O Brasil está sob ataque de um supersurto neofascista — e ele não vem apenas das ruas. Vem do feed. Das recomendações. Do algoritmo que decide, em silêncio, o que o eleitor vai ler, ver e odiar antes de votar. Em plena campanha de 2026, a violência política deixou de ser ameaça retórica e virou método: candidatas de esquerda são ameaçadas de estupro, estupro corretivo e esquartejamento; uma deputada federal mulher trans socialista sofreu tentativa de homicídio; patrões bolsonaristas ameaçam demitir empregados que votarem no presidente Luiz Inácio Lula da Silva. E, por baixo de tudo, as plataformas digitais injetam essa violência na veia do povo brasileiro — escondendo o conteúdo de esquerda e hiperexibindo o de direita.
Não é exatamente um método novo. Foi usado em todas as eleições da América Latina nos últimos anos. Agora chegou ao Brasil, com reforço estrangeiro confessado e fazendas de robôs apontadas por uma sobrevivente de tentativa de feminicídio — tomou três tiros, mas está viva e disposta a contar o que sabe. É hora de acordar.
A violência que virou método
A escalada é documental. A deputada federal Natália Bonavides (PT-RN), candidata à reeleição, recebeu um e-mail com ameaças de estupro e esquartejamento, além de CPFs e endereços de parentes.
“Receber uma ameaça de estupro e esquartejamento, com detalhes de como esses crimes seriam cometidos, já seria algo de extrema gravidade. Mas essa mensagem foi além”, declarou.

Deputada Natália Bonavides (PT-RN) ameaçada de estupro e esquartejamento durante campanha no Rio Grande do Norte. Foto: Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados
A vereadora de Natal e candidata a deputada federal Brisa Bracchi (PT) recebeu ameaças de morte e estupro corretivo, com data marcada para a execução e transmissão ao vivo anunciada. “Eles verão exatamente por que homens são criaturas superiores destinadas a governar enquanto mulheres servem apenas como estoque de reprodução”, dizia um dos textos.
Em Minas Gerais, a deputada federal Duda Salabert (PSOL-MG), que já passou o mandato inteiro combatendo perseguição homofóbica por ser uma mulher trans, sofreu tentativa de homicídio na madrugada do dia 4, na Serra do Curral, ao fiscalizar extração ilegal de minério. Cercada por três homens, ouviu “Nós vamos te matar”. “Naquele momento, eu falei: ‘Eu vou morrer, vou morrer'”, relatou.
A influencer e candidata a deputada federal pelo Partido dos Trabalhadores em Minas Gerais, Ana Elisa Santos Silva, de 21 anos, recebeu ameaças racistas de morte e estupro de um grupo que se apresentou como supremacista branco, com dados pessoais e ameaças à família.
O cerco não fica só na internet. O Ministério Público do Trabalho já soma 223 denúncias de assédio eleitoral em 2026 — em 48,6% dos casos, com ameaça explícita de demissão. O patrão bolsonarista manda áudio no grupo da empresa: quem não apoiar o candidato “já pode arrumar a mala e ir pra obra”. A Frente Livre documenta o padrão caso a caso: do estupro corretivo ao rasgo de cartaz na rua, a violência é o método de quem não tem argumento.
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O algoritmo que escolhe o lado
Essa violência não brota do nada. Ela é alimentada, amplificada e distribuída por plataformas que fingem neutralidade. A Anistia Internacional apresentou ao Facebook 15 anúncios eleitorais em português; 14 continham desinformação. Oito foram aceitos para publicação. Mais da metade. Para a organização, a Meta está minando o direito ao voto no Brasil. E quando a plataforma resolve agir, não é contra a mentira. É contra a esquerda.
A Frente Livre tem o documento: o Instagram notificou, por escrito, que “sua conta não pode ser exibida para não seguidores”. É o shadow ban admitido em texto claro. O historiador Jones Manoel, com 2 milhões de seguidores, sofreu o mesmo. O conteúdo existe, é publicado, mas ninguém vê. A conta do Chavoso da USP, jovem intelectual da periferia de São Paulo, foi simplesmente banida do Instagram, sem maiores explicações. O mesmo aconteceu com a conta Esquerda Sexy. Até mesmo o perfil do presidente Lula e de outros políticos de esquerda já sumiram da barra de buscas das plataformas da Meta em dezembro de 2025 — voltaram quando o shadow ban foi descoberto, sob a desculpa de “falha técnica”.
Enquanto isso, a mentira da direita é hiperexibida: a fake news de Nikolas Ferreira (PL-MG) sobre preços de alimentos — café a R$ 45,99 quando o encarte real mostra R$ 24,90, ovo a R$ 29,99 quando custa R$ 9,80 — atingiu 31 milhões de visualizações em menos de 24 horas. A Meta corta o alcance orgânico da esquerda e amplifica o impulsionamento pago da direita. A mentira gera mais engajamento que a verdade. O algoritmo sabe disso. E aprova a mentira.
O laboratório latino-americano
O que acontece no Brasil é a aplicação de um método testado em eleições recentes da região. Na Colômbia, o agora ex-presidente Gustavo Petro denunciou fraude algorítmica que teria alterado cerca de 7 milhões de votos para eleger a direita. No Peru, o mesmo padrão beneficiou Keiko Fujimori. No Chile, 27% dos votantes consultaram chatbots de inteligência artificial durante as eleições. No México, estudo do diário Milenio mostrou que quase metade da convocação de uma marcha contra Claudia Sheinbaum em 2025 foi feita por interações artificiais.
O mesmo roteiro em todos os países: o algoritmo amplifica a mentira da direita, oculta a verdade da esquerda e entrega o governo a quem serve aos interesses de Washington e de Tel Aviv.
A interferência confessada
O caso Fernando Cerimedo expõe a engrenagem. O argentino, devidamente homenageado e insensado por Eduardo Bolsonaro, que diz ser próximo dele, é o armador de campanhas de Javier Milei e conhecido como “rei dos trolls”. Está preso na Bolívia desde 18 de agosto, acusado de tentativa de homicídio contra a companheira grávida. Esta agora ex-companheira, Nadia Beller, levou três tiros e sobreviveu. Em vídeo que viralizou, ela afirma ter em mãos as bases de dados dos bots usados em campanhas políticas desde 2019 — no Chile, no Brasil, na Argentina, na Colômbia, no Peru, no Equador e na Bolívia. Durante as buscas na Bolívia, a polícia encontrou equipamentos descritos como uma “pequena granja de bots”: milhares de celulares programados para mapear seus medos, suas preferências e seus pontos frágeis, e transformá-los em mentira dirigida.
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A declaração atribuída a Cerimedo sacode a região: “Si hablo, caen 8 gobiernos”. Se eu falar, caem oito governos. Argentina, Chile, Honduras, Colômbia, El Salvador, Peru, Bolívia e Paraguai na lista. O estrago já é visível: a conta de Javier Milei no X despencou em interações depois do colapso das fazendas de bots — o presidente argentino amarga tuítes de mil curtidas, acostumado que estava a cinco dígitos, e a lista de seguidores encheu de perfis sem foto.
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No Brasil, os robôs de Cerimedo teriam trabalhado para convencer eleitores gays de que Jair Bolsonaro nunca disse preferir “um filho morto do que um filho gay”; eleitores negros, de que ele não chamou negros de preguiçosos e pesados “em arrobas”; eleitores misóginos, de que ele não estupra mulheres “quando elas são feias”. Tudo registrado. E tudo negado pelas fazendas de robôs. É uma ilusão coletiva criada para manipular as escolhas do povo.
A interferência estrangeira, aliás, é confessada. O ministro de Assuntos da Diáspora de Israel, Amichai Chikli, admitiu que o governo israelense articulou com Eduardo Bolsonaro uma campanha para atacar Lula. O tarifaço de 25% sobre exportações brasileiras, costurado pela família Bolsonaro com Donald Trump, atinge US$ 6,6 bilhões — arma eleitoral, não medida comercial. E o gangster internacional da extrema direita, especialista em roubar eleições, hoje responde por tentar matar.
Acorda, Brasil
A Organização dos Estados Americanos (OEA) vai mandar observadores para as eleições. Vão verificar a integridade das urnas — que são seguras e auditáveis. Não vão verificar o que o eleitor leu, viu e ouviu nas semanas anteriores. Não verificam o shadow ban. Não verificam o impulsionamento pago. Não verificam a manipulação algorítmica que já decidiu eleições na América Latina. A interferência não acontece nos locais de votação. Acontece antes. Acontece no algoritmo.
O Datafolha mostra o país dividido: Lula com 48% e Flávio Bolsonaro com 43% no segundo turno. Cinco pontos. É exatamente a margem que a manipulação algorítmica pode decidir. O fascismo ameaça estuprar, esquartejar e matar quem ocupa espaço de poder. As plataformas escondem quem denuncia. Os patrões ameaçam demitir quem vota livre. Os robôs trabalham no escuro. Tudo ao mesmo tempo, a menos de um mês do primeiro turno.
Acorda, Brasil, antes que seja tarde demais. A democracia se defende nas ruas, no voto e na recusa de aceitar que um algoritmo decida o destino do povo. A violência é o método de quem não tem argumento. O algoritmo é a arma de quem não tem voto. Que o povo brasileiro, mobilizado e consciente, não entregue o futuro a nenhum dos dois. O caminho começa no voto: em Lula 13 e em um Congresso renovado com nomes progressistas. Pensem. Reflitam. Raciocinem. Antes que o feed decida por você.








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