dele era fabricar um fenômeno conhecido como dissonância cognitiva. Que é a síndrome de perda do senso crítico e de interpretação da realidade para um grupo grande de pessoas. Isso é feito pelas redes sociais, por meio de bots, os robôs programados com inteligência artificial. Esses bots são instalados em centenas de milhares de telefones celulares que ficam 24h por dia difundindo teorias da conspiração, fazendo comentários de apoio em posts com conteúdo fascista ou de repulsa a conteúdo progressista. Nadia Beller disse haver uma “granja” grande desses bots na Bolívia. E uma imensa, muito maior, em Buenos Aires — Javier Milei foi eleito com a ajuda frenética desses bots.
E, na Bolívia, Cerimedo era mais que assessor. Preso em 18 de agosto no mesmo aeroporto de Viru Viru tentando embarcar para Buenos Aires com uma pasta cheia de dinheiro, ele acumulava cinco processos — de tentativa de feminicídio contra Beller a enriquecimento ilícito e tráfico de drogas. A ex-companheira, que levou três tiros por encomenda, entregou à Justiça a frase que virou retrato: “Rodrigo Paz não governa a Bolívia. Quem governa é Cerimedo” — confirmada pelo próprio vice-presidente boliviano, que admitiu que o argentino “tinha poder e tomava decisões no governo”, sem integrar a estrutura oficial, pago com “recursos externos” por meio de contratos com grandes empresas.
E há a frase que sacode o continente, atribuída a Cerimedo: “Si hablo, caen 8 gobiernos” — “se eu falar, caem oito governos”: Argentina, Chile, Honduras, Colômbia, El Salvador, Peru, Bolívia e Paraguai na lista.
Um homem que diz ter material para derrubar oito governos. Um procurador que insistia em ouvi-lo. Uma foto com o filho do imperador e o arquiteto da campanha de Trump. E um governo que recolocou a Bolívia de volta nos “braços de Washington”. O resto é cronologia.
View this post on Instagram
A versão oficial: citada e esvaziada
Claro, existe a outra narrativa — e ela precisa ser dita para ser destruída com honestidade. O governo de Rodrigo Paz, pela boca do ministro Marco Antonio Oviedo, afirma ter “desmontado uma organização criminosa chefiada por Mariaca” que “protegia e incentivava o narcoterrorismo”. Horas antes da prisão, circularam gravações do narcotraficante Sebastián Marset — capturado em março, foragido desde 2023 e extraditado para os Estados Unidos — acusando Mariaca de ser seu “amigo”, de avisá-lo “o que tinha que avisar” e de ter recebido US$ 500 mil por proteção.
Agora repare na espuma dessa versão. A acusação contra Mariaca vem de (a) um narcotraficante extraditado para os Estados Unidos e (b) um governo que Washington recolocou no poder depois de 20 anos de esquerda. São os mesmos Estados Unidos que, em maio, classificaram os protestos contra Paz — os que deixaram mercados vazios e três mortos — como “golpe de Estado financiado pelo crime”, e que em junho prometeram defender Paz contra “narcoterroristas”. Quem pinta o quadro do crime, neste caso, costuma estar segurando o pincel. E há um detalhe que a versão oficial não explica: no próprio dia da prisão, o Ministério Público boliviano rejeitou como “não correspondente à verdade” a acusação de que Mariaca teria se reunido com Marset antes da extradição.
Some a conta: o único procurador que disse que não recuaria “nem um centímetro” caiu 48 horas depois de o Departamento de Estado tirar seu visto, na mesma noite em que a foto com o filho de Trump veio a público. A coincidência, na Bolívia, deixou de ser teoria: Evo Morales diz estar “convencidíssimo” de que a DEA participou da operação; Gustavo Petro, ex-presidente da Colômbia que saiu denunciando fraude digital na apuração que levou outro capacho de Trump à presidência, declarou que “na Bolívia há um golpe de Estado contra a democracia”.
View this post on Instagram
O elo brasileiro: por que isso é matéria nossa
Agora traga a lente para o Brasil, porque é aqui que o caso deixa de ser boliviano. Cerimedo é o guru dos irmãos Bolsonaro: dois dias depois de Flávio repetir o pai na reunião com embaixadores espalhando desinformação sobre as urnas, Eduardo fez uma live com o argentino. Ele foi indiciado pela PF pelo golpe de 2022 e escapou por decisão da PGR. Ele comandava milícias digitais que trabalharam nas eleições brasileiras, chilenas, colombianas, peruanas — e a frase “caen 8 gobiernos” sugere que sabe onde está o esqueleto de cada país.
E a pergunta que o Intercept e a Frente Livre vêm fazendo segue sem resposta: os serviços de Cerimedo aos Bolsonaro seriam pagos com o fundo Havengate — aquele criado pelo advogado de Eduardo nos Estados Unidos, usado para receber os milhões de Daniel Vorcaro supostamente destinados ao “Dark Horse”? O homem que cobrava o financiador do filme do pai, que tratava com o juiz da eleição, que voava no jatinho do banqueiro — e cujo guru argentino agora é protegido por um veto de Washington, enquanto o procurador que o investigava vai para a cadeia. O círculo não é brasileiro nem boliviano. O círculo é continental.
A cortina em torno do Brasil
Junte a semana inteira, porque ela forma um padrão que não cabe em coincidência: a Meta desligou a conta de anúncios de Lula a 10 dias do voto. O X calou a CNBB quando os bispos defenderam soberania. As contas MAGA anunciaram que “vitória de Flávio é vitória dos EUA”, no mesmo dia em que o New York Times documentou o controle americano sobre o ouro da Venezuela. O árbitro da eleição apareceu no celular do banqueiro do golpe. E agora, a dois dias da nossa urna — a menos de 1.000 quilômetros de distância, o procurador que ousou investigar o guru do clã foi derrubado por uma engrenagem que começa no Departamento de Estado e termina num aeroporto de Santa Cruz.
Trump não está apenas tentando eleger um candidato no Brasil. Ele está erguendo uma cortina neofascista em torno do país — o mesmo esquema que fraudou eleições no continente, do “Si hablo, caen 8 gobiernos” à bolsa de apostas ilegal vendida como pesquisa, do algoritmo que esconde a esquerda ao procurador que desaparece. A mensagem da quarta-feira, da foto com o filho do imperador à prisão em Viru Viru, é uma só: quem investigar a rede, cai. Quem falar, derruba oito governos.
Os neofascistas não escondem mais nada: exibem. O filho do imperador posa para a foto com o homem que afirma poder abalar oito países. E o Brasil vota no domingo — três dias depois de ver, em tempo real, o que acontece com quem tenta fazer justiça num continente que Washington trata como quintal.
Se o árbitro, o algoritmo e o procurador caem na mesma semana, a pergunta que fica na mesa é simples: quem garante que a urna de domingo está fora da foto?
View this post on Instagram
