Na tarde desta quinta-feira (5/6), a Academia Francesa recebeu, pela segunda vez em quatro séculos, um brasileiro com a mais alta honraria que concede a chefes de Estado. A primeira vez foi em 1872, com Dom Pedro II, monarca do Brasil Império. A segunda, agora, é com Luiz Inácio Lula da Silva nordestino, operário e líder da maior experiência democrática da história do país.
A diferença entre os dois não está apenas no tempo, mas no lugar de onde cada um veio e quem eles representaram. Dom Pedro foi homenageado como símbolo do velho Brasil escravocrata, da elite letrada que ignorava o povo que ardia no sol do café e da cana. Já Lula chega como filho da seca, da miséria e da luta sindical. Se o primeiro falou francês fluente, o segundo fez o mundo escutar o sotaque nordestino com orgulho.
“Eu não sou acadêmico. Nasci em uma região muito pobre. Só tenho o diploma primário e um curso técnico. O resto aprendi na vida, para sobreviver”, disse Lula, emocionado, diante dos imortais franceses. A frase já viral nas redes não é falsa modéstia, é manifesto. O mesmo presidente que foi preso sem provas, difamado pelas elites e ainda assim voltou ao poder, agora entra pela porta da frente de uma das instituições mais conservadoras do mundo ocidental.
No encontro, o presidente também celebrou o multilateralismo e cobrou ação internacional diante do genocídio em Gaza. Ao lado de Macron, Lula exigiu o que as potências europeias evitam encarar: o silêncio global diante de crimes contra a humanidade. “É triste saber que o mundo se cala diante de um genocídio”, disse ele, com a firmeza de quem sabe que palavra, quando bem usada, vale mais que tanques.
A cerimônia ainda marcou a inclusão simbólica da palavra multilatéralisme no dicionário da Academia. Um gesto que vai além da diplomacia é um recado direto contra o autoritarismo global e a lógica unilateral de guerra e exclusão.
Lula também lembrou que o português brasileiro é herdeiro do tupi, do quimbundo e do iorubá línguas apagadas pela violência colonial, mas ainda vivas na fala cotidiana do povo. A língua do Brasil, ao contrário da francesa, nunca foi só da elite. “A palavra precisa de instituições que a cultivem e defendam”, disse. Mas com um adendo: precisa também das ruas que a reinventam.
BOX DE ANÁLISE COMPARADA
| Dom Pedro II (1872) | Lula (2025) |
|---|---|
| Imperador do Brasil, defensor da monarquia | Ex-metalúrgico, presidente eleito 3 vezes |
| Filho da elite escravocrata | Filho da seca e da pobreza no sertão |
| Representou o Brasil imperial | Representa o Brasil popular, negro, nordestino |
| Visitou Paris como símbolo da ordem colonial | Chegou a Paris como líder do Sul Global |
| Falava francês e se vestia como europeu | Falou com sotaque nordestino e história na pele |
Fonte: Agência GovBR






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